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Materialidades da Literatura na Colóquio Letras

28/09/2019

Acaba de ser publicado o número 202 da revista Colóquio Letras (Setembro-Dezembro de 2019), com uma secção dedicada ao tema “Correspondência”. Este número contém cinco contributos de investigadores do Grupo “Mediação Digital e Materialidades da Literatura” do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra: um artigo sobre correspondência eletrónica; um artigo dedicado ao estudos camonianos no Brasil e dois ensaios sobre a história do experimentalismo literário português. Inclui ainda, na secção “documentos”, a edição de um conjunto de cartas trocadas entre Ruben A. e Miguel Torga no período 1950-1973. Por ordem de publicação (artigos e documentos):

1. Manuel Portela, “Correio@eletrónico: escrever cartas na rede”, Revista Colóquio/Letras, 202 (2019): 50-63.

Resumo: Este artigo descreve o correio eletrónico enquanto exemplo particular da economia de produção da escrita na internet. Salienta três caraterísticas do funcionamento da rede que transformam a economia simbólica e material da carta: a conectividade e o sincronismo, que reconfiguram a experiência do tempo e do espaço; a remediação do sujeito na rede, que transforma a relação entre remetente e destinatário; e, por fim, os processos algorítmicos de agregação, análise e produção massiva de escrita, que subsumem o correio eletrónico. Algumas obras digitais são analisadas como exemplos de exploração ficcional das condições comunicacionais específicas da internet e do correio eletrónico.

2. Matheus de Brito, “Camões à brasileira ou panorama sobre o lugar de Camões no Brasil” Revista Colóquio/Letras, 202 (2019): 127-136.

Resumo: Tratar de Camões no Brasil é lidar com uma complexa trama de agenciamento cultural. Seria possível lidar com um Camões dentro e fora dos círculos de leitores, um dos luso-brasileiros do século XIX ou um difuso na cultura nordestina, um Camões dos modernistas lusófilos e um dos lusófobos, um disputado pela academia e um não-institucional – um Camões, em suma, sempre localizável como argumento e em processos de capilarização e diferenciação. Os estudos literários brasileiros têm desenvolvido interesses particulares, não resultantes de uma grade “nacional” imposta sobre a obra do poeta – como por vezes a investigação da “recepção” necessariamente faz – mas fazendo aflorar novos problemas para a crítica. O artigo apresenta um breve panorama dos estudos camonianos no Brasil, com destaque para trabalhos em andamento e algumas de suas perspectivas teóricas.

3. Bruno Ministro, “Mergulhar e quase desaparecer: António Aragão e a poesia experimental portuguesa”, Revista Colóquio/Letras, 202 (2019): 149-159.

Resumo: Retomando a história incompleta da PO.EX, esta investigação pretende, não só lançar uma nova perspetiva sobre a génese do experimentalismo português, como também resgatar aquela que é uma das suas figuras mais determinantes e, simultaneamente, hoje mais invisibilizadas.
4. Daniela Côrtes Maduro, “Entre literatura e revolução: a poesia experimental portuguesa”, Revista Colóquio/Letras, 202 (2019): 160-170.
Resumo: O presente artigo pretende examinar o elo entre o projeto de reformulação da literatura e o projeto de contestação do regime desenhados por poetas associados à Poesia Experimental Portuguesa. Por forma a enaltecer essa ligação, textos teóricos, entrevistas, e diversos artefactos, serão invocados ao longo deste artigo.

