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Seminário “O Ato da Palavra: Poesia, Performance, Coletivos e Redes Afetivas”

22/11/2018

© Cartaz de Rui Silva.

No próximo dia 7 de dezembro de 2018, entre as 17h00 e as 20h00, na Sala do Instituto de Estudos Brasileiros (5º piso, FLUC), Frederico Fernandes (Universidade Estadual de Londrina) fará o seminário Seminário “O Ato da Palavra: Poesia, Performance, Coletivos e Redes Afetivas”. Esta atividade é organizada pelo Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura e pelo Instituto de Estudos Brasileiros, com o apoio do Centro de Literatura Portuguesa e do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Universidade de Coimbra.

Sinopse

Os mecanismos de produção da poesia na contemporaneidade desenham-se a partir e, principalmente, da formação de coletivos e da disseminação do texto em performance, que têm como corolário a revalorização da voz. Isso não é um fenômeno apenas identificado no Brasil, mas também é observado na trajetória de poetas como Enzo Minarelli, Dick Higgins, Nanni Balestrini, Richard Kostelanetz, Charles Amirkhanian, Bernard Heidsieck, Charles Bernstein, entre outros. O culto à performance e à necessidade de organização de coletivos transcendem as fronteiras nacionais do fazer poético e situam a poesia numa zona limiar entre a performance e a criação, a inspiração e a materialidade, a recepção e a afetividade.

É essa zona que denominamos o “ato da palavra”. Nela, o poeta contemporâneo desempenha um duplo papel: ele assumirá a posição de enunciador (a subjetivação do poema) e de enunciado (a posição de sua obra), numa relação anafórica.

Entender a produção poética nesta perspectiva implica adentrar os meandros do implexo sistema literário brasileiro contemporâneo e alcançar uma compreensão de como a produção poética se realiza em seu meio. O desafio da crítica reside, desse modo, em também compreender os atores sociais da produção literária e os vários papeis que desempenham.  É na análise do ato que emerge a crítica às regras do campo do fazer literário e, também, as estratégias e investidas de seus agentes para mantê-las ou modificá-las. O ato tem a ver diretamente com a arte em seu mecanismo de produção, compreende um locus de atuação e interação, o qual também terá seus reflexos na representação espacial do poema. Insinua hierarquias e tradições que atravessam a arte ou formas de relacionamento de pessoas com instituições, as quais podem tanto ser combatidas como corroboradas por gerações distintas. Incita o associativismo por meio de desenvolvimento de projetos comuns. Age sobre os limites do coletivo poético, expandindo ou encolhendo sua capacidade de penetração social e midiática. Subvenciona a migração e a simultaneidade do corpo da poesia: a permanência do texto impresso aliada à circulação digital e/ou performático.  Desse modo, o ato da palavra acautela a mudança necessária à sobrevivência da arte.

Este seminário traz para mesa uma reflexão sobre a produção poética contemporânea, por meio da investigação do ato da palavra, tomando como base pesquisas realizadas no coletivo de poetas denominado Rede Londrix. Nosso objetivo é propiciar um referencial teórico a estudantes e pesquisadores da pós-graduação interessados na materialidade poética, de modo a fornecer a eles um instrumental teórico-crítico para suas análises.

Palavras-chave: ato da palavra, poesia contemporânea, performance

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Lançamento de “Polypoetry 30 Years 1987-2017”

22/11/2018

No próximo dia 6 de dezembro de 2018, pelas 18h30, será apresentado no Salão Brazil, na baixa da cidade de Coimbra, o livro Polypoetry 30 Years, 1987-2017. O livro, editado pelo poeta italiano Enzo Minarelli e pelo Professor Frederico Fernandes, na imprensa da Universidade Estadual de Londrina, Eduel Internacional, pretende desenhar mapas sobre manifestações de polipoesia na Europa e nas Américas. Reúne estudiosos e artistas que dedicaram o seu trabalho para entender as expressões de vanguarda em linguagens impressas, sonoras e visuais, bem como para demonstrar como o experimentalismo afeta o mundo numa perspectiva política e estética. O lançamento conta com a presença de um dos editores do livro, Frederico Fernandes, e com a participação de Nuno Neves e Diego Giménez.

