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2010-2020: Incoming

21/05/2020

Henri Matisse, Interior with a Young Girl (Girl Reading). 1906. Oil on canvas, 28 5/8 x 23 1/2″ (72.7 x 59.7 cm) © MOMA.

Ao longo da última década, o reconhecimento internacional do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura manifestou-se também através do acolhimento de estudantes que, durante um semestre, frequentaram a Universidade de Coimbra para prosseguirem a sua investigação, participando em seminários curriculares e no ciclo regular de atividades. Encontrando no grupo de investigação do Programa uma interlocução relevante para os respetivos projetos de doutoramento, estes investigadores são oriundos de múltiplas instituições e diversas áreas disciplinares, incluindo estudos literários, comunicação, estudos fílmicos, antropologia, semiótica e design.

Financiados pelas respetivas instituições, através de agências como a CAPES ou o Programa ERASMUS, estes intercâmbios estão documentados nos resultados finais das suas pesquisas e nas redes de contactos e de colaboração entre os diversos Programas de pós-graduação e instituições envolvidas. Ao dispor-se a dialogar com o nosso trabalho a partir de outros contextos, adicionam espaços de intersecção entre áreas disciplinares e métodos distintos, contribuindo para reafirmar a natureza interdisciplinar que constitui a matriz do DML. Os dez anos do Programa podem assinalar-se recordando esse fluxo de entusiasmo intelectual e de dedicação que, ao longo dos anos, alargou a nossa comunidade com uma dezena de estudantes de mobilidade incoming, na sua maior parte oriundos de universidades brasileiras, através do PDSE (Programa de Doutorado-sanduíche no Exterior).

Os trabalhos produzidos indiciam o impacto do Doutoramento em Materialidades da Literatura sobre os seus percursos de investigação, por vezes refletido no título ou na estrutura das próprias teses, e na exploração de teorias, conceitos e temas estudados no Programa. Recordo alguns dos estudantes internacionais acolhidos: Mauren Pavão Przybylski (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Gustavo Cavalheiro (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Lúcia Joviano (Universidade Federal de Juiz de Fora), Erika Oikawa (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), Tatiana de Laai (Universidade Federal Fluminense), Alexandre Ranieri (Universidade Estadual de Londrina), Elissavet Pournara (Universidade Aristóteles de Salónica), Gustavo Ramos de Souza (Universidade Estadual de Londrina), Gisele Noll (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

Embora menos visíveis do que outros “indicadores de produção”, estes resultados podem ser lidos como um sinal indireto e deslocalizado do nosso trabalho coletivo. Paralelamente, a presença destes investigadores visitantes contribui para alargar a esfera de referências do Programa, tornado-se parte integrante das nossas atividades, como acontece com os encontros semestrais do Estado da Arte e com a publicação de várias recensões na revista MATLIT. De resto, as teses já defendidas poderiam facilmente associar-se com cada uma das três linhas principais de investigação (Ex Machina; Vox Media; ReCodex). Tal como acontece nas teses do Programa, a interdisciplinaridade dos métodos constitui expressão da intermedialidade das práticas e objetos estudados: relação entre oral e digital; alteração do rácio visão-tato na mediaçao técnica; a presença da história na cena da escrita modernista; as comunidades de escrita “fan fiction” e a banda desenhada; a ubiquidade da remediação digital do sujeito na relação com o seu próprio corpo; a remediação digital do arquivo fonográfico da cultura oral; a experimentação poética com a materialidade técnica nas retroações entre impresso, digital e aumentado; os modos de presença da escrita no cinema; as práticas de interação com assistentes automáticos de voz como interfaces de comunicação.

O catálogo das teses concluídas entre 2014 e 2020, na sequência de estadas de intercâmbio no Doutoramento em Materialidades da Literatura, mostra como estes estudantes conseguiram situar os seus projetos num diálogo estreito com o nosso trabalho. Evidencia ainda o esforço que temos feito para construir e manter um espaço especulativo, aberto à produtividade aleatória das interações entre investigadores juniores e seniores em múltiplos contextos disciplinares e institucionais. Os nove projetos seguintes são uma amostra dessas trocas genéticas ao longo da última década. Não sendo estritamente resultados do Programa, são sinais sustentados de um diálogo internacional em curso:

