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Curso Breve: De Cartas e Mapas

22/04/2017

Sonia Miceli dará, nos dias 3 e 4 de maio de 2017, no Instituto de Estudos Brasileiros, um curso intitulado “De cartas e mapas. Os projetos de livro de Ruy Duarte de Carvalho e Bernardo Carvalho”. O curso explora dois grandes livros de dois importantes escritores de Angola e Brasil – Os papéis do inglês, de RDC, e Nove noites, de BC -, livros cuja própria constituição enquanto “livro” é uma das suas questões centrais. Campos a explorar: 1) Livro; 2) Cartografia; 3) Literatura e etnografia; 4) Autoficção; 5) Viagens. Pela sua natureza intensiva, terá um número máximo de 15 inscritos. Os materiais do curso serão distribuídos previamente às pessoas inscritas. Serão passados certificados de frequência. Este curso breve é uma iniciativa conjunta do Instituto de Estudos Brasileiros, do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura e da Pós-Graduação em Literatura de Língua Portuguesa.

As obras de Bernardo Carvalho e de Ruy Duarte de Carvalho são caraterizadas por um alto grau de autorreflexividade, partilhando o recurso ao dispositivo da carta e ao motivo da viagem: é a circulação das cartas e dos corpos que põe as narrativas em movimento, determinando a estrutura do livro. A partir da leitura de um conjunto de romances destes autores, refletir-se-á sobre os projetos de livro que os sustentam e sobre as suas figurações, com destaque para a carta e o mapa.

Sonia Miceli é doutorada em Estudos Comparatistas pela Universidade de Lisboa (2017), com uma tese sobre literatura e etnografia em Bernardo Carvalho e Ruy Duarte de Carvalho. É membro do Projeto DIIA – Diálogos Ibéricos e Iberoamericanos (CEC/UL), e os seus interesses de investigação incluem a literatura brasileira contemporânea, literatura e cinema, os estudos de paisagem, as relações entre literatura e antropologia.

 

Doutoramento Nº 5

18/04/2017

Realizam-se na próxima segunda-feira, dia 24 de abril de 2017, pelas 15h00, na Sala dos Atos da Universidade de Coimbra, as provas de doutoramento em Materialidades da Literatura de Manaíra Aires Athayde, candidata da terceira edição do Programa, que teve início em 2012-2013. A candidata apresenta a tese «Ruy Belo e o Modernismo Brasileiro. Poesia, Espólio».

O júri, nomeado por despacho reitoral de 13 de dezembro de 2016, tem a seguinte constituição:
Presidente:
Manuel Portela (Professor Auxiliar com Agregação, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)
Vogais:
Pedro Serra (Professor Titular, Universidade de Salamanca)
Clara Rowland (Professora Associada, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa)
Joana Matos Frias (Professora Auxiliar, Faculdade de Letras da Universidade do Porto)
José Carlos Seabra Pereira (Professor Associado, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)
Osvaldo Manuel Silvestre (Professor Auxiliar, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)

Esta tese – a quinta do Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura – integra-se numa das linhas de investigação do Programa sobre as relações entre tecnologias de inscrição e formas literárias, incluindo o estudo da escrita como inscrição (Ex Machina: Inscrição e Literatura). A investigação de Manaíra Aires Athayde incidiu sobre a relação da poesia de Ruy Belo com o modernismo brasileiro a partir da análise do espólio do autor:

Resumo

Esta tese propõe investigar como determinadas características, práticas e temáticas da literatura brasileira se encontram na construção do discurso poético de Ruy Belo (1933-1978), além de tentar perceber o seu interesse por certos aspectos culturais e político-sociais brasileiros. Para tanto, recorremos ao espólio do poeta, pela primeira vez explorado num trabalho científico, colocando em prática um método filológico que nos permite examinar, a partir uma perspectiva inédita, os mecanismos de produção poética de Ruy Belo. O material documental possui um papel seminal nas interrogações a que aqui tencionamos dar resposta. Procuramos saber que autores brasileiros Ruy Belo leu, e como os leu, sobretudo aqueles aos quais confessa ter ido “buscar a sua tradição modernista”. Neste sentido, os intercâmbios discursivos que desenvolvemos têm origem nas próprias inscrições materiais deixadas pelo poeta, num desafio de leitura que nos levou a comprovar intuições e hipóteses interpretativas a partir das descobertas feitas no espólio. O confronto da poesia de Ruy Belo, tal como o ensaiamos, com a obra de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Jorge de Lima, bem como a leitura que faz dos regionalistas modernistas brasileiros, permite-nos concluir que uma investigação desenvolvida sob estes pressupostos contribui, em diversos planos, para que compreendamos melhor aquela poesia.

