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Conferência de Carlos Pittella

13/06/2018

© Cartaz de Rui Silva.

No próximo dia 22 de junho de 2018, pelas 11h30, na Sala Ferreira Lima ( FLUC, 6º piso), Carlos Pittella (Universidade de Brown) fará a conferência “O corpo rizomático do Fausto pessoano”. Esta iniciativa é organizada pelo Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura e pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra.

O Fausto de Pessoa é um signo que resiste a apenas uma definição (o que é depende da premissa por trás da pergunta), podendo ser entendido de maneiras diversas:

  1. como livro, é pelo menos quatro edições diferentes, com ambições distintas;
  2. como obra de valor artístico, é uma obra-prima ou um fracasso, dependendo dos parâmetros de avaliação;
  3. como peça de teatro, é um drama inacabado em cinco atos ou uma obra inacabável e a-linear, dependendo de como se entendam as instruções deixadas pelo autor;
  4. como arquivo material, é uma coleção de quase trezentos documentos que podem ser organizados de maneiras distintas, dependendo dos critérios de atribuição e de ordenação, e que incluem poemas, fragmentos, planos, listas, notas e outras referências a uma ou mais obras com o título «Fausto» ou uma de suas variações.

Os documentos atribuíveis ao Fausto deixados por Fernando Pessoa já foram agrupados de diversas maneiras, não só pelos quatro editores que trabalharam o corpus em projetos editoriais distintos, mas também pelos inventariantes do espólio pessoano. Muitos documentos chegam a exibir quatro numerações, cada uma delas possibilitando uma reconstrução particular e, com isso, uma visão diferenciada deste labirinto dramático. Frequentemente, um papel apresenta: uma série de algarismos romanos e indo-arábicos a lápis vermelho; algarismos indo-arábicos diferentes a lápis cinza; outra série de números carimbados a tinta vermelha; e uma quarta numeração, indicativa de páginas, num outro lápis cinza.

Apenas uma dessas numerações (o segundo lápis cinza) representa uma ordenação editorial concretizada, a saber, a da edição princeps do Fausto na antologia proposta por Eduardo Freitas da Costa. Como entender as demais cotas? Em que se teriam baseado as edições de Duílio Colombini e de Teresa Sobral Cunha em suas tentativas de recriar em 1986 e 1988, respetivamente, um drama supostamente em cinco atos?

Na edição crítica do Fausto (2018), buscou-se pela primeira vez apresentar os documentos atribuíveis a essa obra em ordem tentativamente cronológica. Assim, deparamo-nos com uma experiência de leitura bastante diferente, a qual nos desafia a questionar conceções de linearidade e de unidade. Entre outras coisas, a ordenação cronológica permite-nos acompanhar o processo de escrita em espiral do drama: entre 1907 e 1933, Pessoa rascunha, revê e muitas vezes recria cenas e poemas inteiros, por vezes de modo aparentemente incompatível com desenvolvimentos anteriores – como se existissem Faustos dentro de Faustos, num rizoma a crescer em direções diversas, labiríntica e irredutivelmente.

Carlos Pittella é poeta, educador, viajante e investigador. Licenciado em Jornalismo, fez o seu mestrado e doutoramento sobre Fernando Pessoa na PUC-Rio. Foi professor titular do Global Citizenship Experience em Chicago, onde trabalhou de 2010 a 2014. É autor de civilizações volume dois (2005, Palimage), co-autor de Como Fernando Pessoa Pode Mudar a Sua Vida (2017, Tinta-da-china), editor do Fausto pessoano (2018, Tinta-da-china) e da biografia de Pessoa escrita por Hubert Jennings, The Poet with Many Faces (2018, Gávea-Brown). É membro do conselho editorial da revista Pessoa Plural, tendo organizado o n.º 8, que foi dedicado ao arquivo Jennings e lançado como o livro People of the Archive (2016, Gávea-Brown). Pittella trabalha como investigador na Brown University (Dept. de Estudos Portugueses e Brasileiros), integrando também o Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa.

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