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Congresso Internacional Fernando Pessoa 2017

16/02/2017
NFS Nuno Ferreira Santos - 10 Fevereiro 2017 - Congresso internacional Fernando Pessoa na Gulbenkian

Foto de Nuno Ferreira Santos – 10 Fevereiro 2017 – Congresso internacional Fernando Pessoa na Gulbenkian

Texto de Bruno Fontes e Rita Catania Marrone

Quarenta anos depois do primeiro Simpósio Internacional dedicado a Fernando Pessoa, que teve lugar na Brown University (Providence, Rhode Island, E.U.A.) em 1977, os estudiosos da sua obra voltaram a reunir-se à volta da mesma mesa. Desta vez, foi na ilustre mesa da Fundação Calouste Gulbenkian que os palestrantes, provenientes de diferentes universidades do mundo e das mais variadas áreas de formação, se reuniram para o Congresso Internacional Fernando Pessoa 2017 – que teve lugar entre os dias 9 e 11 de Fevereiro e foi organizado pela Casa Fernando Pessoa com o apoio da referida Fundação e a colaboração da Junta de Freguesia de Campo de Ourique (Lisboa).

Assistir a um Congresso Internacional sobre Fernando Pessoa é quase como assistir a um concerto dos Rolling Stones, já que Pessoa é um evergreen que tem a capacidade de juntar três gerações de “fãs”. Assim, entre o público, ao lado de estudantes da escola secundária ou de pessoas simplesmente interessadas na vida e obra do poeta dos heterónimos, estavam os veteranos de outrora, que já tinham participado nas edições passadas, bem como os novos estudiosos, que há alguns anos andam a mergulhar na arca sem fundo.

No Auditório 2 da Fundação, ao longo de três dias, intervalaram-se palestras, mesas redondas e entrevistas, com a participação dos mais consagrados especialistas da obra pessoana (como Richard Zenith, António Feijó, Patrick Quillier e Paulo Borges, só para citar alguns). Porém, a novidade desta edição foi o facto de aproximar à antiga geração de estudiosos a mais recente. Nesse sentido, foi dado um espaço considerável aos trabalhos de doutoramento em curso, muitos dos quais dedicados a aspetos da constelação-Pessoa que até agora têm permanecido inexplorados. Assim, Dalila Milheiro explorou Pessoa através do olhar de Ana Hatherly, Rui Sousa apresentou o poeta como libertino no sentido originário do termo (ou seja, como livre pensador), Madalena Lobo Antunes propôs uma leitura marxista de Bernardo Soares, Marisa Mourinha percorreu as páginas da poética pessoana para fazer uma “apologia da inutilidade” e Jorge Uribe pôs o acento na importância do Pessoa editado em vida ─ e não apenas do inédito, para fazer justiça a uma faceta do poeta que ainda não tem encontrado a atenção que mereceria. Novos nomes e novas ideias, numa clara demonstração do quanto, mesmo passados 82 anos sobre a morte de Pessoa, ainda há por explorar.

As Materialidades da Literatura também estiveram presentes no Congresso, com as comunicações de Osvaldo Manuel Silvestre, Manuel Portela, Bruno Fontes e Rita Catania Marrone. O Professor Osvaldo Manuel Silvestre interveio no primeiro dia do Congresso, na mesa “Pessoa Cosmopolita”, onde expôs o conflito entre a poesia de Fernando Pessoa e as diferentes modalidades de imperialismo, dando particular relevo ao modo como estas se relacionam com a gramática e com a língua. O Professor Manuel Portela apresentou, no dia seguinte, a forma como o Arquivo LdoD transforma o Livro do desassossego numa máquina literária, no sentido em que permite associar ferramentas de representação genética e crítica com funcionalidades de performatividade literária, tornando assim possível fazer experiências com a natureza da escrita, da leitura, da edição e do Livro. Já os dois doutorandos demostraram como a abordagem das Materialidades permite a inauguração de novos olhares hermenêuticos: Rita Marrone (no dia 10) referiu a importância do estudo da biblioteca de Pessoa, no âmbito do seu projeto de doutoramento sobre os livros relacionados com esoterismo que pertenciam ao poeta, enquanto Bruno Fontes mostrou (no dia 11) a relação entre cinema e escrita, através de dois filmes “pessoanos” de João Botelho, o Filme do Desassossego (2010) e Conversa Acabada (1981).