Polypoetry means the art that vibes the sound and melts the logic of the word, attesting the vivacity of voice, the presence of a body by the gesture, and the visual motion from the projection of successive images during a performance. Polypoetry means a way to do art, and a way to be poetry, thus emancipating people in society by the reflexive, innovative use of language. Polypoetry is the presence of poetry that effects. This book aims to draw maps about Polypoetry manifestations around Europe and Americas. It gathers scholars and artists who dedicated their work to understanding the avant-garde expressions in print, sound, and visual languages, as well as to demonstrate how the experimentalism affects the world in a political and aesthetical perspective.

Polypoetry represents that kind of totality poets have been looking forward to finding out since ever. And in a way, it is a complete performance from manifold points of view, electronic experimentalism can effectively be coupled with language. That of the language is a very important element, because we always have to start from it, trying to overcome the typical anxiety of the message at any cost, but at the same time, as we have always stated, the polypoets have the responsibility to set their own aim towards literature, an alternative path to reach the great achievements of official poetry”.

Esta apresentação integra-se nas atividades do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura e do Instituto de Estudos Brasileiros, com o apoio do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. O Salão Brazil e o Serviço Educativo JACC coorganizam o evento como anfitriões.

Enzo Minarelli has been developing his multiple activities, starting from the written word which will become related to orality, visuality, performance and television. He has been active in the field of linear and visual poetry, several one-man shows, editing also records, CDs and DVDs. He is the theorist of Polypoetry (its manifesto comes out at Valencia in 1987), stating the spectacular event of sound poetry, he has been performing nationally and abroad. He has been the publisher of the vinyl series 3ViTre Records, producing about twenty records both single and LP, founding the 3Vitre Archive of Polypoetry which has been collecting verbo-voco-visual materials, now permanently available at Lincoln Center in New York and at Bologna University.

Frederico Fernandes is currently a full professor and PhD supervisor at the Department of Portuguese Language and Literature at The State University of Londrina (Paraná-Brazil). He has co-founded and edited the Boitatá journal, specialized in oral poetry, and also coordinates the Portal de Poéticas Orais. He was a visiting professor at Brock University in Canada in 2008, at the University of Bologna in Italy in 2014, and at Minjiang University in China in 2018. He holds grants from Brazilian national funding agencies including CNPq (National Council for Scientific Research) and CAPES.

Curso Breve: “Entendendo Polipoesia”

22/11/2018

© Cartaz de Rui Silva.

No próximo dia 5 de dezembro de 2018, entre as 14h30 e 18h00, na Sala do Instituto de Estudos Brasileiros (5º piso, FLUC), Frederico Fernandes (Universidade Estadual de Londrina), leciona o curso breve “Entendendo Polipoesia”. Atividade organizada pelo Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura e pelo Instituto de Estudos Brasileiros, com o apoio do Centro de Literatura Portuguesa e do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Universidade de Coimbra.

Sinopse

Em 2017, o Manifesto da Polipoesia completou 30 anos de lançamento. Em linhas gerais, pode-se dizer que este manifesto de vanguarda, apresentado em Valência (Espanha) pelo poeta italiano Enzo Minarelli, encara questões cruciais para o campo das vanguardas, que se tornaram contundentes na virada do século XX para o XXI, tais como: o emprego das tecnologias na poesia, a performance, a linguagem sonora e visual. A Polipoesia não possui bem uma nacionalidade, ela se espalhou pela Europa e América, com vários adeptos e praticantes. Sua característica principal reside no experimentalismo poético, de múltiplas linguagens. Este pequeno curso tem por objetivo refletir sobre a polipoesia e seus impactos no campo literário. Para tanto, serão abordados os seguintes tópicos:

Parte 1:

  1. Antecedentes vanguardista e linguagens remanescentes.
  2. Poesia abstrata, performance da contemplação.
  3. O Manifesto da Polipoesia

Parte 2:

  1. O que é um multipoeta?
  2. Instituições invisíveis, o alcance da produção polipoética
  3. Performance polipoética: práxis e política.

Objetivo:

Levar o estudante de pós-graduação a tomar contato com movimentos experimentais de vanguarda com o intuito, principalmente, de fazê-lo refletir sobre a utilização de novas tecnologias no campo do fazer poético-experimental.

