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Carlos de Oliveira: a parte submersa do iceberg

22/03/2017

Inauguração da exposição “Carlos de Oliveira: a parte submersa do iceberg”. Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, 18 de março de 2017.

Foi inaugurada no passado sábado, dia 18 de março, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a exposição do espólio de Carlos de Oliveira, com curadoria de Osvaldo Manuel Silvestre. O título da exposição provém de um texto de Carlos de Oliveira, “O iceberg”, incluído no volume O aprendiz de feiticeiro. Nesse texto, o autor fala de tudo aquilo que a falta de liberdade, durante o salazarismo, o inibiu de viver e de escrever, denunciado desde logo na sua frase inicial: «Pensando bem, não tenho biografia». A sequência do texto esclarece essa afirmação:

Melhor, todo o escritor português marginalizado sofre biograficamente do que posso denominar complexo do iceberg: um terço visível, dois terços debaixo de água. A parte submersa pelas circunstâncias que nos impediram de exprimir o que pensamos, de participar na vida pública, é um peso (quase morto) que dia a dia nos puxa para o fundo. Entretanto a linha de flutuação vai subindo e a parte que se vê diminui proporcionalmente.

A imagem da parte submersa do iceberg adapta-se bem àquilo que define um espólio: um conjunto de papéis e documentos que acompanha, ao longo do tempo mas longe da vista do público, uma obra publicada. Contudo, tratando-se de um espólio bastante rico, foi necessário selecionar drasticamente o material a exibir, bem como distribuir tarefas, para o que o curador contou com a ajuda de uma equipa que integra duas doutorandas do Programa em Materialidades da Literatura, Ana Sabino e Manaíra Athayde, além dos Professores Ricardo Namora e Rui Mateus, membros, como toda a equipa, do CLP. Rui Mateus tratou a poesia, Ricardo Namora o “caso” Finisterra. Paisagem e Povoamento, obra tardia e maior, Ana Sabino explorou o espólio gráfico do autor, Manaíra Athayde estudou a questão do arquivo em Carlos de Oliveira. A exposição combina, pois, um percurso biobibliográfico, mais completo no caso da poesia, única área da obra percorrida na íntegra, com a eleição de núcleos temáticos fortes: a interação fotografia-texto no percurso que vai do “trabalho de terreno” levado a cabo pelo casal Carlos e Ângela de Oliveira na Gândara, no início dos anos 50, até à edição, em 1953, de Uma Abelha na chuva, às fotos produzidas por Augusto Cabrita para a edição ilustrada da obra na D. Quixote no final dos anos 60 e, por fim, ao filme de Fernando Lopes sobre o romance (1972); a contextualização do campo literário, cultural e político português no final dos anos 60, recorrendo-se para tal aos 8 volumes publicados dos diários de José Gomes Ferreira, Dias Comuns; o espólio de Finisterra, que revela a existência de uma “versão” abandonada de uma obra que não era ainda Finisterra, mas de que se viria a aproveitar alguma coisa para esse romance; e o trabalho de alguns grandes designers que desenharam capas e coleções para a obra de Carlos de Oliveira, bem como os textos, éditos e inéditos, que revelam uma aguda consciência do livro como objeto e suporte no autor.

Inauguração da exposição “Carlos de Oliveira: a parte submersa do iceberg”. Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, 18 de março de 2017.

Um conjunto significativo de documentos singulariza a exposição, quer se trate de iconografia, documentos pessoais ou, obviamente, manuscritos, dactiloscritos, livros dedicados, etc. O visitante é ainda convidado a ver o filme de Fernando Lopes sobre Uma abelha na chuva e o filme de Margarida Gil sobre o escritor, Sobre o lado esquerdo (2008), bem como a ouvir poemas seus ditos por Maria Barroso.

Da exposição foi editado um catálogo, que inclui ensaios de todos os membros da equipa, catálogo acompanhado pela edição avulsa de um Micro-dicionário de Carlos de Oliveira, da autoria do curador. Resta dizer que a exposição incluirá uma vasta programação paralela, com lançamento de obras (um número da Colóquio-Letras dedicado a Carlos de Oliveira, um pequeno volume em homenagem a Ângela de Oliveira, falecida no ano transato), mesas-redondas e atividades de serviço educativo, no próprio Museu, bem como colóquios a realizar nas três cidades associadas à vida do autor. Em Cantanhede terá lugar um colóquio sobre “Gândara e cultura popular em Carlos de Oliveira”; em Coimbra, na Casa da Escrita, decorrerá um colóquio sobre “Carlos de Oliveira e a geração do neo-realismo coimbrão”; finalmente, em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa, realizar-se-á um colóquio sobre “Carlos de Oliveira e a Ideia do Moderno”.

É uma ilusão supor que um espólio como o de Carlos de Oliveira pode ser estudado num ano ou dois. Em rigor, um espólio desta dimensão necessita de trabalho ao longo de uma geração, de modo a que todas as suas articulações internas e externas sejam exploradas, ou seja, de forma a que a sua constituição plena como arquivo possa ser estabelecida. O trabalho agora feito é um começo, com todos os privilégios do começo e todas as frustrações que derivam da consciência disso. Mas é também um trabalho com o potencial para reativar a leitura da obra do autor e, a par disso, uma forma de criar uma nova geração de leitores da sua obra. Resta desejar que este trabalho possa vir a desembocar na produção de um Arquivo Digital Carlos de Oliveira.

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