Quando é que se pode afirmar que um autor se tornou num clássico? Quando a sua obra é uma fonte inesgotável de inspiração ao longo das épocas e é capaz de falar a todas as gerações, independentemente do lugar, do idioma e do contexto histórico-cultural. E Fernando Pessoa é decerto tudo isto – e mais alguma coisa. Se é verdade, como afirmou Manuel Portela na sua comunicação, que um clássico do século XXI é o que pode ser lido por um computador, então o Congresso também veio comprovar essa declaração, com a apresentação, por parte de Pedro Sepúlveda, do projeto Pessoa Digital e do já citado arquivo digital Nenhum Problema Tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego, pelo próprio Portela. E esta questão, que reitera o facto de que a obra pessoana consegue aliar a tradição à novidade e potencia uma convivência horizontal entre a comunidade científica e o público em geral, é uma prova bastante convincente tanto do sucesso deste Congresso como da inegável permanência de Fernando Pessoa como autor maior da Literatura Universal.

Seminário por Kate Pullinger

15/02/2017
© Cartaz de Tiago Santos.

© Cartaz de Tiago Santos.

Kate Pullinger (Bath Spa University, UK) fará um seminário intitulado “Smartfiction: New Forms for Writing and Reading”, no próximo dia 3 de março de 2017, pelas 14h30, na Sala Ferreira Lima (6º piso, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra). Este seminário é uma coorganização do Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura e do Mestrado em Tradução. A visita de Kate Pullinger à Universidade de Coimbra é apoiada pelo Centro de Literatura Portuguesa e inclui ainda, a 2 de março, uma reunião do grupo de trabalho do projeto de tradução da obra “Inanimate Alice” para português. Trata-se de um grupo de trabalho coordenado por Ana Maria Machado, com a participação de Ana Aguilar (Materialidades da Literatura) e António Oliveira (Tradução), integrado no projeto de investigação “ReCodex: Formas e Transformações do Livro“.

I write fiction for traditional print publication as well as collaborative multimedia digital projects. My 2014 novel, ‘Landing Gear’ grew out of my participatory digital project ‘Flight Paths: A Networked Novel’, and was published by Penguin Random House with an extract of the novel as API and interactive map. ‘The Mistress of Nothing’ won Canada’s Governor General’s Award for Fiction, 2009; my digital fiction project ‘Inanimate Alice’ has won a number of prizes. In 2014 I co-created, with Neil Bartlett, ‘Letter to an Unknown Soldier’; this was a digital war memorial and national participatory writing event commissioned by 14-18 NOW to mark the centenary of WW1. More than 21,000 people wrote letters to the soldier. My primary interest is in practice-based research on the intersection of fiction and technology, and hybrid collaborative digital forms. I’m the Co-Director of the Making Books: Creativity, Print Culture, and the Digital Research Centre.

Kate Pullinger

Conferências MATLIT: Sónia Deus e Matheus de Brito

21/01/2017
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© Cartaz de Tiago Santos.

No próximo dia 27 de janeiro de 2017, pelas 15h00, na Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC), tem início um novo ciclo de conferências. As Conferências MATLIT pretendem dar a conhecer a investigação levada a cabo no âmbito do Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura, em particular através de uma apresentação pública dos contributos originais para o conhecimento das teses de doutoramento em Materialidades da Literatura recém-concluídas. A construção de objetos teóricos e de abordagens metodológicas centradas nos processos mediais e intermediais de inscrição literária poderá assim ser conhecida também através da produção de teses do próprio Programa.

