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Conferência de Alexandre Faria

30/01/2019

© Cartaz de Rui Silva.

No próximo dia 19 de fevereiro de 2019, pelas 15h00, na Sala do Instituto de Estudos Brasileiros (FLUC, 5º piso), Alexandre Faria (Universidade Federal de Juiz de Fora) fará a conferência “O lugar da canção na constituição de um corpus literário no Brasil”. Esta iniciativa é organizada pelo Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura, Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), Centro de Literatura Portuguesa (CLP) e Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas (DLLC).

Resumo

No caso brasileiro, a inserção da canção nos estudos literários é, antes de tudo, uma estratégia política de formação de leitor e de construção de autoestima em relação à própria cultura. Mas não deixa de ser também uma opção de quem busca alguma coerência teórica e histórica em relação à proposta de um conceito mais amplo de literatura. Como estratégia política, significa reconhecer que parte significativa da tradição lírica no país se consolidou pela oralidade. Seja através da palavra falada ou cantada, é forte a circulação e mesmo a construção da expressão literária e poética em saraus, feiras, etc. A base desse fato poderia ser vista no histórico analfabetismo da maioria da população brasileira, mas me parece mais produtivo localizá-la na elitização da palavra escrita. De fato, a quase inacessibilidade do letramento e da formação escolar, para significativa parcela de negros e pobres no Brasil, foi o que contribuiu tanto para a permanência do analfabetismo como para o afastamento das formas orais de literatura do cânone escolar. Isso permitiu que a ideia de literatura se restringisse à produção escrita. Ora, na medida em que o país vence o analfabetismo e que as propostas de inclusão, através de ações afirmativas, vão reconfigurando os valores e as relações sociais, insistir nessa restrição seria continuar com a perspectiva elitista, pois o saber literário estaria associado a uma forma de escolarização e de ascensão sociocultural. Para recorrer a uma dicotomia oswaldiana, a da escola e da floresta, através da qual o poeta modernista busca sintetizar elementos díspares da nossa formação cultural, estaríamos insistindo apenas em nosso lado escola. Reconhecer a tradição oral, falada ou cantada, é uma forma de investir também em nosso lado floresta. E isso tem um alcance político muito significativo com relação à construção de uma autoestima nacional. Não precisamos esconder ou tratar como menor todo um saber popular que circula nos sambas, valsas e boleros cantados por nossos avós ou pais, ou no funk e no rap das novas gerações. [Alexandre Faria]

Alexandre Graça Faria possui graduação em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1994), mestrado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1998) e doutorado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2003). Atualmente é e professor associado da Universidade Federal de Juiz de Fora. É também ensaísta, poeta e ficcionista; autor dos livros Venta não (2013), Anacrônicas (2005), Literatura de subtração (2009); e organizador de Poesia e vida – anos 70 (2007), coorganizador de Outra – poesia reunida no sarau de Manguinhos (2013 – com Oswaldo Martins) e de Modos da margem – figurações da marginalidade na literatura brasileira (2015 – com João Camillo Penna e Paulo Roberto Tonani do Patrocínio). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: cultura brasileira contemporânea, literatura brasileira, cultura e identidade, criação literária nas periferias urbanas.

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