  1. Mauren Pavão Przybylski, Das Materialidades da Literatura: A Reinvenção da Vida e o Acervo de Narrativas Orais Urbano-Digitais (Orientação de Ana Lúcia Liberato Tettamanzy. Literaturas Portuguesa e Luso-Africanas, Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS, 2014. Bolsa PDSE CAPES)
  2. Gustavo Augusto Tavares Cavalheiro, O Tempo In-Media-Ato: a superação da visualidade por meio da tatilidade das não-coisas e-materializadas (Orientação de Lucrécia D`Alessio Ferrara. Programa de Estudos Pós-graduados de Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2014. Bolsa PDSE CAPES)
  3. Lúcia Helena da Silva Joviano, Pagu: escritos literários e inscrições históricas (Orientação de Alexandre Graça Faria. Programa de Pós-graduação em Letras: Estudos Literários, Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF, 2014. Bolsa PDSE CAPES)
  4. Tatiana de Laai, A identidade de fãs de quadrinhos: Entre a “vida civil” e a “vida nerd” (Orientação de Laura Graziela Figueiredo Fernandes Gomes. Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de Antropologia, 2016. Bolsa PDSE CAPES)
  5. Erika Oikawa, Produção de presença no contexto da comunicação ubíqua? Relações de complexidade entre corpo, tecnologia e ambientes digitais (Orientação de Juremir Machado da Silva. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul-PUCRS, 2016. Bolsa PDSE CAPES)
  6. Alexandre Ranieri Ferreira, Caleidoscópio Amazônico: A Oralidade Amazônica em Som, Imagem e Movimento (Orientação de Frederico Augusto Garcia Fernandes. Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina-UEL, 2016. Bolsa PDSE CAPES)
  7. Elissavet Pournara, Experimental Poetics and Materialities in the Works of Susan Howe, Stephanie Strickland, and Caitlin Fisher. (Orientação de Tatiani Rapatzikou. Programa de Doutoramento em Literatura Americana, 2018. Bolsa ERASMUS)
  8. Gustavo Ramos de Souza, Materialidades do cinema na literatura (Orientação de Luiz Carlos Santos Simon. Programa de Pós-graduação em Letras, Universidade Estadual de Londrina-UEL, 2019. Bolsa PDSE CAPES)
  9. Gisele Corrêa Noll, Materializações Digitais da Cultura: Os Transatores Vocais e a Comunicação Contemporânea (Orientação de André Fagundes Pase. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul-PUCRS, 2020. Bolsa PDSE CAPES)

O breve relato de Gisele Noll (disponível aqui) sobre a sua estada no Programa de Materialidades da Literatura (entre outubro de 2018 e março de 2019) dá-nos um testemunho da experiência de sair para um estágio de doutoramento fora do país. Nessa ida e volta Porto Alegre-Coimbra-Porto Alegre, encontramos o prazer da viagem e da descoberta, mas também o dever de corresponder ao apoio recebido. Sentimos ainda o ângulo de um olhar de fora sobre o Programa, gerado pela direção incoming do movimento. Aquilo que começou por uma troca de correspondência eletrónica, seguido de um processo burocrático de preparação, de um momento para o outro toma a forma de uma nova rotina num outro lugar rodeado de outra gente. É preciso fazer a viagem, arrendar casa, ir às compras, reorganizar o dia-a-dia, aprender novos percursos, atravessar a cidade, criar novas relações, repensar projetos, recalibrar expectativas, observar criticamente o que fazemos, procurar a energia para prosseguir. Ler, escrever. Voltar a ler, voltar a escrever. Regressar a um ponto diferente do ponto de partida.

Sessões Online Arquivo LdoD

05/05/2020

As nossas sessões criativas online são encontros para a leitura e a apropriação dinâmica dos fragmentos do Livro do Desassossego, assim como para a criação colaborativa de edições virtuais temáticas e a escrita de novos textos poéticos, por meio da utilização do Arquivo LdoD. Os encontros são abertos a público diverso: leitores assíduos, fãs de Fernando Pessoa, a comunidade acadêmica (com a participação de estudantes e professores), artistas dos mais diversos tipos, escritores e curiosos. Acompanhe a nossa agenda de sessões e venha tomar um copinho online conosco e recriar o Livro! PS: As sessões criativas fazem parte do projeto Fragmentos em Prática. Para mais informações acesse a nossa página no Facebook: <https://www.facebook.com/fragmentos.pratica/>

 

Sessão 1: Introdução ao Arquivo LdoD

13 de Maio de 2020, Quarta-feira  – 20:00hs (90 minutos)

A primeira sessão apresenta, passo a passo, as principais funcionalidades do Arquivo LdoD por meio dos dez vídeo-tutoriais explicativos do projeto Fragmentos em Prática. Essa introdução vídeo-guiada tem noventa minutos de duração e é acompanhada do grupo de moderação online para tirar dúvidas, experimentar conjuntamente as ferramentas, descobrir novos textos.

Para participar da nossa sala de trabalhos de trabalhos acesse: Sessão 1 – Introdução ao Arquivo LdoD.

Para confirmar a sua participação: Evento Facebook – Introdução ao Arquivo LdoD

 

 

Sessão 2: Sarau no Arquivo LdoD

20 de Maio de 2020, Quarta-feira  – 20:00hs (90 minutos)

A segunda sessão terá como tema, no esteio da pandemia global, o nosso atual estado de isolamento social. A edição virtual aberta “Não tendo o que fazer” (BNP/E3, 3-12r), será remodelada colaborativamente pelos participantes. Para isso, utilizaremos as ferramentas de pesquisa, leitura, seleção e anotação dos fragmentos do Arquivo LdoD para compor a nossa edição, assim como também discutiremos as sugestões textuais nos termos da poética implícita ao nosso atual estado de introspecção e de recolhimento.