Sónia Deus (doutorada em Materialidades da Literatura pela Universidade de Coimbra em dezembro de 2016) fará a conferência intitulada «O “mecanismo do livro” na laudatória fúnebre Barroca. Últimas Acções do Duque D. Nuno Álvares Pereira de Mello – uma leitura da materialidade do texto». Matheus de Brito (doutorado em Materialidades da Literatura pela Universidade de Coimbra em janeiro de 2017) fará a conferência intitulada «Da indústria da hermenêutica à verdade estética».

Seminário por Fabio Durão

13/01/2017
© Cartaz de Tiago Santos.

© Cartaz de Tiago Santos.

Fabio Akcelrud Durão (Unicamp, Brasil) fará um seminário intitulado «O que aconteceu com a teoria?», no próximo dia 18 de janeiro de 2017, pelas 14h30, no Instituto de Estudos Brasileiros (5º piso, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra). Este seminário é uma coorganização do Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura e do Instituto de Estudos Brasileiros.

Fabio Durão é professor Livre-Docente do Departamento de Teoria Literária da Unicamp. É licenciado em Português/Inglês pela UFRJ, e obteve o mestrado em Teoria Literária pela UNICAMP. Doutorou-se na Duke University, onde estudou com Frank Lentricchia e Fredric Jameson. É autor dos livros Fragmentos Reunidos (Nankin, 2015), Modernism and Coherence (Peter Lang, 2008) e Teoria (literária) americana (Autores Associados, 2011); coeditou, entre outros, Modernism Group Dynamics: The Politics and Poetics of Friendship (Cambridge Scholars Publishing, 2008); e organizou Culture Industry Today (Cambridge Scholars Publishing, 2010). Editor Associado da revista Alea, publicou diversos artigos no Brasil e no exterior, em periódicos como Critique, Cultural Critique, Luso-Brazilian Review, Parallax, The Brooklyn Rail e Wasafiri. Os seus interesses de pesquisa incluem a Escola de Frankfurt, o modernismo de língua inglesa e a teoria crítica brasileira. De 2014 a 2016 foi presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL). Atualmente é membro do Comitê de Assessoramento (CA) da área de Letras do CNPq.

Resumo

Não obstante, é necessário reconhecer que algo de fato aconteceu com a Teoria. Seus anos heroicos já se foram. Vários de seus conceitos, que tantas promessas traziam, a partir dos quais novas dimensões de sentido pareciam descortinar-se, foram incorporados à rotina acadêmica de produção; os novos termos cunhados pelos teóricos de hoje têm um gosto requentado. A Teoria parece não mais conseguir gerar surpresas e abrir caminhos realmente novos (compare-se Agamben com Foucault ou Benjamin, Žižek com Lacan, Flusser com McLuhan, Habermas ou Honneth com Adorno): nesse sentido, não mais vive; ainda assim, não está exatamente morta, se isso significar que ela deva (ou possa) ser abandonada por alguma espécie de imediaticidade da vida ou frescor da existência. O nome daquilo que não está vivo nem realmente morreu é zumbi. A tarefa de pensar a Teoria hoje é refletir sobre aquilo que fez dela um morto-vivo, um ente que não consegue verdadeiramente morrer – ainda mais uma vez: porque o decretar da morte já implicaria uma teoria – mas cuja vitalidade não se aproxima daquilo que um dia já foi.

Projetos de tese 2017

11/01/2017

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A sexta edição do Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura teve início no ano letivo 2015-2016. Tal como previsto pelo plano de estudos (https://matlit.wordpress.com/programa/), no final do terceiro semestre realiza-se uma prova de qualificação, que consiste na defesa pública do projeto de tese de doutoramento. As provas de qualificação da sexta edição do Programa têm lugar nos dias 18, 19 e 20 de janeiro de 2017, de acordo com o horário indicado a seguir:

18 de janeiro de 2017
Projeto: Giorgia Casara (PD/BD/113769/2015), «As fronteiras do livro em Almada Negreiros»
Hora: 11h00, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
Manuel Portela (pres.)
Fernando Cabral Martins (arguente)
Osvaldo Manuel Silvestre (orient.)