5. Ana Maria Machado, “Ruben e Torga: fragmentos de um diálogo epistolar”, Revista Colóquio/Letras, 202 (2019): 67-84.

Documentos:
[Carta de 12 de Dezembro de 1966 (para Ruben A.)] / Miguel Torga
[Carta de 14 de Agosto de 1973 (para Ruben A.)] / Miguel Torga
[Carta de 15 de Março de 1964 (para Miguel Torga)] / Ruben A.
[Carta de 19 de Novembro de 1962 (para Miguel Torga)] / Ruben A.
[Carta de 20 de Junho de 1949 (para Ruben A.)] / Miguel Torga
[Carta de 21 de Março de 1969 (para Miguel Torga)] / Ruben A.
[Carta de 23 de Abril de 1966 (para Ruben A.)] / Miguel Torga
[Carta de 23 de Janeiro de 1950 (para Ruben A.)] / Miguel Torga
[Carta de 23 de Junho de 1965 (para Miguel Torga)] / Ruben A.
[Carta de 23 de Novembro de 1964 (para Miguel Torga)] / Ruben A.
[Carta de 26 de Março de 1950 (para Ruben A.)] / Miguel Torga
[Carta de 30 de Novembro de 1968 (para Miguel Torga)] / Ruben A.
[Carta de 5 de Dezembro de 1964 (para Ruben A.)] / Miguel Torga
[Carta de 5 de Março de 1969 (para Ruben A.)] / Miguel Torga
[Carta de 6 de Maio de 1970 (para Miguel Torga)] / Ruben A.
[Carta de 7 de Novembro de 1950 (para Ruben A.)] / Miguel Torga
[Carta de 8 de Março de 51 (para Ruben A.)] / Miguel Torga

Materialidades da Literatura na ELO 2019

11/08/2019

Decorreu, nos dias 15-17 de julho, na University College Cork, Irlanda, organizada por James O’Sullivan, mais uma Electronic Literature Organization Conference, que ficou marcada pela passagem do testemunho da presidência da ELO, por parte de Dene Grigar (Washington State University Vancouver), para Leonardo Flores (Appalachian State University).

O encontro deste ano foi subordinado ao tema das periferias, tendo como oradores convidados Michael J. Maguire, Anne Karhio e Astrid Ensslin. Michael J. Maguire preparou uma conferência que se situou entre a lição, com base combinatória, e a performance, intitulada Potential Possibilities of Peripheral Porosity: A Combinatory Creative Community Keynote. Anne Karhio, com At the Brink: Electronic Literature, Technology, and the Peripheral Imagination, explorou as formas como as infraestruturas dos transportes e comunicações contribuem para a produção cultural, especificando o caso da Irlanda e a sua relação com a literatura eletrónica. Por fim, Astrid Ensslin, com a conferência “These Waves …”: Writing New Bodies for Applied E-literature Studies, elencou novas possibilidades para a investigação em literatura eletrónica, mais especificamente na área dos estudos aplicados, apresentando o projeto Writing New Bodies, da Universidade de Alberta.

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À semelhança de edições anteriores da ELO Conference, o Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura fez-se representar por um considerável grupo de estudantes, investigadores e professores. Assim, no dia 15, Paulo Silva Pereira apresentou a comunicação  “Greening the Digital Muse: An Ecocritical Examination of Contemporary Digital Art and Literature”. Numa outra sessão, Diogo Marques e Ana Gago (Universidade Católica Portuguesa, Porto) proferiram “From Stone to Flesh and Back Again: Digital Literature as Alchemy”. No dia 16, Ana Maria Machado, Rui Torres (Universidade Fernando Pessoa) e Ana Albuquerque e Aguilar apresentaram “Murals and Literature: A Digital Creation for an Educational Context”, dando conta do projeto homónimo, com base no CLP, tendo tido a colaboração de Luís Lucas Pereira, Thales Estefani e Júlia Andrade. Nesse mesmo dia, Cecília Magalhães e Ana Albuquerque e Aguilar proferiram, respetivamente, as comunicações “How to be an editor in LdoD Archive: methodological challenges in the use of digital archives” e “Rui Torres’ Cantiga in class – digital poetry in Portuguese schools”. Na sessão dedicada aos artistas, Liliana Vasques apresentou, por videoconferência, a sua obra pm: press mouse [for] private message. No dia 17, Ana Maria Machado participou no painel Beyond the Page: Moving Toward a New Canon of Literature with Inanimate Alice, juntamente com Ian Harper (Bradfield Company), Amanda Hovious (University of North Texas) e Valerie Shinas (Lesley University).