Para participar da nossa sala de trabalhos acesse: Sessão 2 – Sarau no Arquivo LdoD

Para confirmar a sua participação: Evento no Facebook – Sarau no Arquivo LdoD

 

Sessão 3: Oficina LdoD Remix

27 de Maio de 2020, Quarta-feira  – 20:00hs (90 minutos)

A terceira sessão é uma parceria entre os projetos Fragmentos em Prática e Operation Room e tem como tema a criação de gifs-poemas por meio da leitura, anotação e remistura dos fragmentos do Arquivo LdoD. Além da funcionalidade edição virtual, serão utilizados aplicativos de tratamento de imagem, ilustração e composição videográfica de uso aberto, assim como editores textuais ou outra qualquer ferramenta de manipulação digital à escolha dos participantes.

Para participar da nossa sala de trabalhos acesse: Sessão 3 – Oficina LdoD Remix

Para confirmar a sua participação: Evento no Facebook – Oficina LdoD Remix

SOBRE O PROJETO OPERATION ROOM:

Operation Room é um projeto para desenvolver um grupo/comunidade online com o objetivo comum de criar poesia digital baseada nos processos de apropriação e remix (remistura). Os membros desta comunidade partilham, usam e re-utilizam o conteúdo partilhado por todos (texto, audio, imagem, video, código) para criar poesia digital. Para participar, registe-se na aplicação Trello e aceite o convite através deste link: https://trello.com/b/urllx8xi/operation-room-digital-poetry

Para mais informações entre em contato pela página Fragmentos em Prática ou pelo email fragmentos.em.pratica@gmail.com.

Videoconferência: Criação poética e materialidade

16/04/2020

© Cartaz de Rui Silva.

No próximo dia 30 de abril de 2020, pelas 11h00 [nova hora], Alexandre Graça Faria (Universidade Federal de Juiz de Fora) fará a videoconferência “Criação poética e materialidade” através do URL: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/3454748493. Trata-se de uma iniciativa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, organizada pelo Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura, Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), Centro de Literatura Portuguesa (CLP) e Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas (DLLC).

NOTA: Para aceder basta abrir aquela ligação no browser depois de instalado o cliente Zoom. Se ainda não estiver instalado no seu dispositivo, o download e instalação do Zoom acontece automaticamente da primeira vez que tentar ligar-se. Deve seguir os passos indicados e, após a instalação, entrar no endereço indicado.

Resumo

A partir da apresentação das obras UrâniaVenta não, Olhos livres e I, o poeta Alexandre Faria, atualmente professor e pesquisador visitante na UC, propõe uma conferência metapoética em que discute estratégias e métodos de criação que problematizam o papel do objeto livro como suporte material e ideológico para o ato de criação verbal. A reflexão sobre objetos como o “livro sem saída” ou a “plaquete para leitura não humana”, que serão apresentados e debatidos com o público, busca refletir sobre a interferência do autor na sensibilidade de navegação/manipulação dos meios e suas consequências na leitura.

Alexandre Graça Faria possui graduação em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1994), mestrado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1998) e doutorado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2003). Atualmente é e professor associado da Universidade Federal de Juiz de Fora e professor visitante da Universidade de Coimbra, onde leciona um seminário de Literatura Brasileira. É também ensaísta, poeta e ficcionista; autor dos livros Venta não (2013), Anacrônicas (2005), Literatura de subtração (2009); e organizador de Poesia e vida – anos 70 (2007), coorganizador de Outra – poesia reunida no sarau de Manguinhos (2013 – com Oswaldo Martins) e de Modos da margem – figurações da marginalidade na literatura brasileira (2015 – com João Camillo Penna e Paulo Roberto Tonani do Patrocínio). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: cultura brasileira contemporânea, literatura brasileira, cultura e identidade, criação literária nas periferias urbanas.

Como se faz uma revista científica?

16/03/2020

 

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Concebida em 2012 como um fórum de publicação para os métodos, objetos e teorias em desenvolvimento no campo que designámos “Materialidades da Literatura”, a revista MATLIT publicou o seu primeiro número em julho de 2013. Intitulado “Estranhar Pessoa com as Materialidades da Literatura” (Vol. 1.1), esse primeiro número refletia já uma estratégia de produção que caraterizaria a maior parte dos números publicados desde então. Tratava-se de tomar como ponto de partida para a produção de cada número quer projetos de investigação, quer encontros científicos cujos temas e problemas contribuíam para articular o conjunto de abordagens interdisciplinares que estávamos a consolidar através de uma noção expandida de literatura e de teoria da literatura. Nestes casos, a convocatória aberta para artigos reiterava a convocatória para comunicações produzida no âmbito dos projetos ou dos encontros. Um terceiro procedimento consistiu na disseminação de convocatórias sobre tópicos concetualizados especificamente para determinado número por editores convidados. Deste modo, a coordenação de cada número poderia diversificar-se, quer através de propostas internas baseadas na colaboração entre investigadores da Universidade de Coimbra e de outras universidades nacionais e internacionais, quer através de propostas externas de investigadores que trabalham em áreas afins às do Programa.