19 de janeiro de 2017
Projeto: Sofia Escourido, «A página como possibilidade: Patrícia Portela, Joana Bértholo e Afonso Cruz»
Hora: 10h00, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
Osvaldo Manuel Silvestre (pres.)
Ana Paula Arnaut (arguente)
Manuel Portela (orient.)

Projeto:  Carolina Martins (PD/BD/113767/2015), «Perspectivas da Espacialidade em Instalações de Narrativas Gráficas»
Hora: 11h30, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
António Sousa Ribeiro (pres.)
António Olaio (arguente)
Paulo Silva Pereira (orient.)

Projeto: Tiago Santos (PD/BD/113768/2015), «Arqueologia e expressividade da letra tipográfica na poesia de Augusto de Campos»
Hora: 14h30, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
António Sousa Ribeiro (pres.)
Pedro Reis (arguente)
Manuel Portela (orient.)

Projeto: Liliana Vasques, «Os poetas digitais escrevem? – Apropriação textual e remix na criação de poesia digital»
Hora: 16h00, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
Paulo Silva Pereira (pres.)
Pedro Reis (arguente)
Rui Torres (coorient.)
Manuel Portela (orient.)

Projeto: Maíra Wiese (CAPES: BEX 1819/2015-08), «Leitura configurativa na poesia digital»
Hora: 17h30, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
Paulo Silva Pereira (pres.)
Rui Torres (arguente)
Manuel Portela (orient.)

20 de janeiro de 2017
Projeto: Ian Ezerin (PD/BD/113771/2015), «Digital Seriality: transmedia(l), multimodal, hyper»
Hora: 10h00, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
Osvaldo Manuel Silvestre (pres.)
Jorge Martins Rosa (arguente)
Paulo Silva Pereira (orient.)

Projeto: Raquel Gonçalves, «Possibilidades de Infinito – As máquinas literárias de Herberto Helder e Gonçalo M. Tavares»
Hora: 11h30, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
Manuel Portela (pres.)
Pedro Eiras (arguente)
Osvaldo Manuel Silvestre (orient.)

Projeto: Ricardo Brites, «Herberto Helder: uma encenação autoral»
Hora: 14h30, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
António Sousa Ribeiro (pres.)
Pedro Eiras (arguente)
Osvaldo Manuel Silvestre (orient.)

 

As provas relativas aos oito projetos de tese da quinta edição do Programa realizaram-se a 29 de janeiro e 3 de fevereiro de 2016.

As provas relativas aos cinco projetos de tese da quarta edição do Programa realizaram-se a 23 de janeiro de 2015.

As provas relativas aos cinco projetos de tese da terceira edição do Programa realizaram-se a 24 de janeiro de 2014.

As provas relativas aos três projetos de tese da segunda edição do Programa realizaram-se a 1 de fevereiro de 2013.

As provas relativas aos quatro projetos de tese da primeira edição do Programa realizaram-se a 27 de janeiro de 2012.

Doutoramento Nº 4

11/01/2017

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Realizam-se na próxima terça-feira, dia 17 de janeiro de 2017, pelas 14h30, na Sala dos Atos da Universidade de Coimbra, as provas de doutoramento em Materialidades da Literatura de Matheus de Brito, candidato da segunda edição do Programa, que teve início em 2011-2012. O candidato apresenta a tese «Materialidade e Contigência: contribuições à reflexão estética nos estudos literários», realizada em regime de cotutela na Universidade de Coimbra (Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura) e na Unicamp (Programa de Pós-graduação em Teoria e História Literária).