Em 2020, a ELO Conference terá lugar na University of Central Florida, em Orlando (EUA), com organização de Anastasia Salter e Mel Stanfill.

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Além do cânone: MatLit na The Child and the Book Conference 2019

10/08/2019

Fotografias de Emanuel Madalena, Ana Albuquerque e Aguilar e Júlia Zuza Andrade.

Entre 8 e 10 de maio, decorreu mais uma The Child and the Book Conference, desta vez organizada pela Croatian Association of Researchers in Children’s Literature e pela Universidade de Zadar, instituição na qual teve lugar o evento. Este ano, o encontro foi dedicado ao tema Beyond the canon (of children’s literature).

O Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura fez-se representar por Ana Maria Machado, Júlia Zuza Andrade e Ana Albuquerque e Aguilar, que apresentaram, no dia 9, uma comunicação conjunta, que teve também a colaboração de Luís Lucas Pereira, intitulada “Beyond Portuguese e-lit”, na qual deram conta dos avanços alcançados no projeto do Centro de Literatura Portuguesa “Murais e Literatura: a Criação Digital em Contexto Educativo”, sobretudo no que concerne à conceptualização da primeira obra literária digital infantil portuguesa.

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Ana Maria Machado, Júlia Zuza Andrade e Ana Albuquerque e Aguilar (Lecture Hall, Univ. Zadar)

No entanto, todas as participantes apresentaram também comunicações individuais no colóquio. Ainda no dia 9, Júlia Zuza Andrade proferiu a comunicação “Picturebooks and Canon: Relations between Multimodality and New Methodological Approaches”, na qual explorou algumas obras da editora Planeta Tangerina, refletindo sobre o modo como a ilustração, os elementos gráficos e a multimodalidade presentes no álbum ilustrado contemporâneo são relevantes na construção de um novo cânone infantil.

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Júlia Zuza Andrade (Maritime Department, Univ. Zadar)

No dia 10, Ana Maria Machado apresentou a comunicação “Children’s Literature as a Political Weapon: The 2018 Rabbit Affair”, onde analisou o modo como a literatura infantil pode ser um campo fértil para a divulgação de uma determinada ideologia, partindo do conto Marlon Bundo’s Day in the Life of the Vice President, de Charlotte Pence, e da versão de John Oliver, que o reinterpreta e subverte. Também no dia 10, Ana Albuquerque e Aguilar apresentou a comunicação “Tension, Rupture and Continuity: Electronic Literature for Children and the Literary Canon”, na qual, a partir de um corpus de obras de literatura digital infantil e juvenil, analisou a intertextualidade que estas estabelecem com o cânone, em três eixos de relação: i) com os clássicos gregos e latinos, ii) com a literatura oral e tradicional europeia e iii) com a ficção narrativa do século XIX.

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Ana Albuquerque e Aguilar (Museum of Ancient Glass, Zadar)

A The Child and the Book Conference 2019 foi marcada pela presença de investigadores e académicos de 31 países, sendo que Portugal teve a quarta participação mais expressiva no encontro. Além da Universidade de Coimbra, o colóquio contou com representantes das Universidades de Aveiro, do Minho, de Évora, de Lisboa e da Nova de Lisboa, bem como do Instituto Politécnico de Castelo Branco, o que é revelador da vitalidade e relevância dos estudos sobre literatura infantil e juvenil no contexto académico nacional.

Coleção Cibertextualidades, Volume 1

29/07/2019

Fobias, Fonias, Fagias (2019).