Um passo preliminar à produção propriamente dita consistiu na definição de um processo editorial que cumprisse as normas internacionais de controlo de qualidade e na adoção de uma plataforma eletrónica adequada para pôr em prática o processo. A revista adotou o Open Journal Systems, uma plataforma de gestão e publicação desenvolvida pelo Public Knowledge Project desde 2001 que permite integrar todo o fluxo de trabalho de produção (submissão, avaliação, revisão de texto, paginação, indexação, publicação), incluindo a gestão e registo das interações entre os participantes. Na configuração da revista através da plataforma OJS foi necessário garantir cumulativamente o cumprimento de três conjuntos de critérios: (a) critérios formais e de conteúdo científico (página de apresentação com título completo, ISSN, DOI, volume e número, mês e ano; garantia de conteúdo científico original igual ou superior a 75%; equipa de arbitragem; avaliação duplamente cega; etc.); (b) critérios gerais de qualidade editorial (conselho editorial, incluindo a filiação institucional dos membros; participação de avaliadores externos; historial, âmbito disciplinar e objetivo da revista; periodicidade; homogeneidade dos fascículos quanto ao número de artigos publicados; regras para os autores, tais como copyright, idioma, estilo de citação, indicações sobre apresentação de textos, imagens, resumo, palavras-chave, etc.; instituição responsável pela edição; bases de dados onde está indexada, etc.); (c) critérios de acessibilidade: política de acesso ao título (com ou sem registo; com ou sem embargo; com ou sem custos de subscrição; acesso aberto parcial ou integral). Além disso, decidimos ainda publicar cada artigo em duas versões (em PDF, numa versão da revista inteiramente paginada para impressão; em HTML, para leitura multidispositivo em ecrã) e, quando necessário, fazer edições multimédia, combinando texto, imagem, áudio e vídeo.

Os dois projetos de investigação que originaram o primeiro número (1.1) eram dedicados à obra de Fernando Pessoa: Nenhum Problema tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego (CLP, 2012-2015) e Estranhar Pessoa: Um Escrutínio das Pretensões Heteronímicas (ELAB e IFL, 2013-2015). O segundo número da revista (1.2), intitulado “Escrita e Cinema”, surgiu também a partir de um projeto de investigação: Falso Movimento: Estudos sobre Escrita e Cinema (CEC, 2012-2015). Outros números resultaram de colóquios organizados ou coorganizados pelo Programa: “ActaMedia XI: Simpósio Internacional de Artemídia e Cultura Digital” (18-19 de novembro 2014, Coimbra, em colaboração com a Universidade de São Paulo) está na origem do número “Artes, Média e Cultura Digital”, publicado em 2015 (3.1); “Estudos Literários Digitais” (14-15 de maio de 2015, Coimbra) resultou em dois números do mesmo nome em 2016 (4.1 e 4.2); “Literatura Eletrónica: Filiações, Comunidades, Traduções” (18 e 22 de julho de 2017, Porto; organizado pela Universidade Fernando Pessoa) produziu três números, subordinados aos três subtópicos da conferência e publicados em 2018 (Vols. 6.1, 6.2 e 6.3). Foram ainda produzidos três números resultantes apenas de convocatórias abertas sobre um determinado tema: “Livro e Materialidade” (2.1, 2014), “Vox Media: O Som na Literatura” (5.1, 2017) e “Redes da Poesia Experimental: Circulações Materiais” (7.1, 2019).

A combinação destes três procedimentos permitiu que a revista estabelecesse um campo de intersecção de áreas disciplinares próprio, no qual convergem estudos literários, estudos dos média, estudos fílmicos, estudos do livro, crítica textual, estudos do som e da voz, humanidades digitais, entre outros. Permitiu ainda uma progressiva internacionalização da revista, evitando que se transformasse apenas num fórum da investigação local e publicando um número significativo de investigadores seniores e juniores de diversos contextos geográficos e institucionais da Europa, da América do Sul e do Norte, da Ásia e da Austrália (Cf. Gráficos 1, 2 e 3). Esta internacionalização foi ainda pensada segundo uma lógica trilingue, na qual português, inglês e espanhol foram definidas como  línguas de publicação da revista (Cf. Gráficos 4 e 7). Conseguiu, por último, estabelecer um diálogo continuado com teóricos e artistas cujas obras têm sido estudadas no Programa. Para além das entrevistas realizadas e de um conjunto de artigos de referência de vários desses autores, merece igual destaque a secção de recensões críticas (Cf. Gráfico 5). Nessa secção, o diálogo sistemático com bibliografia recente obedece a um duplo objetivo: por um lado, a construção de um cânone do Programa através de uma amostragem representativa dos livros que lemos;  por outro lado, a aprendizagem dos protocolos da linguagem crítica da investigação avançada e a formação no exercício difícil de ler e escrever sobre teoria (Cf. Gráfico 6).