O júri, nomeado por despacho reitoral de 3 de janeiro de 2017, tem a seguinte constituição:
Presidente:
Marta Teixeira Anacleto (Professora Associada com Agregação, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)
Vogais:
Fabio Akcelrud Durão (Professor Livre-Docente, Universidade Estadual de Campinas)
Eduardo Sterzi (Professor Auxiliar, Universidade Estadual de Campinas)
Pedro Serra (Professor Titular, Universidade de Salamanca)
Ricardo Namora (Leitor Convidado, Universidade de Estocolmo)
António Sousa Ribeiro (Professor Catedrático, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)
Manuel Portela (Professor Auxiliar com Agregação, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)

Esta tese – a quarta do Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura – integra-se numa das linhas de investigação do Programa sobre as relações entre tecnologias de inscrição e formas literárias, incluindo o estudo da escrita como inscrição (Ex Machina: Inscrição e Literatura). A investigação de Matheus de Brito incidiu sobre as implicações das materialidades da literatura para a teoria literária:

Resumo

A Teoria Literária surgiu, consolidou-se como disciplina e entrou em colapso durante o século XX. Enquanto parte da institucionalização do estudo acadêmico da literatura, a Teoria rechaçou tanto o historicismo associado à Filologia como a abordagem estético-filosófica da obra literária, promovendo o que seria um paradigma epistemológico mais “adequado”. Seu compromisso com a disciplina da Linguística, que alimentou o desprezo por fatores “extrínsecos” ao texto literário, foi para tal decisivo. No entanto, em consequência dos próprios limites metodológicos que subscreveu, e junto à crítica geral aos conceitos e interesses cognitivos tradicionais das Humanidades – crítica então levada a cabo pela “virada linguística” e a seguir pela “virada cultural” –, a Teoria da Literatura pouco a pouco perdeu espaço para outras formas de discurso. Trata-se da institucionalização do pós-estruturalismo e da Desconstrução, dos estudos culturais e demais abordagens temáticas – e de sua subsequente fragmentação no atual quadro “pós-teórico.” Em certo sentido, essas manifestações podem ser compreendidas como uma complexificação interna ao paradigma, como catálogos descritivos em disputa, e não como resultantes de uma ruptura radical. Permanece-lhes comum uma concepção transmissivo-semiótica da textualidade literária, apenas infletida no tocante à semântica textual. Por essa razão, os dissidentes não deixaram de incorrer em problemas análogos àqueles acusados nas abordagens tradicionais, e mesmo delas herdados – desde já do fato de que seu enlace com a linguística não só permaneceu inquestionado como se tornou sua ferramenta crítica por excelência. Entretanto, como contraparte dessas abordagens hoje correntes, fez-se progressivamente visível uma série de outras intenções teóricas, que se poderiam sumarizar como uma problematização da materialidade. Comum a essas outras intenções e junto a essa categoria, parece estar em operação uma epistemologia da não-identidade, dotada de uma dupla função: por um lado, permite-lhes serem mais do que simples recaídas nas abordagens pré-teóricas do historicismo e do esteticismo; por outro, exime-lhes de construírem seus catálogos descritivos com base nas mesmas regras da Teoria de penhor linguístico. Se, a princípio, poder-se-ia entender essa categoria – de materialidade – como signo de um retorno à Filologia, é também à volta dela que se percebe um retorno da Estética nos estudos literários. Nosso trabalho questiona e mensura a validade dessa teorização literária, com especial atenção à ideia de “contingência,” não-identidade. Para tal, seguimos sobretudo o percurso teórico-crítico de três autores: num momento, o trabalho de Hans Ulrich Gumbrecht, que de modo mais conceitualmente explícito, volumoso e inconstante esforça-se por elaborar a categoria da materialidade por vias radicalmente distintas daquela adotada pela tradicional teoria e pelas abordagens correntes; num outro, os trabalhos de Jerome McGann e Johanna Drucker, os quais procuraram implementar e medir de maneira prática o que poderia ser uma tal via alternativa, processo através do qual diferentes modelos emergiram. Consideramos como esses autores respondem ao atual cenário da teoria e da crítica literária e como suas reflexões têm ressonância dentro e fora desse contexto, isto é, como também se inserem numa discussão epistemológica mais ampla. Repensando os métodos de que se valem os estudos literários, este trabalho visa contribuir com a reorientação da teoria literária no âmbito da contemporânea reflexão estético-filosófica. Em última instância, pensar a materialidade exige não apenas que se considerem os predicados fundamentais e as premissas da teoria literária mas que se faça o esforço por sua transformação.