As Publicações Universidade Fernando Pessoa acabam de lançar o Volume 1 da nova coleção de livros “Cibertextualidades”: Torres, Rui & Kozak, Claudia, orgs. (2019). Fobias – Fonias – Fagias. Escritas Experimentais e Eletrónicas Ibero-Afro-Latinoamericanas. Coleção Cibertextualidades, Vol. 1. Porto: Publicações Universidade Fernando Pessoa. ISBN: 978-989-643-155-6. ISSN: 1646-4435. O livro circula gratuitamente como eBook, depositado no Repositório Institucional da UFP:
Sinopse:
Reunindo artigos, ensaios visuais e poemas de 28 autores, “Fobias-Fonias-Fagias”, organizado por Rui Torres e Claudia Kozak, aborda escritas experimentais e eletrónicas Ibero-Afro-Latinoamericanas. Três ângulos evocam ressonâncias múltiplas transitadas pela experimentação poética em espanhol e português, contra as hegemonias do sentido comum da cultura digital: o medo (Fobias), a voz (Fonias) e o diálogo (Fagias), condições de sobrevivência num tempo marcado pela dúvida, mas também por novos agenciamentos e resistências.

Ensino da Literatura Digital – Teaching Digital Literature

13/07/2019

Nos próximos dias 25 e 26 de julho de 2019, entre as 9h00 e as 18h00, decorrerá na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra o colóquio internacional “Ensino da Literatura Digital – Teaching Digital Literature“. Trata-se de uma iniciativa organizada pelo Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura, Centro de Literatura Portuguesa e Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Universidade de Coimbra, sob a coordenação de Ana Maria Machado. A sessão inaugural conta com a presença de João Costa (Secretário de Estado da Educação), Teresa Calçada (Comissária do Plano Nacional de Leitura) e Carlos Reis (Coordenador do Centro de Literatura Portuguesa). As conferências de abertura e encerramento serão proferidas, respetivamente, por Roberto Simanowski (Universidade de Basileia) e Scott Rettberg (Universidade de Bergen). O colóquio inclui também, na manhã do dia 26 de julho, uma oficina dedicada ao uso do Arquivo LdoD em sala de aula: “Arquivo LdoD em Prática: dinâmicas digitais de leitura, edição e escrita do Livro do Desassossego“. O programa integral do colóquio está disponível nesta ligação.

Dois projetos de investigação, desenvolvidos no âmbito do Grupo «Mediação Digital e Materialidades da Literatura», estão diretamente ligados ao tema deste colóquio: Inanimate Alice: Tradução de Literatura Digital em Contexto Educativo (2016-2018) e Murais e Literatura: A Criação Digital em Contexto Educativo (2018-2020). Refiram-se ainda os projetos de tese de doutoramento de Ana Albuquerque e Aguilar (PD/BD/128027/2016), «Educação Literária na Era Digital: O Contributo da Literatura Eletrónica» (2018-2020) e de Thales Estefani Pereira (PD/BD/142772/2018), «Atravessando a floresta entre o mundo imaginário e o real: Capuchinho Vermelho em transformação transmedial» (2019-2021). Destaque-se também a  integração da tradução portuguesa da obra Alice Inanimada (realizada no âmbito do projeto referido acima) no Plano Nacional de Leitura (Ler +), em abril de 2018.

Com este colóquio, o Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura dá continuidade à investigação sobre questões de mediação e literacia digitais, expressa em várias atividades anteriores: ACTAMEDIA – Simpósio Internacional de Artemídia e Cultura Digital (18-19 de novembro de 2014, em colaboração com a Universidade de São Paulo); Digital Literary Studies (14-15 de maio de 2015); Language and the Interface (14-15 de maio de 2015); Humanidades Digitais em Portugal: Construir pontes e quebrar barreiras na era digital (8-9 de outubro de 2015, organização do IHC e FCSH-Universidade Nova de Lisboa, CLUL-Universidade de Lisboa, CLP-Universidade de Coimbra e CIDEHUS-Universidade de Évora); colaboração no colóquio internacional Digital Media and Textuality (2-5 de novembro de 2016, organização do Bremer Institut für transmediale Textualitätsforschung – BITT); colaboração no congresso internacional Electronic Literature: Affiliations, Communities, Translations (18-22 de julho de 2017, organização da Universidade Fernando Pessoa). Vejam-se ainda os seguintes números da revista MATLIT: Volume 3.1 (2015), Volume 4.1 e 4.2 (2016), Volume 6.1, 6.2 e 6.3 (2018).