Uma revista académica faz-se com autores, leitores, editores, avaliadores, revisores de texto, compositores e designers, uma rede vasta de colaborações motivada pelo objetivo de publicar nova investigação através de um processo moroso e exigente de controlo de qualidade, e condicionada pelos contextos e posições institucionais dos diversos agentes de produção de investigação. Ainda que este processo esteja hoje formalizado em plataformas como o OJS e similares, estruturadas de acordo com os padrões internacionais de gestão e produção de publicações académicas, ele não se concretiza sem uma quantidade enorme de trabalho oferecido por muitos dos participantes no processo. Esta economia de dádiva é, de resto, definidora do modo de produção das publicações científicas. No caso da MATLIT, um outro princípio tem orientado a sua produção: proporcionar uma experiência colaborativa de aprendizagem dos processos de gestão e produção de uma revista científica em formato eletrónico, uma vez que a participação na comissão editorial tem sido parte do programa de formação dos jovens investigadores, que podem assim desempenhar diferentes papéis no fluxo de trabalho.

Olhemos ainda para a revista considerando os critérios bibliométricos, isto é, os sistemas de medida que estabelecem o valor reputacional de cada título dentro do campo cultural das publicações científicas a partir de indicadores como o fator de impacto, calculado através da ponderação relativa das citações recolhidas automaticamente pelos sistemas indexadores. Embora a revista MATLIT: Materialidades da Literatura não esteja indexada em bases de dados de referência como a Web of Science e a Scopus (trata-se de um processo que a Imprensa da Universidade de Coimbra tem ainda em preparação), é possível verificar um gradual crescimento do número de referências a artigos publicados na revista, num espaço institucional e geográfico amplo (Europa, América do Norte e do Sul). Esta atenção crescente é, de resto, indicada também pelo número de visualizações e transferências de ficheiros registados na plataforma UC Digitalis, na qual todos os números da revista têm sido republicados (aproximadamente entre 100 e 200 por artigo, para o intervalo de 1 ano; entre 500 e 1000 por artigo, para o intervalo de cinco anos ou mais). Apesar disso, dada a sua natureza fortemente interdisciplinar e dado o seu modo de produção, a sua posição manter-se-á como periférica dentro do sistema reputacional das revistas de estudos literários.

Em suma, a pergunta “como se faz uma revista científica?” deve ser respondida pela prática. No caso da MATLIT, neste momento em que a prática pode já ser objeto de um olhar retrospetivo, responder significa escutar também todos os ecos que reverberam naquela pergunta: como se faz uma revista científica em humanidades? como se faz uma revista científica num novo campo de investigação de natureza interdisciplinar? como se faz uma revista científica numa universidade portuguesa? como se faz uma revista científica em várias línguas? como se faz uma revista científica tirando partido do meio digital? como se faz uma revista científica enquanto projeto de formação e de aprendizagem num programa doutoral? como se faz uma revista científica em diálogo com investigadores juniores e seniores em múltiplos espaços institucionais e geográficos? como se faz? como se continua a fazer?

 

A revista MATLIT (2013-2019) em sete gráficos:

Gráfico 1. MATLIT 2013-2019: Artigos de Investigação Publicados. Diversidade institucional e geográfica. © MP, 2020.

Gráfico 2. MATLIT 2013-2019: Artigos de Investigação Publicados. Filiação institucional dos autores. © MP, 2020.

Gráfico 3. MATLIT 2013-2019: Artigos de Investigação Publicados. Percentagem relativa de investigadores juniores e seniores. © MP, 2020.

Gráfico 4. MATLIT 2013-2019: Artigos de Investigação Publicados. Diversidade linguística. © MP, 2020.

Gráfico 5. MATLIT 2013-2019: Recensões Críticas Publicadas. Livros, Exposições, CD-áudio. © MP, 2020.

Gráfico 6. MATLIT 2013-2019: Recensões Críticas Publicadas. 33 autores, 68 leituras. © MP, 2020.

Gráfico 7. MATLIT 2013-2019: Recensões Críticas Publicadas. Diversidade linguística. © MP, 2020.

Materialidades da Literatura 2020-2021: candidaturas abertas

24/02/2020

DML Guia do Programa | DML Programme Handbook

Encontram-se abertas as candidaturas para o Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura (Programa de Doutoramento FCT) para a edição com início em 2020-2021. As candidaturas decorrem em três fases: 6 vagas na 1ª Fase, de 10 de fevereiro a 31 de março de 2020; 3 vagas na 2ª Fase, 01 de abril a 15 de julho de 2020; 1 vaga mais sobrantes na 3ª Fase, 17 a 31 de agosto de 2020. O edital referente a este concurso pode ser consultado aqui.

