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Materialidades da Literatura no Encontro de Tipografia 2018

19/12/2018

Encontro de Tipografia, 9.ª edição. 16-17 de novembro de 2018, Instituto Politécnico de Tomar.

Texto e fotos de Tiago Santos.

O Encontro de Tipografia é a principal conferência científica nacional dedicada ao estudo e desenvolvimento tipográfico de Portugal. A sua organização é promovida de forma itinerante pelas várias Universidades e Politécnicos nacionais e pela delegação nacional da ATypI – Association Typographique Internationale. Doravante será promovido pela Atipo – Associação de Tipografia de Portugal, entidade constituída no corrente ano.

Cada edição do Encontro de Tipografia responde a uma temática. Esta propôs-se a responder ao pertinente thinking about tomorrow, sem que contudo a maioria dos oradores convidados pudesse responder a esta questão de forma direta, mas sim através do seu percurso como designers partilhando alguns momentos chave da sua carreira e parte da sua metodologia de trabalho. Realço as comunicações dos R2 (Artur e Lizá Ramalho, docentes na Universidade de Coimbra), Sérgio Alves e Seb Lester, que nesta óptica partilharam o seu percurso desde os seus primeiros passos até ao actual momento profissional. Refiro ainda, em especial, a comunicação de Veronika Burian, que mostrou a metodologia distribuída de trabalho da TypeTogether e como esta é uma das foundries mais influentes e bem sucedidas, pela atenção com que trabalha os diacríticos acentuados e pontuados de cada língua, fora do “mundo anglo-saxónico”.

Encontro de Tipografia 2018.

Os trabalhos do Encontro decorreram no anfiteatro principal da Escola Superior de Tecnologia do Instituto Politécnico de Tomar, palco de outra histórica conferência de design de relevo – o ARTEC -, e ainda num anfiteatro mais pequeno onde decorreram parte das comunicações propostas. A academia de Coimbra esteve representada pelo Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras e pelo Laboratório de Visualização e Design Computacional do Departamento de Engenharia Informática, sendo precisamente as comunicações propostas pelos investigadores deste laboratório as que mais questionaram o futuro da tipografia nos meios digitais. A comunicação “A Micro e Macro Expressividade da Letra Tipográfica na Poesia de Augusto de Campos”, de Tiago Santos, incidiu sobretudo sobre a manipulação expressiva da tipografia por Augusto de Campos ao longo da produção do seu corpus poético. De forma muito abreviada foi uma análise de grande parte “portefólio” dos poemas produzidos por Augusto de Campos de 1953 até 2018.

Excerto do resumo da comunicação:

Augusto de Campos é um dos principais promotores do Concretismo, em especial da poesia, na América Latina. A atribuição do prémio Prémio Janus Pannonius (2017), após em 2015 integrar a Ordem de Mérito Cultural do Brasil e receber o Prémio Ibero-Americano de Poesia Pablo Neruda (2015), veio reforçar a importância deste poeta e da sua poesia no meio literário mundial.

O texto na Poesia Concreta é pensado em função de uma exploração intensiva do potencial expressivo da palavra, permitindo leituras combinadas sem que exista, por vezes, uma orientação pré-definida da leitura, resultando em múltiplos percursos no campo textual. A página é um contentor de ideias e sensações que são expressas a partir de uma partitura tipográfica, explorando ritmicamente o peso, o tamanho, a hierarquia e distribuição tipográfica na página, que se relaciona com a “entoação, stress e ritmo empregues na leitura oral” (Meggs & Purvis, 2012, p. 261). Rompem-se os protocolos de leitura literária vigentes tornando a leitura interactiva (Fajardo, 2009, pp. 78-79) e possibilitadora de uma pluralidade de sentidos e efeitos estéticos aquando da recepção do texto literário, situados em níveis diferentes na mesma página (Reis, 2013, pp. 19-20). Este nível de proximidade do leitor com o texto aproxima-o microtextualmente da tipografia, tentando este entender a especificidade de cada elemento tipográfico, ao mesmo tempo que procura ir ao encontro de uma mensagem macrotextual pelo aspecto visual do texto. A valorização e apreciação de um texto deixa de ser puramente literária para abranger também a avaliação do ponto de vista artístico, estético, social e cultural (Aguilar, 2005, pp. 76-77).

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