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Os últimos dias da humanidade

18/11/2016
The besieged Palestinian camp of Yarmouk, queuing to receive food supplies, in Damascus, Syria. The Guardian, Feb 26, 2014.

The besieged Palestinian camp of Yarmouk, queuing to receive food supplies, in Damascus, Syria. The Guardian, Feb 26, 2014.

Texto de MP

No passado dia 12 de novembro de 2016, foi apresentada no Teatro Nacional São João a primeira edição integral d’ Os Últimos Dias da Humanidade: Tragédia em Cinco Actos com Prólogo e Epílogo, de Karl Kraus, em tradução de António Sousa Ribeiro, professor do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura. António Sousa Ribeiro traduziu também a edição portuguesa publicada pela Antígona em 2003, que continha uma seleção de 115 cenas das 209 que constituem o texto original. Os Últimos Dias da Humanidade começou a ser escrito em 1915. A primeira versão da obra veio lume na revista Die Fackel, em 1918-1919, tendo sido publicada em livro em 1922, numa versão revista e alargada. A nova tradução foi encomendada para o espetáculo Os Últimos Dias da Humanidade, encenado por Nuno Carinhas e Nuno M. Cardoso,  estreado no TNSJ  a 27 de outubro de 2016 (e ainda em cena até ao próximo dia 19 de novembro). Dividido em três partes (“Esta Grande Época”, “Guerra é Guerra” e “A Última Noite”), representadas em três noites consecutivas, o espetáculo constitui também a primeira encenação da obra em Portugal.

Tradução, encenação e representação captam toda a força do texto de Kraus, permitindo-nos ver e ouvir o retrato panorâmico dos processos discursivos que instituem e mantêm o estado de guerra, e que tornam insentível o sofrimento humano e invisível a ordem que dele se alimenta. A colagem documental de falas de dezenas e dezenas de personagens (encarnadas, nesta encenação, por 21 atores e atrizes) é traduzida cenograficamente através do espaço vazio da cena, onde todos os espaços físicos e sociais podem evocar-se. Trata-se de pôr em cena a própria humanidade, não como conceito, mas na concretude singular da violência histórica e do sofrimento individual, que as práticas discursivas que reproduzem as relações sociais de poder parecem tornar inimagináveis. A poética da indignação que Kraus constrói advém da sua capacidade de mostrar a ação da linguagem como produtora de um estado de coisas e, ao mesmo tempo, como um meio para imaginar o sofrimento que consegue ocultar:

Quem não tiver nervos resistentes, mesmo que os tenha suficientemente fortes para suportar a nossa época, vá‑se embora do espectáculo. Não é de esperar que um presente em que isto pôde acontecer veja no horror feito palavras outra coisa que não uma brincadeira, tanto mais quanto ele lhe ecoa aos ouvidos vindo das aconchegadas profundezas dos mais hediondos dialectos, e que veja naquilo que há pouco se viveu, a que se sobreviveu, outra coisa senão uma invenção. Uma invenção cuja matéria não aceita. Porque maior do que toda a vergonha da guerra é a vergonha de os homens já nada quererem saber dela, suportando que haja guerra, mas não que tenha havido. Os que sobreviveram ao tempo dela acham que o tempo dela já passou e as máscaras cumprem, é certo, a quarta‑feira de cinzas, mas não querem ser recordadas umas das outras. Como é fundamente compreensível a circunspecção de uma época que, jamais capaz de uma vivência e incapaz de trazer à ideia o que viveu, nem pela derrocada sofrida se deixa abalar, sente tão pouco a expiação como sentiu o acto cometido, mas, apesar disso, tem suficiente instinto de preservação para tapar os ouvidos perante o fonógrafo das suas melodias heróicas e suficiente espírito de sacrifício para, se necessário, voltar a entoá‑las. Pois que há‑de haver guerra é coisa que não é minimamente inconcebível para aqueles a quem a palavra de ordem “Agora estamos em guerra” permitiu e protegeu todas as infâmias, mas a quem a admoestação “Agora estivemos em guerra!” perturba o justo descanso dos sobreviventes. [Do Prefácio de Karl Kraus, trad. António Sousa Ribeiro].

A tradução de António Sousa Ribeiro deve ser celebrada pela capacidade de recriar em português um conjunto muito diverso de discursos e de registos, falados e escritos, em todas as suas variações dialetais e socioletais, e nos seus cambiantes oficiais, irónicos, poéticos, sarcásticos e patéticos. A capacidade de evocar toda uma sociedade e toda uma época, coreografando um sem-número de cenas com precisão, permitem à encenação e à representação atingir a riqueza expressiva e poética da tradução, assim como a sua capacidade de interpelação. Tradução, encenação e representação tornam-nos, de novo, capazes de imaginar a guerra:

Ninguém levou tão longe a representação do mal absoluto da guerra. Kraus procurou captar o teatro de guerra como fantasmagoria tecnológica e discursiva. Montagem verbal e montagem cénica desenvolvem-se segundo uma lógica recursiva e centrífuga, capaz de dar ao horror dos actos e das palavras um alcance social panorâmico. A intensidade do pathos satírico e a multiplicação dos quadros dramáticos permitiu-lhe construir uma estética da mais alta indignação. Para o estado de apocalipse a que a humanidade se condenara nem o testemunho do poeta era já possível. Notícias impressas, oratória militar, pregões, cenas de rua, dos corredores do poder e das frentes de batalha alternam num processo de montagem, cuja natureza documental só acentua a miséria da linguagem. Os últimos dias da humanidade mostra de que forma as condições de inteligibilidade do presente produzidas pela imprensa fazem, de facto, parte da ordem da morte que alegadamente descrevem. Ao tornar visível essa ignóbil função de tornar invisível o sofrimento dos seres humanos, Kraus encena o moderno mercado da violência que tornou a humanidade cúmplice do seu próprio extermínio. [MP, nota de apresentação da obra na edição parcial de 2003.]

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