Perguntas Frequentes

A) Quais os critérios de seriação na candidatura ao Programa?
A seriação dos candidatos ao Programa obedece aos seguintes critérios:

1) Classificações obtidas nos níveis de titulação com que se apresenta (30%);

2) Mérito científico do projeto preliminar do candidato (30%) – este projeto preliminar deverá enquadrar-se numa das três linhas de investigação do Programa: “Ex Machina: Inscrição e Literatura” (cf. http://www.uc.pt/fluc/clp/inv/proj/meddig/exmach); “Vox Media: O Som na Literatura” (cf. http://www.uc.pt/fluc/clp/inv/proj/meddig/voxmed); ou “ReCodex: Formas e Transformações do Livro” (cf. http://www.uc.pt/fluc/clp/inv/proj/meddig/recod);

3) Habilitações específicas relevantes para o âmbito científico do curso (10%);

4) Currículo científico (10%);

5) Currículo profissional (10%);

6) Entrevista (10%). NOTA: A entrevista decorrerá em data a agendar, desde o fim das candidaturas até à data prevista para disponibilização da lista de seriação provisória, de acordo com horário a comunicar aos/às candidatos/as por correio eletrónico. A entrevista poderá ser realizada por teleconferência.

B) Existem Bolsas de Doutoramento a atribuir pelo Programa?
Nas candidaturas 2020-2021, eventuais bolsas FCT a atribuir pelo Programa através do Centro de Literatura Portuguesa serão anunciadas oportunamente. Os candidatos podem ainda concorrer ao concurso individual Bolsas de Investigação para Doutoramento da FCT – 2020  https://www.fct.pt/apoios/bolsas/concursos/individuais2020.phtml.pt Submissão de candidaturas: 2 de março a 28 de abril de 2020, 17:00H (hora de Lisboa) 

C) Como se faz a candidatura?
As candidaturas são feitas através do sistema de informação da Universidade de Coimbra. As instruções para o processo de candidatura em linha podem ser consultadas aqui: http://www.uc.pt/candidatos/online

D) Qual é o valor da propina anual do Programa?
A propina anual do Programa é atualmente de 1417,00 €, a pagar em prestações.

 

Mais informações nas seguintes entradas:

1. O que é o Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura?

2. Plano de Estudos do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura (Cf. Despacho Nº 2666_2011, Diário da República_2ª série_Nº26_de 7 de Fevereiro de 2011, pp. 6913-6914)

3. Docentes e Professores Convidados do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura (2010-2020)

4. Estudantes do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura (2010-2020)

5. Requisitos de Acesso ao Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura

6. Procedimentos de candidatura

7. Reconhecimento do Programa para efeitos de progressão na Carreira Docente

8. Vídeos com depoimentos de Doutorandos e registos de seminários de Professores Convidados (2011-2014)

9. MATLIT em 90 segundos (2018): dez projetos de Doutoramento do Programa explicados pelos respetivos autores em 90 segundos.

10. MATLIT:  Materialidades da Literatura (Revista científica de âmbito internacional cobrindo as diversas linhas de investigação do Programa – 11 números publicados, 2013-2019)

11. Arquivo LdoD: Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego (2012-2017): resultado principal de projeto de investigação do Centro de Literatura Portuguesa financiado pela FCT, desenvolvido no âmbito do Grupo de Investigação «Mediação Digital e Materialidades da Literatura»

12. Ex Machina: Inscrição e Literatura (2015-2022): projeto de investigação do Centro de Literatura Portuguesa, desenvolvido no âmbito do Grupo de Investigação «Mediação Digital e Materialidades da Literatura»

13. Vox Media: O Som na Literatura (2015-2022): projeto de investigação do Centro de Literatura Portuguesa, desenvolvido no âmbito do Grupo de Investigação «Mediação Digital e Materialidades da Literatura» (Vox Media website)

14. ReCodex: Formas e Transformações do Livro (2015-2022): projeto de investigação do Centro de Literatura Portuguesa, desenvolvido no âmbito do Grupo de Investigação «Mediação Digital e Materialidades da Literatura»

15. Inanimate Alice: Tradução de Literatura Digital em Contexto Educativo (2016-2018): projeto de investigação do Centro de Literatura Portuguesa, desenvolvido no âmbito do Grupo de Investigação «Mediação Digital e Materialidades da Literatura»

16. Estudos Literários Digitais (14-15 de maio de 2015) | Digital Literary Studies (May 14-15, 2015): colóquio internacional organizado pelo Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura

17. Language and the Interface (2015): exposição internacional organizada pelo Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura

18. Variações sobre António: Um Colóquio em Torno de António Variações (7-8 dezembro 2017): colóquio organizado pelo Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura e pela Área de Estudos Artísticos da Faculdade de Letras de Coimbra

19. Teaching Digital Literature (June 25-26, 2019) | Ensino da Literatura Digital (25-26 de junho de 2019): colóquio internacional organizado pelo Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura

20. Caminhos da Literatura no MATLIT LAB: Um Laboratório de Humanidades (2019): exposição de criações literárias experimentais produzidas no âmbito do Programa

21. Histórico das atividades do Programa (2010-2020)

22. 2010-2020: Dez Anos de Materialidades da Literatura

Esclarecimentos adicionais: Prof. Manuel Portela, mportela@fl.uc.pt

O Arquivo LdoD no Colóquio “Novos Estudos Pessoanos”

15/02/2020

 

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Decorreu no dia 13 de fevereiro de 2020, na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, Lisboa, mais uma edição do colóquio Novos Estudos Pessoanos – Ponto de Situação, organizada pela Casa Fernando Pessoa. Esta edição contou com a participação de dois investigadores do Centro de Literatura Portuguesa (CLP) que trabalham com o Arquivo Digital LdoD, Ana Marques e Diego Giménez.