Referências:

Agamben, Giorgio (1994). L’uomo senza contenuto. Macerata: Quodlibet.
Bürger, Peter (1984). Theory of The Avant-Garde. Translated by Michael Shaw. Minneapolis: University of Minnesota Press.
Cauquelin, Anne (2005). Arte Contemporâena: uma introdução. Translated by Rejane Janowitzer. São Paulo: Martins Fontes.
Debord, Guy (1994). The society of Spectacle. Translated by Donald Nicholson­Smith. New York: Zone Books. In: http://www.antiworld.se/project/references/texts/The_Society%20_Of%20_The%20_Spectacle.pdf
Even-Zohar, Itamar (1990). “Polissystem Stuidies.” In: Poetics Today. International Journal for Theory and Analysis of Literature and Communication. vol.11, n.1, p.1-268.
Minarelli, Enzo (1999). “The Manifesto of Polypoetry Is 12 Years Old”. In:  http://glukhomania.ncca-kaliningrad.ru/pr_sonorus.php3?blang=eng&t=0&p=27
Minarelli, Enzo (2005). Polipoesia Mon Amour. Pasian di Prato: Campanotto Editore.
Minarelli, Enzo (2010). Polipoesia entre as poéticas da voz no século XX. Translated by  Frederico Fernandes, Londrina: Eduel.
Minarelli, Enzo (2010ª). NemBROT e Altri Lbri & Oggetto 1974-2010. Sordevolo: Zero Gravità.
Minarelli, Enzo (2014). As razões da voz: entrevista com protagonistas da poesia sonora no século XX. Edited and Transleted by Frederico Fernandes. Londrina: Eduel.

 

“Caranguejolas de Casualidade”: uma oficina por Rui Silva

19/11/2018

© Rui Silva.

No próximo dia 21 de dezembro de 2018 (manhã e tarde), na Universidade Lusófona, em Lisboa, Rui Silva realiza uma oficina de edição e design gerativo intitulada “Caranguejolas de Casualidade”. Rui Silva é licenciado em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Como designer gráfico, tem trabalhado para editoras como Antígona, Orfeu Negro e Dafne. É estudante do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura, com um projeto de tese intitulado “A Condição de Ser Livro: o livro como artefacto e a edição como prática artística”.

O uso de processos combinatórios está presente em vários momentos da história do design e da edição, seja nas variações de cartazes de música por Josef Müller-Brockmann, seja nas edições do colectivo Oulipo, contudo, as práticas digitais contemporâneas facilitam e urgem o seu desenvolvimento.

A conjuntura pós-digital intensificou a exposição do utilizador a ambientes combinatórios, desde as redes sociais a geradores de memes, e estabeleceu uma presença algorítmica recorrente na experiência do quotidiano digital. Da capacidade para agrupar e sequenciar conjuntos de dados, de grande ou de pequena escala, emerge um potencial criativo que pode ser explorado no design gráfico e na edição através da organização sistemática de elementos analógicos ou digitais e do seu processamento segundo premissas combinatórias. É deste modo que, utilizando as práticas e ferramentas do design e da edição, é possível conceber objectos que obedecem a princípios gerativos e que se renovam quase autonomamente a cada instanciação. RS

Programa da oficina “Caranguejolas de Casualidade” (PDF).

Materialidades da Literatura no Colóquio “Narrativa, Media e Cognição”

19/11/2018

Fotografia: CIAC.

Texto: Ana Marques e Thales Estefani. Fotos: CIAC e Thales Estefani.

Nos passados dias 9 e 10 de novembro teve lugar, na Universidade do Algarve, a quinta edição do Colóquio “Narrativa, Media e Cognição – Narrativas Marginalizadas”. Com o acolhimento do CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação – em coorganização com o Grupo de Trabalho “Narrativas Audiovisuais” da AIM – Associação de Investigadores da Imagem em Movimento – e com a Sociedade Portuguesa de Ciências dos Videojogos, este colóquio contou com cerca de cinquenta comunicações organizadas em duas sessões paralelas ao longo de dois dias.

As principais temáticas abordadas neste encontro situaram-se na articulação do conceito de narrativa com a comunicação, as artes multimediais, a literatura, a história e os estudos culturais. A tecnologia, sobretudo enquanto ferramenta de mediação comunicacional e expressiva, revelou-se também central nos diferentes temas que articularam as várias comunicações e nos debates que a estas se seguiram. Um dos principais aspectos caracterizadores deste encontro foi, assim, a transversalidade disciplinar.

Fotografia: Thales Estefani.