No último quarto de século, a discrepância entre o volume da investigação em literatura eletrónica e a que diz respeito ao seu ensino tem sido superada pela emergência de algumas abordagens importantes para a sua lecionação, especialmente no campo das humanidades digitais, mas também na sua introdução na educação formal, da educação infantil e do ensino básico aos ensinos secundário e superior. A atual investigação sobre o ensino da literatura eletrónica consiste em trazer estas obras para a sala de aula e proporcionar experiências de leitura literária digital aos estudantes. No entanto, estas práticas têm ainda pouca expressão nos diferentes níveis de ensino, talvez porque os responsáveis são os denominados imigrantes digitais, e não os nativos e, por consequência, à exceção de algumas universidades, as escolas refletem escassamente os desafios educativos da literatura eletrónica.

Uma das razões invocadas para justificar a situação atual prende-se com a natureza híbrida e transdisciplinar da literatura eletrónica e com a consequente necessidade de juntar diferentes áreas de conhecimento para compreender a sua peculiaridade estética.

Com o estudo da literatura eletrónica não se pretende de forma alguma negar ou substituir a tradicional literatura impressa. Pelo contrário, esta área de estudos pretende abrir novos horizontes literários, através da leitura e utilização de outros tipos de texto, como, por exemplo, hipertexto, texto multimodal, texto não‑linear ou texto generativo, por forma a desenvolver as competências literárias dos estudantes, melhorando, em última análise, a competência de leitura literária em meio impresso. Com efeito, o potencial da literatura eletrónica é imenso, pois ela promove a criatividade, desenvolve a sensibilidade estética em ambiente digital, questiona a figura autoral, colocando os leitores e utilizadores numa situação mais dinâmica, participativa, interativa e imersiva.

Do ponto de vista da investigação, têm sido feitos esforços para expandir a análise e a terminologia dos estudos literários e para criar uma e-literacia, ou seja, uma forma de olhar que vá além do modelo da literacia impressa. Estes esforços responderam a algumas das questões levantadas pela migração do impresso para o digital, mais especificamente para preencher a lacuna de modelos críticos para a interpretação deste tipo de obras e de terminologia específica para analisar e ensinar literatura eletrónica. Assim, foi feito um trabalho considerável para perceber a figuração e o estranhamento perante um conjunto de elementos navegativos, interativos, visuais, sonoros e performativos na interação com o texto, no processo ergódico, proporcionado pela literatura eletrónica, que requer uma ação exploratória física por parte do seu destinatário. Além de exigir familiaridade com estas características, a literatura digital também levanta a questão de saber se professores e alunos deveriam ter conhecimentos de programação ou mesmo se é possível ensinar e compreender obras digitais, em profundidade, sem este conhecimento específico. Cumpre, pois, discutir questões como: deveria o contexto educativo atual aproveitar o currículo oculto dos nativos digitais, explorando criticamente as possibilidades criativas, lúdicas e estéticas proporcionadas pelos objetos digitais? Poderão professores, bibliotecários, mediadores de leitura ou outros agentes educativos e literários ignorar a literatura digital infantil e juvenil, dado que ela propicia a participação lúdica dos jovens leitores e expande as suas competências criativas, imaginativas e críticas? Quão relevantes são estes artefactos, bem como a suas dimensões estética e expressiva para o desenvolvimento de uma literacia digital crítica?