Ana Marques, com uma comunicação intitulada “Representação e análise da receção crítica do Livro do Desassossego no Arquivo LdoD”, falou sobre o trabalho de levantamento de documentação relativa à receção do Livro do Desassossego e a sua integração no Arquivo. A sua intervenção mostrou as relações que se estabelecem entre os documentos autorais, os documentos editoriais e os documentos críticos, identificando práticas específicas de leitura crítica. O trabalho em curso pode observar-se nas edições virtuais anotadas “Receção Crítica 1” e “Receção Crítica 2”.

Diego Giménez, com uma comunicação intitulada “Problemas de Intertextualidade Filosófica no Livro do Desassossego“, apresentou parte dos resultados de pesquisa na identificação das redes intertextuais filosóficas que nutrem a obra pessoana mediante categorização e taxonomização de trechos com as ferramentas do Arquivo LdoD, e enquadrou o levantamento dessas referências com a poiesis sensacionista pessoana. O trabalho em curso pode observar-se na edição virtual anotada “Intertextualidade Filosófica”.

O colóquio contou com a participação de investigadores, editores e tradutores especialistas na obra de Fernando Pessoa como Pedro Sepúlveda, Nuno Amado, Karen Pellegrini, Andrea Sánchez, Rui Sousa, Luís Andrade, Luiz Fagundes Duarte e António Feijó, que fechou o colóquio com uma intervenção em memória de George Monteiro.

2010-2020: Dez Anos de Materialidades da Literatura

04/02/2020

Em junho de 2020, o Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura (DML) da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra completará dez anos de atividade contínua. A conferência inaugural foi proferida por Lev Manovich a 18 de junho de 2010, e a primeira aula foi lecionada a 1 de outubro de 2010. Imaginado inicialmente como um grande projeto de investigação especulativa a partir da pergunta “O que são as Materialidades da Literatura?”, não era certo que o Programa se conseguisse afirmar, dado o contexto de crise financeira nacional em que nasceu e dado o modo como a recessão se repercutiu nas Humanidades um pouco por todo o mundo.

Concebido no verão de 2009 como um novo campo de investigação e ensino por um grupo de docentes da Faculdade de Letras, o Programa foi acreditado pela A3ES a 9 de junho de 2010 e teve a sua primeira edição no ano letivo 2010-2011. Em abril de 2013, foi selecionado por um painel internacional de peritos para financiamento como Programa de Doutoramento FCT no concurso realizado nesse ano. Este financiamento permitiu consolidar progressivamente a nova área de investigação, atraindo um conjunto significativo de jovens investigadores em estudos literários. Além das 25 bolsas de doutoramento FCT atribuídas entre 2014 e 2018 no âmbito do concurso, foram ainda conseguidas 3 bolsas individuais FCT e 3 bolsas individuais CAPES, num montante de financiamento que ultrapassa 1,6 milhões de euros.

Aos 31 estudantes integralmente financiados, juntam-se outros 16 estudantes-trabalhadores que suportam o custo da sua formação. Com 47 projetos de doutoramento registados (dos quais 10 já concluídos), o DML tem contribuído para renovar a investigação literária em Portugal e sintonizá-la com novos problemas, objetos e métodos. Refiram-se, por exemplo, a introdução de temas de investigação como a poesia sonora ou a gravação de leituras de poesia. Em certos domínios, por exemplo na análise da literatura digital, é já considerado um programa de referência internacional, como testemunham a participação na organização do congresso e festival de 2017 da Electronic Literature Organization (realizado no Porto) e a publicação de cinco entradas por doutorandos do DML no The Bloomsbury Handbook of Electronic Literature (2017).

Deve sublinhar-se ainda um aspeto essencial do Programa: a experimentação com formas de organização e de funcionamento, a nível curricular e extracurricular, que contribuam para diversificar as competências de formação e aumentar a qualidade da investigação realizada. Estruturado sob a forma de grupo de investigação e subdividido em projetos, o DML desenvolveu um conjunto de práticas colaborativas, quer internas ao Programa, quer através de redes externas de intercâmbio que envolveram duas dezenas de instituições na Europa (Espanha, França, Itália, Irlanda, Reino Unido, Alemanha, Noruega, Suécia, Grécia), América do Norte (EUA), América do Sul (Brasil, Chile) e África (Gana). Além de estadas internacionais de investigação dos doutorandos, o DML recebeu sete dezenas de especialistas nacionais e internacionais – académicos e artistas – ao longo da última década para lecionarem seminários ou proferirem conferências. Acolhemos também uma dezena de estudantes de doutoramento internacionais para trabalharem sob orientação de docentes do Programa durante um semestre, e diversos investigadores de pós-doutoramento em tópicos afins aos do Programa (análise literária computacional, narrativa transmédia, poesia experimental).