Carlos de Oliveira: a parte submersa do iceberg

22/03/2017

Inauguração da exposição “Carlos de Oliveira: a parte submersa do iceberg”. Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, 18 de março de 2017.

Foi inaugurada no passado sábado, dia 18 de março, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a exposição do espólio de Carlos de Oliveira, com curadoria de Osvaldo Manuel Silvestre. O título da exposição provém de um texto de Carlos de Oliveira, “O iceberg”, incluído no volume O aprendiz de feiticeiro. Nesse texto, o autor fala de tudo aquilo que a falta de liberdade, durante o salazarismo, o inibiu de viver e de escrever, denunciado desde logo na sua frase inicial: «Pensando bem, não tenho biografia». A sequência do texto esclarece essa afirmação:

Melhor, todo o escritor português marginalizado sofre biograficamente do que posso denominar complexo do iceberg: um terço visível, dois terços debaixo de água. A parte submersa pelas circunstâncias que nos impediram de exprimir o que pensamos, de participar na vida pública, é um peso (quase morto) que dia a dia nos puxa para o fundo. Entretanto a linha de flutuação vai subindo e a parte que se vê diminui proporcionalmente.

A imagem da parte submersa do iceberg adapta-se bem àquilo que define um espólio: um conjunto de papéis e documentos que acompanha, ao longo do tempo mas longe da vista do público, uma obra publicada. Contudo, tratando-se de um espólio bastante rico, foi necessário selecionar drasticamente o material a exibir, bem como distribuir tarefas, para o que o curador contou com a ajuda de uma equipa que integra duas doutorandas do Programa em Materialidades da Literatura, Ana Sabino e Manaíra Athayde, além dos Professores Ricardo Namora e Rui Mateus, membros, como toda a equipa, do CLP. Rui Mateus tratou a poesia, Ricardo Namora o “caso” Finisterra. Paisagem e Povoamento, obra tardia e maior, Ana Sabino explorou o espólio gráfico do autor, Manaíra Athayde estudou a questão do arquivo em Carlos de Oliveira. A exposição combina, pois, um percurso biobibliográfico, mais completo no caso da poesia, única área da obra percorrida na íntegra, com a eleição de núcleos temáticos fortes: a interação fotografia-texto no percurso que vai do “trabalho de terreno” levado a cabo pelo casal Carlos e Ângela de Oliveira na Gândara, no início dos anos 50, até à edição, em 1953, de Uma Abelha na chuva, às fotos produzidas por Augusto Cabrita para a edição ilustrada da obra na D. Quixote no final dos anos 60 e, por fim, ao filme de Fernando Lopes sobre o romance (1972); a contextualização do campo literário, cultural e político português no final dos anos 60, recorrendo-se para tal aos 8 volumes publicados dos diários de José Gomes Ferreira, Dias Comuns; o espólio de Finisterra, que revela a existência de uma “versão” abandonada de uma obra que não era ainda Finisterra, mas de que se viria a aproveitar alguma coisa para esse romance; e o trabalho de alguns grandes designers que desenharam capas e coleções para a obra de Carlos de Oliveira, bem como os textos, éditos e inéditos, que revelam uma aguda consciência do livro como objeto e suporte no autor.

Inauguração da exposição “Carlos de Oliveira: a parte submersa do iceberg”. Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, 18 de março de 2017.