Projetos de tese 2019

01/07/2019

A oitava edição do Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura teve início no 2º semestre do ano letivo 2017-2018. Tal como previsto pelo plano de estudos (https://matlit.wordpress.com/programa/), no final do terceiro semestre realiza-se uma prova de qualificação, que consiste na defesa pública do projeto de tese de doutoramento. As provas de qualificação da oitava edição do Programa têm lugar nos dias 10 e 11 de julho 2019, de acordo com o horário indicado a seguir:

10 de julho de 2019
Projeto: Thales Estefani Pereira (PD/BD/142772/2018), «Atravessando a floresta entre o mundo imaginário e o real: Capuchinho Vermelho em transformação transmedial»
Hora: 10h00, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
Ana Maria Machado (UC, pres.)
Sara Reis da Silva (Universidade do Minho, arguente)
Paulo Pereira (UC, orient.)

Projeto: Nuno Miguel Santos Meireles (PD/BD/142766/2018), «A voz que reescreve: farsas, comédias e moralidades de Gil Vicente lidas com o ouvido em mediação videográfica. Preliminares para um arquivo digital performativo do teatro vicentino»
Hora: 11h30, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
Paulo Pereira (UC, pres.)
José Camões (FLUL, arguente)
José Augusto Bernardes (UC, orient.)

Projeto: Patrícia Rodrigues Esteves Reina (PD/BD/142770/2018), «Espaço para fazer sentido: a multidimensionalidade da expressão tipográfica nas obras de Johanna Drucker»
Hora: 14h30, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
Clara Keating (UC, pres.)
Sofia Leal Rodrigues (FBAUL, arguente)
Manuel Portela (UC, orient.)

Projeto: Pedro José Sá Gonçalves Valentim (PD/BD/142769/2018), «A Malanderer, a Badlander & a Thief — Nick Cave e a Figura do Poeta Maldito»
Hora: 16h00, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
Manuel Portela (UC, pres.)
Armando Nascimento Rosa (Escola Superior de Teatro e Cinema, IPL, arguente)
Osvaldo Manuel Silvestre (orient.)*
*Paulo Pereira (UC, vogal [em substituição do orientador])

11 de julho de 2019
Projeto:  Francisco Ricardo Cipriano Silveira (PD/BD/142771/2018), «O Sublime Ecfrástico dos Vídeos Musicais: um travelling literário a partir da letra»
Hora: 11h00, Sala Ferreira Lima (6º piso, FLUC)
Júri
Clara Keating (UC, pres.)
Sérgio Dias Branco (FLUC, arguente)
Manuel Portela (UC, orient.)

 

As provas relativas aos nove projetos de tese da sétima edição do Programa realizaram-se a 18, 19 e 26 de janeiro de 2018, e a 10 de julho de 2018.

As provas relativas aos nove projetos de tese da sexta edição do Programa realizaram-se a 18, 19 e 20 de janeiro de 2017.

As provas relativas aos oito projetos de tese da quinta edição do Programa realizaram-se a 29 de janeiro e 3 de fevereiro de 2016.

As provas relativas aos cinco projetos de tese da quarta edição do Programa realizaram-se a 23 de janeiro de 2015.

As provas relativas aos cinco projetos de tese da terceira edição do Programa realizaram-se a 24 de janeiro de 2014.

As provas relativas aos três projetos de tese da segunda edição do Programa realizaram-se a 1 de fevereiro de 2013.

As provas relativas aos quatro projetos de tese da primeira edição do Programa realizaram-se a 27 de janeiro de 2012.

MATLIT-RIT Summer School (2ª edição)

30/06/2019

Texto de Ana Sabino, Rui Silva, Ana Albuquerque e Aguilar, Mariana Chinellato Ferreira e Tiago Schwäbl.

MATLIT-RIT Summer School 2019, 4 de junho de 2019. Foto de Trent Hergenrader.