Doutoramento Nº 3

14/12/2016

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Realizam-se na próxima quarta-feira, dia 21 de dezembro de 2016, pelas 15h00, na Sala dos Atos da Universidade de Coimbra, as provas de doutoramento em Materialidades da Literatura de Sónia Deus, candidata da segunda edição do Programa, que teve início em 2011-2012. A candidata apresenta a tese «Imago mortis. Cultura visual, ekphrasis e retórica da morte no Barroco luso-brasileiro».

O júri, nomeado por despacho reitoral de 11 de outubro de 2016, tem a seguinte constituição:
Presidente:
Manuel Portela (Professor Auxiliar com Agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)
Vogais:
Isabel Almeida (Professora Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
Micaela Ramon (Professora Auxiliar do Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho)
José Augusto Bernardes (Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)
Paulo Silva Pereira (Professor Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)

Esta tese – a terceira do Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura – integra-se numa das linhas de investigação do Programa sobre as relações entre tecnologias de inscrição e formas literárias, incluindo o estudo da intermedialidade e das relações texto-imagem (Ex Machina: Inscrição e Literatura). A investigação de Sónia Deus incidiu sobre as relações texto-imagem na literatura barroca:

Resumo

Esta tese parte dos novos pressupostos teóricos e dos instrumentos metodológicos facultados pelo campo de estudos das materialidades da comunicação, da cultura e da literatura. A inovadora abordagem metodológica e científica ao nível dos estudos literários e interartes, que o Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura vem propondo, permitiu o desenvolvimento de uma investigação que analisasse com particular acuidade os fenómenos de interação entre textualidade e visualidade no âmbito do Barroco luso-brasileiro. Por conseguinte, propõe-se estudar o valor semântico e a função expressiva de elementos da materialidade do texto, atentando nomeadamente na forma como se concretiza na superfície de inscrição, bem como os mecanismos que determinam a sua receção e interpretação, e que são inerentes à cultura visual e à produção literária deste período histórico-artístico. De um modo mais concreto, focar-se-ão elementos (tipo)gráficos, icónicos, semânticos, picturais e retórico-formais que interferem na experiência cognitiva da leitura. O facto de se adotar uma perspetiva de investigação alicerçada na análise integrada das materialidades da literatura, das artes e da cultura possibilitou retirar um conjunto de inferências que dizem respeito à dimensão comunicativa dos textos e à sua configuração simbólico-expressiva. Neste sentido, foi necessário considerar os aspetos que integram o campo hermenêutico, mas também avaliar o impacto de todos os componentes espetaculares nos sujeitos, procurando convocar para este estudo a noção de “presença”, tal como foi definida por Hans Ulrich Gumbrecht, para analisar igualmente os aspetos do campo não-hermenêutico.

Na base desta investigação encontra-se a imago mortis, que se manifesta na materialidade de um largo conjunto de textos, e que desde cedo se estabeleceu, na cultura ocidental, como pilar da antropologia cristã, cumprindo um duplo propósito estético e ético. Partindo da análise da influência que os textos precetivos mais preponderantes no período barroco tiveram sobre os autores que laboraram no espaço luso-brasileiro, pretende-se demonstrar que a relação entre ikon e logos constitui um procedimento lógico-retórico eficiente na concretização das faculdades do engenho e da agudeza. Com este propósito em vista, procurou-se definir um corpus textual em que a visualidade surge associada ao tema da morte, assim como a uma constelação de aspetos temáticos afins. Por essa razão, o horizonte de trabalho abrangerá diversos géneros literários e artísticos, em suporte manuscrito e impresso, com destaque para os textos visuais, a poesia artificiosa e a emblemática, implicando a articulação entre as componentes materiais que integram o “mecanismo do livro”. Como tal, a pesquisa desenvolveu-se dentro de um quadro analítico alargado, que teve forçosamente de considerar a história do livro, da gravura e das técnicas de reprodução, assim como as dimensões estético-literária, histórica, social e cultural que envolvem a produção textual na esfera da laudatio funebris barroca.