A comunicação do orador convidado deu o tom que harmonizou a diversidade de comunicações deste colóquio. Arnaldo Saraiva, uma das vozes mais relevantes no contexto das literaturas marginais (veja-se o importante contributo de duas obras da sua vasta bibliografia para este campo, os dois volumes de Literatura Marginalizada, de 1975 e 1980), deu uma aula sobre um romance de cordel do século XVIII, João de Calais, da autoria de Mme. Gomez, romance que conheceu uma enorme variedade de versões ao longo dos séculos e em diferentes geografias. Da literatura romanesca de cordel às literaturas digitais, das literaturas orais (representadas no colóquio através do arquivo digital Romanceiro.pt, projecto desenvolvido pelo CIAC) aos videojogos, das literaturas galegas e africanas às artes performativas e multimediais, passando por discussões sobre narratividade e rede, retóricas da utopia, ou ainda mediação e pós-verdade, o colóquio “Narrativa, Media e Cognição” afirmou-se como um espaço profícuo de criação de pontes. Esta articulação, baseada na noção de margem, permitiu problematizar o descentramento relativamente aos cânones e promover reflexões sobre a fluidez de géneros em diferentes contextos sócio-históricos e culturais. O programa de doutoramento em Materialidades da Literatura esteve representado por Thales Estefani, com uma comunicação intitulada “Formas de perder-se na floresta: Capuchinho Vermelho e as experiências narrativas nos apps”, e por Ana Marques, que apresentou uma comunicação sobre “Cognição algorítmica e geração de linguagem: interrogações sobre literariedade e desfuncionalização dos media”.

Aula Aberta por Eduardo Sterzi

16/11/2018

© Cartaz de Ana Sabino.

No próximo dia 19 de novembro de 2018, pelas 15h00, na Sala do Instituto de Estudos Brasileiros (FLUC, 5º piso), Eduardo Sterzi (Unicamp – Universidade Estadual de Campinas) fará uma aula aberta intitulada “A Pele das Palavras e o Fantasma da Poesia: a dimensão monstruosa do poema”. Esta iniciativa é organizada pelo Instituto de Estudos Brasileiros e pelo Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura.

Um momento decisivo para a história da poesia brasileira moderna e contemporânea é aquele em que os poetas concretos, depois de anos de progressiva racionalização e geometrização das formas, alcançaram um limite a partir do qual, sob a pressão do real, se viram como que forçados a absorver o informe nos seus poemas. Uma interpretação fácil deste momento nos levaria a identificar as origens de tal distensão na necessidade de responder criativamente à dissidência neoconcretista assim como no encontro com a Tropicália. Porém, para se contar essa história, talvez seja preciso recuar um pouco mais. Há toda uma dimensão do toque e do contato – mas também do choque e do impacto – que as estéticas e poéticas convencionais costumam deixar de lado. A subjetividade incorpórea e despojada de experiência daí resultante fez uma de suas últimas grandes aparições no auge geometrizante e combinatório da poesia concreta. Contudo, o corpo sempre volta. Esta constatação está na base do uso que um Haroldo de Campos já tardio fará de uma frase luminosa de Marx, da qual extraiu o título de um de seus livros de poemas: «A educação dos cinco sentidos é trabalho de toda a história universal até agora». Porém, muito antes desse livro de 1985, o corpo com seus cinco sentidos já fizera seu regresso triunfal nas obras de Haroldo e dos outros concretistas – assim como, sobretudo, nas daqueles que com eles aprenderam. É principalmente a incorporação (ou, mais exatamente, reincorporação) da escrita à mão à prática textual de concretistas e pós-concretistas que marcará uma virada crucial. Essa reemergência da mão se fará acompanhar, não por acaso, de um questionamento intenso, sobretudo porque interno à prática artística, da própria categoria poesia.

Eduardo Sterzi é professor de Teoria Literária no Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP. É autor de Prosa (poesia, 2001), Por que ler Dante (ensaio, 2008), A prova dos nove (ensaio, 2008), Aleijão (poesia, 2009), Cavalo sopa martelo (teatro, 2011) e Maus poemas (2016), além de ter organizado o livro Do céu do futuro: cinco ensaios sobre Augusto de Campos (2006). Em 2015, foi um dos curadores, com Veronica Stigger, da exposição Variações do corpo selvagem: Eduardo Viveiros de Castro, fotógrafo, no SESC Ipiranga.

Congresso Internacional “Hacia un Primer Teatro Clásico Español”

14/11/2018

Imagen de “Tragicomedia llamada Nao d´amores”, coproducción de Nao d´amores y Companhia de Teatro de Almada.

Texto de Nuno Meireles.

Decorreu na semana passada, dias 5 e 6 de Novembro, na Facultad de Filología da Universidad Complutense de Madrid, o I Congreso Internacional Hacia un Primer Teatro Clásico Español.