No primeiro módulo, baseado na linha de investigação ReCodex – Formas e transformações do livro, os doutorandos Ana Sabino e Rui Silva apresentaram aos alunos a obra A Reinvenção da Leitura, de Ana Hatherly, composta por um ensaio e seguida por dezanove textos visuais. No ensaio, a autora traça uma breve história do poema visual, ou imagem/texto, começando por relembrar que a escrita é a pintura de palavras, e prossegue para uma fundamentação da sua própria experimentação prática, ela mesma situada entre a pintura e a escrita. A aula pretendeu dar a conhecer a história da poesia visual tal como ela é descrita por Hatherly, e dar a experimentar aos alunos as fronteiras entre o desenho e a escrita, o verbal e o visual, o semântico e o assémico. Durante a manhã a aula foi teórica, fundamentando as experiências materiais que se seguiram, na parte da tarde, quando os alunos foram levados a fazer uma série de exercícios práticos. Estes foram concebidos para questionar as diferenças entre o desenho e a escrita ao nível do gesto, da postura da mão e do corpo, da escala, ou da modularidade do traço, permitindo também aos alunos refletir sobre as suas opções, e, finalmente, sobre a possibilidade de levar as questões levantadas para o meio digital.

ReCodex: MATLIT-RIT-Módulo 1. Sala 6, FLUC, 4 de junho de 2019. Foto de Ana Albuquerque e Aguilar.

No início do módulo 2 (Ex Machina 1), fez-se uma breve introdução à literatura eletrónica, partindo de teorização de Katherine Hayles (2008) e Scott Rettberg (2018), abordando-se conceitos fundamentais que permitissem aos alunos apreciar, analisar e discutir teoricamente as obras propostas. Do mesmo modo, com base em conceitos e postulações de Italo Calvino, Gérard Genette, Ted Nelson, Roland Barthes, Jay David Bolter, Richard Grusin e Manuel Portela, debateu-se a relação da literatura eletrónica com o cânone, tendo os alunos explorado, individualmente e em grupo, diversos poemas de Rui Torres, obras de Serge Bouchardon, os primeiros episódios de Inanimate Alice, bem como Spot, Lil’ Red, Salt Immortal Sea, 80 Days, A Duck Has an Adventure e Little Red Riding Hood (Nosy Crow). Assim, na segunda parte da sessão, os alunos conceptualizaram uma obra de literatura eletrónica, apresentando e discutindo as ideias e os esboços com os colegas e com a doutoranda Ana Albuquerque e Aguilar, responsável pelo módulo.

O terceiro módulo, Ex Machina 2, utilizou-se dos cinco elementos propostos por Espen Aarseth para ler e interpretar Literatura Digital: dados, processos, interações, superfícies e contexto. Na primeira parte da aula, a doutoranda Mariana Chinellato Ferreira propôs a análise de obras generativas desenvolvidas com RiTa Toolkit para a linguagem Processing do ponto de vista dos “cinco elementos”. As obras fazem parte do acervo da galeria virtual de obras desenvolvidas com a biblioteca RiTa e os alunos tiveram liberdade para escolher e explorar as obras que mais lhes agradassem. Em seguida, foi proposto que os alunos expusessem aos colegas suas escolhas, apontando os cinco elementos encontrados nas obras. Na segunda parte da aula, os alunos os alunos trabalharam, também, a noção da escrita constrangida, enquanto utilizavam o Processing e a biblioteca RiTa para criar seus próprios sistemas generativos, com base nos modelos da própria biblioteca, nos códigos disponibilizados pelos criadores na galeria virtual, ou criando seu próprio código. Os alunos empenharam-se bastante e apresentaram resultados extremamente criativos.

Ex Machina 3: MATLIT-RIT-Módulo 3. Sala 6, FLUC, 6 de junho de 2019. Foto de Mariana Chinellato Ferreira.