Organizámos e coorganizámos mais de uma dezena de conferências nacionais e internacionais, entre as quais, “Estranhar Pessoa com as Materialidades da Literatura” (2012), “Estudos Literários Digitais” (2015), “1º Congresso de Humanidades Digitais em Portugal” (2015), “Variações sobre António: Um Colóquio em torno de António Variações” (2017) e “Ensino da Literatura Digital” (2019). No que se refere a encontros científicos, os doutorandos apresentaram cerca de 200 comunicações em contexto nacional e internacional. Publicaram ainda cerca de 60 artigos (incluindo recensões críticas de novas obras) em 40 revistas académicas. Foram também curadores ou participantes numa dezena de exposições relacionadas com temas de investigação do Programa, em diversas cidades (Coimbra, Porto, Lisboa, Vila Franca de Xira, Évora, Óbidos). Os doutorandos tiveram ainda a seu cargo a concetualização e realização de cursos breves, escolas de verão e oficinas nas quais testaram os resultados da sua investigação através da didatização de novos temas. Destaque-se, por fim, o trabalho editorial numa nova revista científica eletrónica, MATLIT: Materialidades da Literatura (e-ISSN 2182-8830; 11 números publicados desde 2013, num total de 205 artigos), que tem contribuído para o diálogo internacional com inúmeros investigadores noutros contextos institucionais, disciplinares e geográficos.

Nascido no contexto pós-departamentalização da Faculdade, que determinou a agregação das diversas áreas disciplinares de línguas, literaturas e culturas (Estudos Clássicos, Línguas Modernas e Português), o novo Programa propunha-se olhar para as práticas literárias a partir da intersecção de três perspetivas: uma perspetiva medial e transmedial, que considera as tecnologias mediais como dispositivos de inscrição literária (imprensa, gravação sonora, computador digital, cinema, etc.); uma perspetiva translinguística e transcultural, cujo foco de abordagem vai para além dos tradicionais sintagmas nacionais (literatura inglesa, portuguesa, alemã, etc., mesmo nas versões comparatistas); e uma perspetiva interdisciplinar, que reconfigura a análise e a teoria literárias a partir da intersecção com diversas outras práticas disciplinares como o design de comunicação, as humanidades digitais, os estudos fílmicos, os estudos do livro ou a arqueologia dos média.

Uma medida do cumprimento das intenções iniciais do DML e do sucesso desta década de intensa atividade estaria nos percursos pós-doutoramento: investigadora visitante na Universidade de Stanford; três bolseiros de pós-doutoramento (Unicamp, Brasil; Universidade de Bremen, Alemanha, Marie Curie Fellowship; Universidade Fernando Pessoa, Portugal); docente convidado na Universidade de Aveiro; bolsa da Cátedra Cascais Interartes (Fundação D. Luís I); leitora do Instituto Camões (UNAM, México); docente do ensino básico e secundário. Outra medida seria a publicação de livros por investigadores do Programa: Literatura Explicativa: Ensaios sobre Ruy Belo (Assírio & Alvim, 2015), organizado por Manaíra Aires Athayde; Digital Media and Textuality: From Creation to Archiving (transcript verlag, 2017), organizado por Daniela Côrtes Maduro; Almada Negreiros, Orpheu 1915-1965 (Vittoria Iguazu, 2017), traduzido para italiano por Giorgia Casara; ou Herberto Helder, Em Minúsculas (Porto Editora, 2018), coorganizado por Raquel Gonçalves. Ou ainda: a atribuição do Prémio Mário Quartin Graça 2018 da Casa da América Latina, na categoria de melhor tese em Ciências Sociais e Humanas, a uma tese em Materialidades da Literatura.

Retrospetivamente, o DML pode descrever-se como a conjugação de três processos simultâneos e interligados: por um lado, consiste num grande projeto colaborativo (e prolongado no tempo) que tenta responder à mega-pergunta inicial através das perguntas de investigação circunscritas de cada tese de doutoramento (veja-se a série de vídeos “MATLIT em 90 segundos”); por outro lado, é uma tentativa de construir uma perspetiva de conhecimento humanístico num contexto pós-digital, olhando criticamente para a relocalização da experiência literária numa ecologia medial em transformação e, ao mesmo tempo, mostrando a relevância social dessa perspetiva; por outro lado ainda, diz respeito ao desenvolvimento de uma pedagogia projetual em investigação literária avançada, na qual as componentes de investigação científica, criação artística e transferência de conhecimento vão sendo tentativamente exploradas em múltiplas constelações. O MATLIT LAB: Laboratório de Humanidades, criado em 2019, é, de certo modo, uma tentativa de explicitar reflexivamente aquela tripla conjugação: um campo de investigação + uma epistemologia humanista numa ecologia medial em transformação + uma reimaginação dos usos das humanidades. Isto significa que uma década de desenvolvimento do DML consistiu afinal na formulação, através da prática, de uma outra pergunta que não estava totalmente evidente na pergunta inicial: o que é que um programa de doutoramento em Humanidades pode ser?