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MATLIT-RIT Summer School (2ª edição)

30/06/2019

Texto de Ana Sabino, Rui Silva, Ana Albuquerque e Aguilar, Mariana Chinellato Ferreira e Tiago Schwäbl.

MATLIT-RIT Summer School 2019, 4 de junho de 2019. Foto de Trent Hergenrader.

No primeiro módulo, baseado na linha de investigação ReCodex – Formas e transformações do livro, os doutorandos Ana Sabino e Rui Silva apresentaram aos alunos a obra A Reinvenção da Leitura, de Ana Hatherly, composta por um ensaio e seguida por dezanove textos visuais. No ensaio, a autora traça uma breve história do poema visual, ou imagem/texto, começando por relembrar que a escrita é a pintura de palavras, e prossegue para uma fundamentação da sua própria experimentação prática, ela mesma situada entre a pintura e a escrita. A aula pretendeu dar a conhecer a história da poesia visual tal como ela é descrita por Hatherly, e dar a experimentar aos alunos as fronteiras entre o desenho e a escrita, o verbal e o visual, o semântico e o assémico. Durante a manhã a aula foi teórica, fundamentando as experiências materiais que se seguiram, na parte da tarde, quando os alunos foram levados a fazer uma série de exercícios práticos. Estes foram concebidos para questionar as diferenças entre o desenho e a escrita ao nível do gesto, da postura da mão e do corpo, da escala, ou da modularidade do traço, permitindo também aos alunos refletir sobre as suas opções, e, finalmente, sobre a possibilidade de levar as questões levantadas para o meio digital.

ReCodex: MATLIT-RIT-Módulo 1. Sala 6, FLUC, 4 de junho de 2019. Foto de Ana Albuquerque e Aguilar.

No início do módulo 2 (Ex Machina 1), fez-se uma breve introdução à literatura eletrónica, partindo de teorização de Katherine Hayles (2008) e Scott Rettberg (2018), abordando-se conceitos fundamentais que permitissem aos alunos apreciar, analisar e discutir teoricamente as obras propostas. Do mesmo modo, com base em conceitos e postulações de Italo Calvino, Gérard Genette, Ted Nelson, Roland Barthes, Jay David Bolter, Richard Grusin e Manuel Portela, debateu-se a relação da literatura eletrónica com o cânone, tendo os alunos explorado, individualmente e em grupo, diversos poemas de Rui Torres, obras de Serge Bouchardon, os primeiros episódios de Inanimate Alice, bem como Spot, Lil’ Red, Salt Immortal Sea, 80 Days, A Duck Has an Adventure e Little Red Riding Hood (Nosy Crow). Assim, na segunda parte da sessão, os alunos conceptualizaram uma obra de literatura eletrónica, apresentando e discutindo as ideias e os esboços com os colegas e com a doutoranda Ana Albuquerque e Aguilar, responsável pelo módulo.

O terceiro módulo, Ex Machina 2, utilizou-se dos cinco elementos propostos por Espen Aarseth para ler e interpretar Literatura Digital: dados, processos, interações, superfícies e contexto. Na primeira parte da aula, a doutoranda Mariana Chinellato Ferreira propôs a análise de obras generativas desenvolvidas com RiTa Toolkit para a linguagem Processing do ponto de vista dos “cinco elementos”. As obras fazem parte do acervo da galeria virtual de obras desenvolvidas com a biblioteca RiTa e os alunos tiveram liberdade para escolher e explorar as obras que mais lhes agradassem. Em seguida, foi proposto que os alunos expusessem aos colegas suas escolhas, apontando os cinco elementos encontrados nas obras. Na segunda parte da aula, os alunos os alunos trabalharam, também, a noção da escrita constrangida, enquanto utilizavam o Processing e a biblioteca RiTa para criar seus próprios sistemas generativos, com base nos modelos da própria biblioteca, nos códigos disponibilizados pelos criadores na galeria virtual, ou criando seu próprio código. Os alunos empenharam-se bastante e apresentaram resultados extremamente criativos.