O módulo 4 do curso de verão das Materialidades da Literatura ministrado ao grupo de nove alunos do Rochester Institute of Technology (RIT) – NY/ EUA – esteve a cargo do departamento VOX MEDIA, que tem como propósito representa[r] uma área de pesquisa unificada pelo estudo das materialidades sonoras da comunicação na literatura e no diálogo desta com áreas limítrofes (performance, tecnologias de gravação e reprodução, intermedialidade, remediação, etc.).

Propunha-se para este módulo escutar tentativas de (re)colocação da voz (humana) através de diferentes organismos – laringe, instrumentos musicais, e outros aparelhos de difusão, gravação, imitação e recuperação de som. Para tal, impôs-se uma playlist, em torno da qual gravitavam os conceitos teóricos – e respetiva discussão, a várias vozes (sintéticas, gravadas, vivas) – que o som provocava. Os exemplos sonoros distribuíam-se nas seguintes categorias: 1. próteses e samplificação (por exemplo: Elizabeth Veldon, Erin Gee ou Stine Janvin), em registos de voz sintetizada (ou comportando-se como tal), máquinas analógicas imitando a síntese ou instrumentos elétricos imitando sístole/ respiração. 2. pássaros amplificados (por ex.: Phil Minton, Ute Wassermann ou Isabelle Duthoit), vozes humanas que rasam os limites aviários. 3. rádio (Gregory Whitehead, Hipoglote, Fernando Munizaga), construções sonoras que refletem não só sobre a linguagem como refletem os discursos do mundo. 4. avant-garde (Hugo Ball, Kurt Schwitters, Alessandra Eramo), exemplos de recuperação e remediação de textos e descrições do início do século XX. 5. Velhos aparelhos (Wolfgang von Kempelen, Scott de Martinville), as primeiras investigações e concretizações sonoras e respetiva contextualização histórica.

Vox Media: MATLIT-RIT-Módulo 4. RUC (Rádio Universidade de Coimbra), 7 de junho de 2019. Foto de Diego Gimenez.

A ênfase pesou sobre o elemento técnico – pouco se falou de poesia sonora –, mas o estranhamento foi o mesmo. No final da exposição abriu-se espaço para perguntas, e a reflexão foi levada pelos próprios alunos aos lugares da linguagem e suas fronteiras. Seguiu-se a preparação das tarefas vespertinas. Por um acaso feliz, o módulo Vox Media coincidiu com o dia de emissão semanal do HIPOGLOTE, programa de poesia sonora da Rádio Universidade de Coimbra (RUC). Coube aos alunos apresentar em direto as suas explorações vocais – o resultado foi surpreendente, pela sua variedade, entusiasmo e libertação!

Quanto ao curso em geral: este formato de workshop (teoria + prática) funciona muito bem e deveria ser levado a outras Universidades (nacionais e internacionais), bem como – talvez mais importante ainda – cá dentro, à própria Universidade de Coimbra. A hipótese de gestão e lecionamento providenciada aos estudantes de doutoramento devia ser uma necessidade evidente nas universidades, permitindo uma clarificação das ideias e argumentos desenvolvidos no decurso da investigação, o respetivo confronto com o exterior, e preparação de valências para futuros certamente incertos. Num segundo passo, seria talvez desejável adicionar o intercâmbio a todo este processo, de forma a que as trocas passassem a ser bilaterais. De resto, no campo cultural e social, a semana foi uma aprendizagem de parte a parte: perceção de sistemas de ensino radicalmente diferentes; visita ao património nacional, contacto entre estudantes e professores, troca gastronómica: loquats, entre outros.

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Visita de estudo ao Museu e Ruínas de Conimbriga. Visita guiada pelo Doutor Virgílio Correia. Almoço no Castelo da Lousã, seguido de caminhada na Serra da Lousã e visita à aldeia de xisto Talasnal. Caminhada e visita guiadas por Hugo Francisco, 8 de junho de 2019.

MATLIT-RIT Summer School 2017 (1ª edição)