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ELO2015, Bergen: The End(s) of Electronic Literature

10/09/2015
Cidade de Bergen, Noruega.

Cidade de Bergen, Noruega.

Texto: Ana Marques Silva, Bruno Ministro, Diogo Marques e Sandra Bettencourt.
Fotos: Sandra Bettencourt.

Cumprindo a tradição de realizar-se bianualmente em solo europeu, a edição de 2015 da Electronic Literature Organization (ELO) Conference teve lugar em Bergen, Noruega, entre os dias 4 e 7 de agosto. Contando com a organização de Scott Rettberg (Conference Chair), Jill Walker Rettberg (Program Chair), Roderick Coover (Artistic Chair), e com o apoio dos alunos de doutoramento do Bergen Electronic Literature research group (BEL), a Conferência reuniu mais de 300 artistas e investigadores de todas as partes do mundo, conseguindo este ano um número recorde de novos participantes. Dividida em Workshops, Roundtable Discussions, Lightning Talks, Workshops, e cerca de 30 painéis com sessões paralelas, o programa contou ainda com uma secção totalmente dedicada à literatura electrónica para crianças, uma iniciativa inédita nos dezasseis anos da ELO. O tema proposto, “The End(s) of Electronic Literature”, fazia adivinhar alguma polémica, sobretudo pelas suas linhas algo teleológicas, situação que se veio a confirmar desde logo na sessão inaugural apresentada por Espen Aarseth e Stuart Moulthrop (keynote speakers), com destaque para a sugestão do primeiro em alterar o nome da conferência para Literature Organization (LO) — deixando cair o termo “electronic”.

Espen Aarseth durante a sessão inaugural.

Espen Aarseth durante a sessão inaugural.

A realização de exposições, performances e leituras de obras digitais tem vindo a ser cada vez mais uma linha definidora das conferências da ELO. A edição de 2015 não foi excepção e os momentos de apresentação de obras artísticas marcaram todos os dias do evento. A integração destas actividades no programa sublinhou um dos elementos diferenciadores da Conferência ELO: a de Festival de Literatura Electrónica. A dinâmica desenvolvida entre eventos de cariz académico e artístico permitiu um diálogo transdisciplinar e uma reflexão crítica enriquecidos pela experiência teórica e prática. Muitos dos participantes da conferência são também autores de obras em exposição e de performances apresentadas à comunidade, o que permitiu um olhar mais fluido e informado, tanto sobre a vertente académica como artística.

Foi disso exemplo a leitura de Pry — a ‘novella’ vencedora do “The Robert Coover Prize 2015”, atribuído a obras de literatura electrónica pela ELO — pela autora Samantha Gorman, que apresentou uma comunicação no painel “Intermediality and Electronic Literature”. Mas também a leitura de The End of the White Subway pelo autor Stuart Moulthrop. Ou ainda, da obra Monoclonal Microphone: The Movie por John Cayley e de Crosstalk por Simon Biggs, autores que participaram no painel “Performativity” com as comunicações “Aurature and the End(s) of Electronic Literature” e “A Language Apparatus”, respectivamente.

As leituras e performances foram, na sua maioria, colectivas e representativas das diferentes exposições patentes durante a Conferência. Contudo, houve espaço para performances independentes das exposições. Foi o caso de Kjell Theøry de Judd Morrissey, uma performance poética de Realidade Aumentada e site-specific, que conjuga narrativas históricas e experiências pessoais do autor numa reflexão particular acerca do espaço de acolhimento da Conferência, a Noruega e mais especificamente da cidade de Bergen. Outra performance que não teve representação nas exposições foi Shy Nag Code Opera, de Chris Funkhouser,  uma “ópera-código” multimédia que hibridiza linguagens e processos computacionais e humanos.

De igual forma, o programa artístico da conferência contou com cinco exposições dedicadas à literatura digital e artes dos média. As exposições apresentaram abordagens temáticas e artísticas variadas e ocuparam vários espaços da cidade. As inaugurações de cada uma das exposições foram tendo lugar ao longo dos dias da conferência, permanecendo algumas das exposições abertas à visita do público até final de Agosto, num interessante testemunho de abertura à comunidade local e não-especialista.

