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As Humanidades Digitais globais?

21/10/2015

M.C._PaixãoDeSousa

Texto de Rita Marrone.

No passado dia 12 de outubro, o Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura teve o prazer de acolher a Professora Maria Clara Paixão de Sousa, que trabalha no departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, e modera o Grupo de Pesquisa Humanidades Digitais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas na Universidade de São Paulo. A professora Paixão de Sousa, no decurso do seu seminário, levantou uma questão interessante para pensarmos as Humanidades Digitais de um ponto de vista diferente: o que nos pode ensinar uma perspetiva geopolítica sobre as Humanidades Digitais?

Schermata 2015-10-21 alle 10.20.13Ao tentarmos dar uma definição unívoca do termo, dar-nos-emos logo conta de que não se trata de uma tarefa fácil. Embora Digital Humanities seja o termo mais utilizado e difundido hoje em dia, a sua origem remonta apenas a 2004, com a publicação do livro A Companion to Digital Humanities, organizado por Susan Schreibman, Ray Siemens e John Unsworth. Contudo, se com a expressão “Digital Humanities” queremos indicar a relação entre tecnologia e Humanidades, teríamos de admitir que se trata de algo que nasceu bem antes da invenção do termo que a define. Antes das “Digital Humanities” existirem, já se falava de Humanities Computing. Já em 1942, o padre jesuíta italiano Roberto Busa, em colaboração com a Università Cattolica del Sacro Cuore de Milão, tinha criado um projeto chamado Corpus Thomisticum, cujo objetivo era a digitalização da obra de Tomás de Aquino.

Busa_ProjectPadre Busa foi um dos primeiros a utilizar os meios tecnológicos ao serviço das Humanidades – nomeadamente, máquinas que pudessem automatizar a análise linguística dos textos escritos. Não obstante os meios então utilizados parecerem hoje obsoletos e antiquados (cartões perfurados, computadores de grande tamanho e uma equipa numerosa de pesquisadores), o projeto do Corpus Thomisticum foi pioneiro e extremamente inovador.

Parece existir hoje uma grande confusão sobre o que são exatamente as Humanidades Digitais: uma incursão dos humanistas na Informática ou uma incursão dos informáticos nas Humanidades? Se tentássemos encontrar uma definição unívoca e desprovida de contradições, ficaríamos desiludidos. Trata-se duma prática de trabalho? É um cruzamento entre disciplinas, uma “transdisciplina”? É uma nova forma de fazer humanidades?

Esta polifonia de vozes espelha talvez uma crise de identidade que afecta as jovens Humanidades Digitais e que é provavelmente ínsita na natureza própria desta matéria. Podemos considerar as Digital Humanities como as Humanidades de hoje, o que tornaria a palavra “digitais” dispensável, desnecessária? E se a resposta for sim, quais são os desafios que as Humanidades deveriam enfrentar hoje em dia? Uma rápida vista de olhos às estatísticas em linha mostra-nos de forma muito clara um dado significativo e revelador: as “Humanidades Digitais” são menos populares do que as “Digital Humanities, indiciando as assimetrias no uso daquela categorização nos respetivos espaços linguísticos.

as-humanidades-digitais-globais-30-1024Este mapa de 2011, que localiza os centros de pesquisa relacionados com as Humanidades Digitais no mundo, demostra uma prevalência da língua inglesa neste âmbito. Contudo, é necessário perceber que este tipo de estatísticas reflete as suas próprias premissas. Traçar uma panorâmica clara e precisa das Humanidades Digitais não é uma tarefa fácil de cumprir e os estudos que encontramos em linha parecem pouco atendíveis e contraditórios – contraditoriedade que espelha a impossibilidade de atribuir uma definição unívoca, da qual já falámos. Os dados estão baseados em parâmetros diferentes: o que é que se tem de considerar como Humanidades Digitais? Os resultados, como mostram as imagens a seguir, vão mudar consoante os centros de pesquisa que considerarmos, projetos fora e dentro das universidades, os espaços linguísticos e geográficos, etc.

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as-humanidades-digitais-globais-47-638Não obstante as várias contradições, não se pode negar que atualmente as Digital Humanities são anglófonas e anglocêntricas. Mas não se trata apenas de uma questão linguística. Se considerarmos as Humanidades Digitais como as Humanidades de hoje, deveríamos ter em conta o facto que, no nosso mundo globalizado, não podemos tomar por certa a distribuição paritária dos recursos. As imagens que aparecem a seguir mostram, em sequência, a concentração dos recursos tecnológicos nos vários pontos do globo e o fluxo de dados telemáticos entre os Países do mundo.

as-humanidades-digitais-globais-88-1024 as-humanidades-digitais-globais-96-1024Qual é o dado mais saliente? A desigualdade entre a distribuição dos recursos tecnológicos é tão evidente que, antes de falar de Humanidades Digitais globais, temos necessariamente de considerar as diferenças geopolíticas, económicas e linguísticas presentes no mundo. 

Ao concluir, a Professora Paixão de Sousa pôs em evidência o trabalho dos projetos lusófonos no âmbito das Humanidades Digitais: é o caso do Dia das Humanidades Digitais, por exemplo, ou do projeto de digitalização da Biblioteca Nacional de Lisboa e do projeto brasileiro Scielo.

as-humanidades-digitais-globais-102-1024as-humanidades-digitais-globais-100-1024

Estes dois últimos projetos mostram como os países de língua portuguesa tiveram o mérito de ser inovadores e pioneiros no que diz respeito ao acesso digital ao património cultural e ao conhecimento científico, duas componentes essenciais das mudanças nos processos de produção de conhecimento que caraterizam as Humanidades Digitais.

[Referências, slides e anotações sobre o seminário estão disponíveis em HD.br]

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