Este Congresso, reunindo investigadores de Espanha, EUA e França, emerge do projecto de investigação com o mesmo nome, do Instituto de Teatro de Madrid (ITEM), da Universidad Complutense de Madrid. Nos objectivos deste projecto pode ler-se:

“En este proyecto se propone la creación de una plataforma (física y virtual) que sirva para la investigación del Primer Teatro Clásico en terrenos textuales, escénicos y literarios, llamada PTCE, promoverá investigaciones sobre la historia escénica y literaria, a la par que ofrecerá ediciones críticas cuidadas de un corpus significativo de piezas teatrales quinientistas y pondrá a disposición del público general y de los investigadores un portal específico con los resultados. El proyecto conecta con los estudios textuales, escénicos, filológicos y de las digital humanities. En una base de datos aneja sobre el teatro del siglo XVI que ayudará a la difusión y canonización de esta rica práctica teatral.”

Tanto o Instituto de Teatro de Madrid como o projecto de investigação beneficiam da direcção de Julio Vélez Sainz, também editor, entre outros, da mais recente edição crítica do Teatro de Torres Naharro.

O próprio nome do Congresso é todo um programa, recentrando o nosso olhar no período entre 1496 e 1543. Afirma-se assim o valor fundacional de Lucas Fernández, Torres Naharro, Fernán Pérez de Oliva, Cristóbal de Virués, Fernando de Rojas, entre outros.

A valia teatral deste primeiro teatro espanhol foi bem acentuada na estrutura do programa do Congresso, com paineis sobre Torres Naharro, Teatralidade e Teatro, Simbologia Teatral, Tragédia e Encenação. 

Sempre balançando entre a filologia e a cena, os trabalhos começaram com a conferência de Miguel Ángel Pérez Priego, decano dos estudos sobre o teatro do século XVI, e acabaram com a conferência de Ana Zamora, destacada encenadora que se dedica ao teatro deste período, no que já foi chamado de “Teatro Renascentista Contemporâneo”.

Para um observador português (como o autor destas linhas) é inevitável admirar a vitalidade deste Estado da Arte e as múltiplas chaves de leitura que foram trazidas em sucessivas comunicações. Não espanta menos o rigor e profundidade com que os investigadores se têm dedicado a este corpus, seja para a elaboração de edições críticas, estudos de pós-doutoramento ou doutoramento, para além de investigações artísticas tendo em vista a sua encenação. 

Ao longo dos dois dias abordaram-se fontes, sentidos de passagens obscuras, textos inéditos, estilos e inovações, análise da métrica ou de descritores espaciais, padrões temáticos, a recente fortuna cénica, várias possibilidades de teatralização e encenação. Ainda que sejam de enfrentar dificuldades de inserção nos curricula e uma precipitada acusação de primitivismo que ainda pesa sobre este corpus, constata-se que este Primer Teatro está vigoroso e estimulante, tanto como campo de estudo como no campo criativo.

Devo destacar dois nomes que estiveram muito presentes (no olhar deste assistente português), ainda que em contornos muito diferentes. Os nomes de Aristóteles e Gil Vicente.

Foi sobejamente evidenciado que este primeiro teatro clássico espanhol se desenvolvia antes de uma concepção aristotélica de teatro, tendo muitos destes autores inovado em sentidos muito alheios à Poética. Por outro lado, será impossível compreender as Obras de Gil Vicente sem ser num quadro ibérico e em diálogo com estes autores, como já entre nós sublinhara Maria Idalina Resina Rodrigues (De Gil Vicente a Lope de Vega, Vozes cruzadas no teatro ibérico) e, mais recentemente, José Augusto Cardoso Bernardes (Sátira e Lirismo no teatro de Gil Vicente). Vemos neste Congresso a mais assertiva confirmação dessas teses, porque se torna claro (para o leitor e espectador de Gil Vicente) como é ibericamente o mesmo contexto de escrita e cena, com temas, propósitos, figuras, géneros, todos em circulação peninsular. A este propósito, não podemos deixar em branco a afirmação de Ana Zamora de que Gil Vicente é autor a que voltará sempre, que deveria estar em cena todos os anos. (Recordo que, do dramaturgo português, esta encenadora já levou à cena A Tragicomédia de Dom Duardos, Auto da Sibila Casandra, Auto dos Quatro Tempos e a Tragicomédia chamada da Nao d´Amores.)

Por estes dias, em Portugal representa-se a Embarcação do Inferno, de Gil Vicente, e em Espanha a Comedia Aquilana, de Torres Naharro.

A circulação deste primeiro teatro clássico continua, e está viva. Como no séc. XVI.