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Da Inscrição à Questão Antropológica na Arte: Memória e Origem no Essencialismo Poético de José Ángel Valente

16/06/2021
© Cartaz de Patrícia Reina.

Terceira videoconferência (via Zoom) do ciclo “Conferências MATLIT 2021”, 16 de junho de 2021, 18h00 (hora de Lisboa, GMT+1): Caio Di PalmaDa Inscrição à Questão Antropológica na Arte: Memória e Origem no Essencialismo Poético de José Ángel ValenteConferências MATLIT 2021 (Programa Completo). Organização: MATLIT LAB – Laboratório de Humanidades, Doutoramento em Materialidades da Literatura e Centro de Literatura Portuguesa.

Hay un lenguaje roto,
un orden de las sílabas del mundo.
Descífralo.
(VALENTE, ‘A los dioses del fondo’)

“Toda escritura poética asiste al nacimiento de las letras”, discursa o poeta galego José Ángel Valente na entrega do VII prêmio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana, pois a “palabra poética es siempre una nostalgia del primer acto creador” (VALENTE, 2008: 1584). Diversas culturas registraram nos seus arquivos proto-históricos a correspondência oculta entre os órgãos fonadores, as letras – explica Mircéa Eliade em Patañjali e o Yoga – e as mitologias cosmo-genésicas (ELIADE, 2000: 190). Não por acaso, as deidades e os graus ascéticos na cultura indiana “possuem um bîja-mantra, um ‘som místico’ que é a sua ‘semente’, o seu ‘suporte’” (ELIADE, 2000: 190). Eis o valor simbólico do mantra, cuja ‘fórmula performática’ reencontramos em diferentes graus nas sagas da poesiaocidental, seja nas vozes de aedos, bardos ou menestréis.

É justamente a partir dessa imagem que percebemos com maior rigor aquilo que Valente perseguiu como palabra total ou palabra inicial: uma escritura ao mesmo tempo locução, acção e representação de uma origem. Palavra-átomo, se assim preferirmos, cujo logos seminal enraíza-se na ideia da escritura poética como u-topos gnóstico. Ao fim e ao cabo, Valente requereu para o seu essencialismo metafísico o mesmo estatuto que séculos antes os calígrafos chineses e os poetas zen-budistas do haiku japonês requereram para as suas escrituras: um método de ascese para o conhecimento.

A presente comunicação, portanto, discutirá um dos pontos mais fibrosos na sua razão poética – a relação entre palavra e memória –, cujas questões nos suscitam necessárias reflexões sobre os vínculos entre arte e antropologia. Num mundo pós-Auschwitz cuja criticidade histórica parece rarefeita, pensar sobre os vínculos que a arte estabeleceu com as sociedades em seus códigos éticos, filosóficos e gnósticos – sobretudo a partir da obra de um de seus grandes entusiastas – talvez ajude-nos a construir uma imagem válida para o homem de nosso século.

Nota biográfica

Doutor pelo Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura / Universidade de Coimbra com financiamento pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal (FCT). Desenvolve investigações sobre teoria estética pós-­Auschwitz, poesia metafísica e literatura contemporânea portuguesa. Em sua tese doutoral, investigou a razão poética do poeta metafísico José Ángel Valente à luz de reflexões sobre arte e antropologia, estética e gestualidade, acto de escritura e técnicas de inscrição, palavra poética e as suas arquiteturas (matriz geradora, logos seminal, logos espermático, palabra inicial, resto cantable). Possui Mestrado em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense (2012) com dissertação sobre a escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol sob uma perspectiva deleuziana e espinoziana.

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