Um conjunto significativo de documentos singulariza a exposição, quer se trate de iconografia, documentos pessoais ou, obviamente, manuscritos, dactiloscritos, livros dedicados, etc. O visitante é ainda convidado a ver o filme de Fernando Lopes sobre Uma abelha na chuva e o filme de Margarida Gil sobre o escritor, Sobre o lado esquerdo (2008), bem como a ouvir poemas seus ditos por Maria Barroso.

Da exposição foi editado um catálogo, que inclui ensaios de todos os membros da equipa, catálogo acompanhado pela edição avulsa de um Micro-dicionário de Carlos de Oliveira, da autoria do curador. Resta dizer que a exposição incluirá uma vasta programação paralela, com lançamento de obras (um número da Colóquio-Letras dedicado a Carlos de Oliveira, um pequeno volume em homenagem a Ângela de Oliveira, falecida no ano transato), mesas-redondas e atividades de serviço educativo, no próprio Museu, bem como colóquios a realizar nas três cidades associadas à vida do autor. Em Cantanhede terá lugar um colóquio sobre “Gândara e cultura popular em Carlos de Oliveira”; em Coimbra, na Casa da Escrita, decorrerá um colóquio sobre “Carlos de Oliveira e a geração do neo-realismo coimbrão”; finalmente, em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa, realizar-se-á um colóquio sobre “Carlos de Oliveira e a Ideia do Moderno”.

É uma ilusão supor que um espólio como o de Carlos de Oliveira pode ser estudado num ano ou dois. Em rigor, um espólio desta dimensão necessita de trabalho ao longo de uma geração, de modo a que todas as suas articulações internas e externas sejam exploradas, ou seja, de forma a que a sua constituição plena como arquivo possa ser estabelecida. O trabalho agora feito é um começo, com todos os privilégios do começo e todas as frustrações que derivam da consciência disso. Mas é também um trabalho com o potencial para reativar a leitura da obra do autor e, a par disso, uma forma de criar uma nova geração de leitores da sua obra. Resta desejar que este trabalho possa vir a desembocar na produção de um Arquivo Digital Carlos de Oliveira.

Ex Machina: Inscrição e Literatura

21/03/2017

Cartaz de Tiago Santos.

No próximo dia 31 de março de 2017, no Instituto de Estudos Brasileiros (FLUC, 5º piso), realiza-se o colóquio “Ex Machina:  Inscrição e Literatura”, no qual serão apresentadas comunicações do projeto de investigação do mesmo nome, desenvolvido no âmbito do Grupo de Investigação “Mediação Digital e Materialidades da Literatura” do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Coordenado por Paulo Silva Pereira, “Ex Machina: Inscrição e Literatura” permitirá conhecer parte da investigação em curso no Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura. O colóquio conta ainda com a participação de dois oradores convidados: Rui Torres (Universidade Fernando Pessoa) e Jorge Martins Rosa (Universidade Nova de Lisboa). Consultar Programa.

O Projeto “Ex Machina: Inscrição e Literatura” é parte integrante do Grupo de Investigação “Mediação Digital e Materialidades da Literatura” do Centro de Literatura Portuguesa (CLP) da Universidade de Coimbra e tem por missão promover o estudo de formas, práticas e processos literários como sistema de inscrições de base tecnológica e medial, teorizando a experiência da significação literária a partir dos seus dispositivos. A datilografia alterou a relação da mão com a escrita, intensificando a consciência do código alfabético nos processos de composição literária. O computador e o processador de texto acentuaram as modificações introduzidas pela máquina de escrever, codificando e programando a escrita. A consciência acrescida da mediação técnica nos processos de produção simbólica, decorrente da generalização da reprodutibilidade digital e das redes de telecomunicação no mundo contemporâneo, permitiu desnaturalizar os dispositivos comunicacionais anteriores, como a imprensa e o livro ou o cinema e a fotografia, e reperspetivá-los a partir dos modos maquínicos de inscrição da palavra e do real. O poder simulatório e combinatório da tecnologia digital incrementou formas de criação literária de tipo metamedial e intermedial. Assim, concede-se especial importância ao acoplamento entre as tecnologias analógicas e digitais de inscrição enquanto sistemas de notação e os processos de invenção literária, tendo em atenção o contexto de proliferação medial das práticas de escrita.