Ex Machina 3: MATLIT-RIT-Módulo 3. Sala 6, FLUC, 6 de junho de 2019. Foto de Mariana Chinellato Ferreira.

O módulo 4 do curso de verão das Materialidades da Literatura ministrado ao grupo de nove alunos do Rochester Institute of Technology (RIT) – NY/ EUA – esteve a cargo do departamento VOX MEDIA, que tem como propósito representa[r] uma área de pesquisa unificada pelo estudo das materialidades sonoras da comunicação na literatura e no diálogo desta com áreas limítrofes (performance, tecnologias de gravação e reprodução, intermedialidade, remediação, etc.).

Propunha-se para este módulo escutar tentativas de (re)colocação da voz (humana) através de diferentes organismos – laringe, instrumentos musicais, e outros aparelhos de difusão, gravação, imitação e recuperação de som. Para tal, impôs-se uma playlist, em torno da qual gravitavam os conceitos teóricos – e respetiva discussão, a várias vozes (sintéticas, gravadas, vivas) – que o som provocava. Os exemplos sonoros distribuíam-se nas seguintes categorias: 1. próteses e samplificação (por exemplo: Elizabeth Veldon, Erin Gee ou Stine Janvin), em registos de voz sintetizada (ou comportando-se como tal), máquinas analógicas imitando a síntese ou instrumentos elétricos imitando sístole/ respiração. 2. pássaros amplificados (por ex.: Phil Minton, Ute Wassermann ou Isabelle Duthoit), vozes humanas que rasam os limites aviários. 3. rádio (Gregory Whitehead, Hipoglote, Fernando Munizaga), construções sonoras que refletem não só sobre a linguagem como refletem os discursos do mundo. 4. avant-garde (Hugo Ball, Kurt Schwitters, Alessandra Eramo), exemplos de recuperação e remediação de textos e descrições do início do século XX. 5. Velhos aparelhos (Wolfgang von Kempelen, Scott de Martinville), as primeiras investigações e concretizações sonoras e respetiva contextualização histórica.

Vox Media: MATLIT-RIT-Módulo 4. RUC (Rádio Universidade de Coimbra), 7 de junho de 2019. Foto de Diego Gimenez.

A ênfase pesou sobre o elemento técnico – pouco se falou de poesia sonora –, mas o estranhamento foi o mesmo. No final da exposição abriu-se espaço para perguntas, e a reflexão foi levada pelos próprios alunos aos lugares da linguagem e suas fronteiras. Seguiu-se a preparação das tarefas vespertinas. Por um acaso feliz, o módulo Vox Media coincidiu com o dia de emissão semanal do HIPOGLOTE, programa de poesia sonora da Rádio Universidade de Coimbra (RUC). Coube aos alunos apresentar em direto as suas explorações vocais – o resultado foi surpreendente, pela sua variedade, entusiasmo e libertação!

Quanto ao curso em geral: este formato de workshop (teoria + prática) funciona muito bem e deveria ser levado a outras Universidades (nacionais e internacionais), bem como – talvez mais importante ainda – cá dentro, à própria Universidade de Coimbra. A hipótese de gestão e lecionamento providenciada aos estudantes de doutoramento devia ser uma necessidade evidente nas universidades, permitindo uma clarificação das ideias e argumentos desenvolvidos no decurso da investigação, o respetivo confronto com o exterior, e preparação de valências para futuros certamente incertos. Num segundo passo, seria talvez desejável adicionar o intercâmbio a todo este processo, de forma a que as trocas passassem a ser bilaterais. De resto, no campo cultural e social, a semana foi uma aprendizagem de parte a parte: perceção de sistemas de ensino radicalmente diferentes; visita ao património nacional, contacto entre estudantes e professores, troca gastronómica: loquats, entre outros.

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Visita de estudo ao Museu e Ruínas de Conimbriga. Visita guiada pelo Doutor Virgílio Correia. Almoço no Castelo da Lousã, seguido de caminhada na Serra da Lousã e visita à aldeia de xisto Talasnal. Caminhada e visita guiadas por Hugo Francisco, 8 de junho de 2019.

MATLIT-RIT Summer School 2017 (1ª edição)

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