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Congresso Internacional “Hacia un Primer Teatro Clásico Español”

14/11/2018

Imagen de “Tragicomedia llamada Nao d´amores”, coproducción de Nao d´amores y Companhia de Teatro de Almada.

Texto de Nuno Meireles.

Decorreu na semana passada, dias 5 e 6 de Novembro, na Facultad de Filología da Universidad Complutense de Madrid, o I Congreso Internacional Hacia un Primer Teatro Clásico Español.

Este Congresso, reunindo investigadores de Espanha, EUA e França, emerge do projecto de investigação com o mesmo nome, do Instituto de Teatro de Madrid (ITEM), da Universidad Complutense de Madrid. Nos objectivos deste projecto pode ler-se:

“En este proyecto se propone la creación de una plataforma (física y virtual) que sirva para la investigación del Primer Teatro Clásico en terrenos textuales, escénicos y literarios, llamada PTCE, promoverá investigaciones sobre la historia escénica y literaria, a la par que ofrecerá ediciones críticas cuidadas de un corpus significativo de piezas teatrales quinientistas y pondrá a disposición del público general y de los investigadores un portal específico con los resultados. El proyecto conecta con los estudios textuales, escénicos, filológicos y de las digital humanities. En una base de datos aneja sobre el teatro del siglo XVI que ayudará a la difusión y canonización de esta rica práctica teatral.”

Tanto o Instituto de Teatro de Madrid como o projecto de investigação beneficiam da direcção de Julio Vélez Sainz, também editor, entre outros, da mais recente edição crítica do Teatro de Torres Naharro.

O próprio nome do Congresso é todo um programa, recentrando o nosso olhar no período entre 1496 e 1543. Afirma-se assim o valor fundacional de Lucas Fernández, Torres Naharro, Fernán Pérez de Oliva, Cristóbal de Virués, Fernando de Rojas, entre outros.

A valia teatral deste primeiro teatro espanhol foi bem acentuada na estrutura do programa do Congresso, com paineis sobre Torres Naharro, Teatralidade e Teatro, Simbologia Teatral, Tragédia e Encenação. 

Sempre balançando entre a filologia e a cena, os trabalhos começaram com a conferência de Miguel Ángel Pérez Priego, decano dos estudos sobre o teatro do século XVI, e acabaram com a conferência de Ana Zamora, destacada encenadora que se dedica ao teatro deste período, no que já foi chamado de “Teatro Renascentista Contemporâneo”.

Para um observador português (como o autor destas linhas) é inevitável admirar a vitalidade deste Estado da Arte e as múltiplas chaves de leitura que foram trazidas em sucessivas comunicações. Não espanta menos o rigor e profundidade com que os investigadores se têm dedicado a este corpus, seja para a elaboração de edições críticas, estudos de pós-doutoramento ou doutoramento, para além de investigações artísticas tendo em vista a sua encenação. 

Ao longo dos dois dias abordaram-se fontes, sentidos de passagens obscuras, textos inéditos, estilos e inovações, análise da métrica ou de descritores espaciais, padrões temáticos, a recente fortuna cénica, várias possibilidades de teatralização e encenação. Ainda que sejam de enfrentar dificuldades de inserção nos curricula e uma precipitada acusação de primitivismo que ainda pesa sobre este corpus, constata-se que este Primer Teatro está vigoroso e estimulante, tanto como campo de estudo como no campo criativo.

Devo destacar dois nomes que estiveram muito presentes (no olhar deste assistente português), ainda que em contornos muito diferentes. Os nomes de Aristóteles e Gil Vicente.

Foi sobejamente evidenciado que este primeiro teatro clássico espanhol se desenvolvia antes de uma concepção aristotélica de teatro, tendo muitos destes autores inovado em sentidos muito alheios à Poética. Por outro lado, será impossível compreender as Obras de Gil Vicente sem ser num quadro ibérico e em diálogo com estes autores, como já entre nós sublinhara Maria Idalina Resina Rodrigues (De Gil Vicente a Lope de Vega, Vozes cruzadas no teatro ibérico) e, mais recentemente, José Augusto Cardoso Bernardes (Sátira e Lirismo no teatro de Gil Vicente). Vemos neste Congresso a mais assertiva confirmação dessas teses, porque se torna claro (para o leitor e espectador de Gil Vicente) como é ibericamente o mesmo contexto de escrita e cena, com temas, propósitos, figuras, géneros, todos em circulação peninsular. A este propósito, não podemos deixar em branco a afirmação de Ana Zamora de que Gil Vicente é autor a que voltará sempre, que deveria estar em cena todos os anos. (Recordo que, do dramaturgo português, esta encenadora já levou à cena A Tragicomédia de Dom Duardos, Auto da Sibila Casandra, Auto dos Quatro Tempos e a Tragicomédia chamada da Nao d´Amores.)

Por estes dias, em Portugal representa-se a Embarcação do Inferno, de Gil Vicente, e em Espanha a Comedia Aquilana, de Torres Naharro.

A circulação deste primeiro teatro clássico continua, e está viva. Como no séc. XVI.

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