VARIAÇÕES SOBRE ANTÓNIO: Um colóquio em torno de António Variações

17/03/2017

O Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura vem por este meio anunciar a organização de um Colóquio dedicado a António Variações, com o nome VARIAÇÕES SOBRE ANTÓNIO: Um colóquio em torno de António Variações, que terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, nos dias 7 e 8 de Dezembro de 2017.

 

O Colóquio:

O colóquio propõe-se estudar, quer a obra do compositor e cantor, quer aquilo que nela é sintoma de fenómenos mais vastos – um deles, e dos mais importantes, a forma como a cultura portuguesa posterior à Revolução de 1974 tenta sintonizar-se / dessintonizar-se com o mundo exterior e, em particular, com a cultura e civilização saída dos anos 60, sobretudo aquela latamente designável como pop. O colóquio é uma proposta do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura, e da área de Estudos Artísticos, ambos da FLUC, e conta, neste momento, com o apoio do Centro de Literatura Portuguesa, do Teatro Académico de Gil Vicente, do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, e do Jazz ao Centro Clube.

São entidades parceiras do colóquio o projeto Keep It Simple, Make It Fast, coordenado por Paula Guerra, o Núcleo de Estudos em Género e Música, coordenado por Paula Gomes-Ribeiro, e o Projeto Mural Sonoro, coordenado por Soraia Simões. Todas estas entidades estão representadas na Comissão Científica.

O colóquio é pensado sobretudo para as seguintes áreas disciplinares: musicologia, estudos artísticos, estudos literários, estudos intermédia, estudos culturais, ciências sociais, média e comunicação, história contemporânea.

A Comissão Científica do Colóquio é constituída por Adriana Calcanhotto (Artista, Professora convidada na FLUC); Fernando Matos Oliveira (Teatro Académico Gil Vicente); Manuel Portela (Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura); Paula Gomes-Ribeiro (NEGEM – Núcleo de Estudos em Género e Música); Paula Guerra (FLUP, Projeto Make It Fast, Keep It Simple); Paulo Estudante (Área de Estudos Artísticos da FLUC); Sérgio Dias Branco (Área de Estudos Artísticos da FLUC); Soraia Simões (FCSH, Projeto Mural Sonoro), e Stephen Wilson (Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da FLUC).

O colóquio terá ainda uma programação complementar, na área dos concertos, e performances. No primeiro caso, a organização desafiou músicos e bandas da zona de Coimbra para reinventarem a música de Variações, num concerto a ter lugar no TAGV. No que toca à performance, foi produzida uma Call for Performances subordinada ao título «Variações performáticas sobre António», vindo as performances selecionadas a ter lugar na Sala do Carvão – Casa das Caldeiras, e no Salão Brazil.

 

Contexto:

Com apenas dois LP’s, editados em 1983 (Anjo da Guarda) e 1984 (Dar & Receber), António Variações – nascido em 1944, com o nome de António Joaquim Rodrigues Ribeiro, e falecido em 1984 –, tornou-se um caso de estudo na música popular portuguesa, quer pelo cunho fulgurante do seu impacto, quer pelo rasto duradouro que deixou, manifesto em várias homenagens coletivas em disco, ou ao vivo, num «disco póstumo» (Humanos, 2004) elaborado por um conjunto de músicos portugueses a partir de maquetes de canções suas gravadas em cassetes, ou na importante biografia publicada por Manuela Gonzaga em 2006 (António Variações. Entre Braga e Nova Iorque, Âncora Editora).

