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Congresso Internacional Fernando Pessoa 2017

16/02/2017
NFS Nuno Ferreira Santos - 10 Fevereiro 2017 - Congresso internacional Fernando Pessoa na Gulbenkian

Foto de Nuno Ferreira Santos – 10 Fevereiro 2017 – Congresso internacional Fernando Pessoa na Gulbenkian

Texto de Bruno Fontes e Rita Catania Marrone

Quarenta anos depois do primeiro Simpósio Internacional dedicado a Fernando Pessoa, que teve lugar na Brown University (Providence, Rhode Island, E.U.A.) em 1977, os estudiosos da sua obra voltaram a reunir-se à volta da mesma mesa. Desta vez, foi na ilustre mesa da Fundação Calouste Gulbenkian que os palestrantes, provenientes de diferentes universidades do mundo e das mais variadas áreas de formação, se reuniram para o Congresso Internacional Fernando Pessoa 2017 – que teve lugar entre os dias 9 e 11 de Fevereiro e foi organizado pela Casa Fernando Pessoa com o apoio da referida Fundação e a colaboração da Junta de Freguesia de Campo de Ourique (Lisboa).

Assistir a um Congresso Internacional sobre Fernando Pessoa é quase como assistir a um concerto dos Rolling Stones, já que Pessoa é um evergreen que tem a capacidade de juntar três gerações de “fãs”. Assim, entre o público, ao lado de estudantes da escola secundária ou de pessoas simplesmente interessadas na vida e obra do poeta dos heterónimos, estavam os veteranos de outrora, que já tinham participado nas edições passadas, bem como os novos estudiosos, que há alguns anos andam a mergulhar na arca sem fundo.

No Auditório 2 da Fundação, ao longo de três dias, intervalaram-se palestras, mesas redondas e entrevistas, com a participação dos mais consagrados especialistas da obra pessoana (como Richard Zenith, António Feijó, Patrick Quillier e Paulo Borges, só para citar alguns). Porém, a novidade desta edição foi o facto de aproximar à antiga geração de estudiosos a mais recente. Nesse sentido, foi dado um espaço considerável aos trabalhos de doutoramento em curso, muitos dos quais dedicados a aspetos da constelação-Pessoa que até agora têm permanecido inexplorados. Assim, Dalila Milheiro explorou Pessoa através do olhar de Ana Hatherly, Rui Sousa apresentou o poeta como libertino no sentido originário do termo (ou seja, como livre pensador), Madalena Lobo Antunes propôs uma leitura marxista de Bernardo Soares, Marisa Mourinha percorreu as páginas da poética pessoana para fazer uma “apologia da inutilidade” e Jorge Uribe pôs o acento na importância do Pessoa editado em vida ─ e não apenas do inédito, para fazer justiça a uma faceta do poeta que ainda não tem encontrado a atenção que mereceria. Novos nomes e novas ideias, numa clara demonstração do quanto, mesmo passados 82 anos sobre a morte de Pessoa, ainda há por explorar.

As Materialidades da Literatura também estiveram presentes no Congresso, com as comunicações de Osvaldo Manuel Silvestre, Manuel Portela, Bruno Fontes e Rita Catania Marrone. O Professor Osvaldo Manuel Silvestre interveio no primeiro dia do Congresso, na mesa “Pessoa Cosmopolita”, onde expôs o conflito entre a poesia de Fernando Pessoa e as diferentes modalidades de imperialismo, dando particular relevo ao modo como estas se relacionam com a gramática e com a língua. O Professor Manuel Portela apresentou, no dia seguinte, a forma como o Arquivo LdoD transforma o Livro do desassossego numa máquina literária, no sentido em que permite associar ferramentas de representação genética e crítica com funcionalidades de performatividade literária, tornando assim possível fazer experiências com a natureza da escrita, da leitura, da edição e do Livro. Já os dois doutorandos demostraram como a abordagem das Materialidades permite a inauguração de novos olhares hermenêuticos: Rita Marrone (no dia 10) referiu a importância do estudo da biblioteca de Pessoa, no âmbito do seu projeto de doutoramento sobre os livros relacionados com esoterismo que pertenciam ao poeta, enquanto Bruno Fontes mostrou (no dia 11) a relação entre cinema e escrita, através de dois filmes “pessoanos” de João Botelho, o Filme do Desassossego (2010) e Conversa Acabada (1981).

Quando é que se pode afirmar que um autor se tornou num clássico? Quando a sua obra é uma fonte inesgotável de inspiração ao longo das épocas e é capaz de falar a todas as gerações, independentemente do lugar, do idioma e do contexto histórico-cultural. E Fernando Pessoa é decerto tudo isto – e mais alguma coisa. Se é verdade, como afirmou Manuel Portela na sua comunicação, que um clássico do século XXI é o que pode ser lido por um computador, então o Congresso também veio comprovar essa declaração, com a apresentação, por parte de Pedro Sepúlveda, do projeto Pessoa Digital e do já citado arquivo digital Nenhum Problema Tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego, pelo próprio Portela. E esta questão, que reitera o facto de que a obra pessoana consegue aliar a tradição à novidade e potencia uma convivência horizontal entre a comunidade científica e o público em geral, é uma prova bastante convincente tanto do sucesso deste Congresso como da inegável permanência de Fernando Pessoa como autor maior da Literatura Universal.

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