A música, as letras das canções, a imagem, os vídeo-clips, tudo isso tem contribuído para que a presença de António Variações na cultura portuguesa não se tenha desvanecido, continuando, pelo contrário, a alimentar a imaginação do público. Tão importante como tudo isso, porém, é o paradigma que Variações representa na cena portuguesa dos anos 80, bem sintetizado pela frase, que terá dito ao produtor do seu primeiro disco, para enunciar o lugar estético em que via a sua música: «Uma coisa entre Braga e Nova Iorque». A frase não sugere um ponto de equilíbrio que seria, aliás, impossível de garantir; pelo contrário, parece enunciar uma pulsão de desequilíbrio ou de fabricação, não garantida por uma estabilidade identitária prévia – seja ela a da «cultura tradicional» ou a do «cosmopolitismo» –, para qualquer projeto de criação de uma versão moderna do popular, neste caso em Portugal. Nesse sentido, o percurso biográfico de Variações (que interioriza o típico percurso de um homem português da segunda metade do século XX, da aldeia à capital, à Guerra Colonial e à emigração) parece pressupor uma demanda, desde as origens minhotas a Lisboa e, depois, a Londres, Amesterdão, Nova Iorque, etc., mas uma demanda de algo que se produz, fabrica e falsifica pelo caminho, sem ceder a qualquer ilusão de um «encontro pleno com a alma» da cultura portuguesa ou do sujeito com as suas «raízes» e com a sua «verdade profunda», também ela objeto de uma encenação queer no limite do kitsch ou do camp, dando assim a ver, em modo espetacular, a identidade como recodificação. E isso é também reconhecível nas extraordinárias letras que Variações escreve para as suas canções, que oscilam entre uma versão fulgurante da poesia popular e a reinvenção literária que o leva a musicar, por exemplo, Fernando Pessoa.

Falar de António Variações é, pois, falar sempre de muito mais do que apenas das suas canções, já que não custa ler na sua obra e na forma como performatiza a sua identidade (pessoal e coletiva) algo que nos ajuda a ler Portugal na segunda metade do século XX, da música e da poesia à cultura, à sociedade e ao estado do «corpo político».

 

A Call for papers & performances, bem como toda a informação necessária, pode ser encontrada em antoniovariacoes.wordpress.com. Adicionalmente foram ainda criadas páginas relativas ao colóquio nas plataformas Facebook (https://pt-br.facebook.com/coloquiovariacoes/) e Twitter (https://twitter.com/variacoes2017).

A BD e o Brasil, Hoje

04/03/2017

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André Diniz, argumentista e desenhador de Banda Desenhada, com mais de uma dezena de prémios no Brasil, entre eles o prémio HQ MIX, em 2012, com Morro da Favela, estará no Instituto de Estudos Brasileiros (FLUC, 5º piso) no próximo dia 9 de março de 2017, entre as 15 h e as 17h, para uma conversa com João Miguel Lameiras, especialista em BD, sobre “A BD e o Brasil, hoje”. A sessão, organizada pelo Instituto de Estudos Brasileiros e pelo Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura, integra a programação da segunda edição do Coimbra BD e assinala o que se pretende seja o início de uma programação regular do IEB na área da BD, com alguns dos mais notáveis desenhadores brasileiros da atualidade. Mais informação: http://www.ieb.uc.pt/?tribe_events=conversa-entre-andre-diniz-e-joao-miguel-lameiras-a-bd-e-o-brasil-hoje

Congresso Internacional Fernando Pessoa 2017

16/02/2017
NFS Nuno Ferreira Santos - 10 Fevereiro 2017 - Congresso internacional Fernando Pessoa na Gulbenkian

Foto de Nuno Ferreira Santos – 10 Fevereiro 2017 – Congresso internacional Fernando Pessoa na Gulbenkian

Texto de Bruno Fontes e Rita Catania Marrone

Quarenta anos depois do primeiro Simpósio Internacional dedicado a Fernando Pessoa, que teve lugar na Brown University (Providence, Rhode Island, E.U.A.) em 1977, os estudiosos da sua obra voltaram a reunir-se à volta da mesma mesa. Desta vez, foi na ilustre mesa da Fundação Calouste Gulbenkian que os palestrantes, provenientes de diferentes universidades do mundo e das mais variadas áreas de formação, se reuniram para o Congresso Internacional Fernando Pessoa 2017 – que teve lugar entre os dias 9 e 11 de Fevereiro e foi organizado pela Casa Fernando Pessoa com o apoio da referida Fundação e a colaboração da Junta de Freguesia de Campo de Ourique (Lisboa).

Assistir a um Congresso Internacional sobre Fernando Pessoa é quase como assistir a um concerto dos Rolling Stones, já que Pessoa é um evergreen que tem a capacidade de juntar três gerações de “fãs”. Assim, entre o público, ao lado de estudantes da escola secundária ou de pessoas simplesmente interessadas na vida e obra do poeta dos heterónimos, estavam os veteranos de outrora, que já tinham participado nas edições passadas, bem como os novos estudiosos, que há alguns anos andam a mergulhar na arca sem fundo.

No Auditório 2 da Fundação, ao longo de três dias, intervalaram-se palestras, mesas redondas e entrevistas, com a participação dos mais consagrados especialistas da obra pessoana (como Richard Zenith, António Feijó, Patrick Quillier e Paulo Borges, só para citar alguns). Porém, a novidade desta edição foi o facto de aproximar à antiga geração de estudiosos a mais recente. Nesse sentido, foi dado um espaço considerável aos trabalhos de doutoramento em curso, muitos dos quais dedicados a aspetos da constelação-Pessoa que até agora têm permanecido inexplorados. Assim, Dalila Milheiro explorou Pessoa através do olhar de Ana Hatherly, Rui Sousa apresentou o poeta como libertino no sentido originário do termo (ou seja, como livre pensador), Madalena Lobo Antunes propôs uma leitura marxista de Bernardo Soares, Marisa Mourinha percorreu as páginas da poética pessoana para fazer uma “apologia da inutilidade” e Jorge Uribe pôs o acento na importância do Pessoa editado em vida ─ e não apenas do inédito, para fazer justiça a uma faceta do poeta que ainda não tem encontrado a atenção que mereceria. Novos nomes e novas ideias, numa clara demonstração do quanto, mesmo passados 82 anos sobre a morte de Pessoa, ainda há por explorar.

As Materialidades da Literatura também estiveram presentes no Congresso, com as comunicações de Osvaldo Manuel Silvestre, Manuel Portela, Bruno Fontes e Rita Catania Marrone. O Professor Osvaldo Manuel Silvestre interveio no primeiro dia do Congresso, na mesa “Pessoa Cosmopolita”, onde expôs o conflito entre a poesia de Fernando Pessoa e as diferentes modalidades de imperialismo, dando particular relevo ao modo como estas se relacionam com a gramática e com a língua. O Professor Manuel Portela apresentou, no dia seguinte, a forma como o Arquivo LdoD transforma o Livro do desassossego numa máquina literária, no sentido em que permite associar ferramentas de representação genética e crítica com funcionalidades de performatividade literária, tornando assim possível fazer experiências com a natureza da escrita, da leitura, da edição e do Livro. Já os dois doutorandos demostraram como a abordagem das Materialidades permite a inauguração de novos olhares hermenêuticos: Rita Marrone (no dia 10) referiu a importância do estudo da biblioteca de Pessoa, no âmbito do seu projeto de doutoramento sobre os livros relacionados com esoterismo que pertenciam ao poeta, enquanto Bruno Fontes mostrou (no dia 11) a relação entre cinema e escrita, através de dois filmes “pessoanos” de João Botelho, o Filme do Desassossego (2010) e Conversa Acabada (1981).

Quando é que se pode afirmar que um autor se tornou num clássico? Quando a sua obra é uma fonte inesgotável de inspiração ao longo das épocas e é capaz de falar a todas as gerações, independentemente do lugar, do idioma e do contexto histórico-cultural. E Fernando Pessoa é decerto tudo isto – e mais alguma coisa. Se é verdade, como afirmou Manuel Portela na sua comunicação, que um clássico do século XXI é o que pode ser lido por um computador, então o Congresso também veio comprovar essa declaração, com a apresentação, por parte de Pedro Sepúlveda, do projeto Pessoa Digital e do já citado arquivo digital Nenhum Problema Tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego, pelo próprio Portela. E esta questão, que reitera o facto de que a obra pessoana consegue aliar a tradição à novidade e potencia uma convivência horizontal entre a comunidade científica e o público em geral, é uma prova bastante convincente tanto do sucesso deste Congresso como da inegável permanência de Fernando Pessoa como autor maior da Literatura Universal.