A exposição Kid E-Lit (Bergen Public Library) foi uma das primeiras a ser inauguradas. A exposição foi organizada em duas secções: uma selecção de sete obras submetidas ao programa de artes da ELO2015, especificamente seleccionadas para figurar na exposição dado se destinarem ao leitor infantil e juvenil; um conjunto de oito obras multimodais infanto-juvenis para tablet ou iPad desenvolvidas por autores nórdicos. Paralelamente, foi distribuído um catálogo dedicado à exposição, uma publicação de pequenas dimensões mas bastante completa que permite entrever a aposta que está a ser dada à criação de literatura digital para crianças e adolescentes.

End(s) of Electronic Literature Festival Exhibition (University of Bergen Arts Library), exposição que partilha o título da conferência, consistiu na primeira mostra pública de trabalhos da Electronic Literature Collection 3, a publicar em 2016. É possível visualizar alguns dos trabalhos exibidos nos quatro computadores que compuseram a exposição a partir da seguinte ligação: http://elo2015.h.uib.no.

Os curadores da exposição Decentring: Global Electronic Literature (Gallery 3,14) reuniram um conjunto de obras heterogéneas com o propósito de mostrar o trabalho de autores de fora dos Estados Unidos e Europa Ocidental, considerados os centros de produção de literatura electrónica com maior destaque. Figuraram na exposição trabalhos de autores do Brasil, Canadá, Peru, Polónia, Portugal e Rússia, sendo que a exposição mesclou trabalhos contemporâneos e trabalhos históricos. Disso é o caso de “p2p: Polish-Portuguese E-Lit”, núcleo dedicado às experiências com meios electrónicos desenvolvidos na Polónia e em Portugal, tanto por autores como E. M. de Melo e Castro, Pedro Barbosa e Silvestre Pestana, como por autores mais novos, de que são exemplo André Sier e Luís Lucas Pereira.

A exposição Hybridity and Synaesthesia (Lydgalleriet) foi organizada em torno da desestabilização do conceito tradicional de leitura. Estiveram patentes trabalhos que fazem uso de estratégias hápticas, interactividade pelo toque e tecnologias locativas, entre outros.

Interventions: Engaging the Body Politic (USF) apresentou-se como uma mostra de trabalhos e de práticas artísticas que se relacionam de forma engajada com o entorno social. As referências críticas dos trabalhos apresentados vão desde o Scam em linha até ao Big Data, passando pelas redes sociais.

A participação dos estudantes do programa de doutoramento em Materialidades da Literatura passou por dois momentos distintos: Integrados numa sessão intitulada “Transmedial Edges”, Sandra Guerreiro Dias e Bruno Ministro apresentaram uma comunicação intitulada “Performance art, experimental poetry and electronic literature in Portugal: an intermedial archive to an intermedial practice of language”. Esta comunicação centrou-se na apresentação de uma linha cronológica interactiva da arte da performance em Portugal, disponibilizada no Arquivo da Po.Ex (org. Rui Torres, UFP), evidenciando as fronteiras difusas entre a performance e a poesia experimental, e sublinhando as relações que situam a literatura electrónica na linhagem de ambas. Tomando este material como ponto de partida, esta comunicação propôs ainda uma reflexão mais alargada sobre os processos de conversão e organização multimodal de objectos digitais.

Articulando perspectivas em torno do tema desta conferência (“The End(s) of Electronic Literature”), Ana Silva, Diogo Marques e Sandra Bettencourt apresentaram um painel intitulado “It’s not yet the beginning or the end of electronic literature”. Tomando como mote o livro de poesia de Manuel António Pina publicado em 1974 com o título “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde”, este painel propôs-se discutir algumas interrogações suscitadas pelo cruzamento da literatura com os meios digitais, refutando visões tautológicas ou sobre-determinadas pelo aparato técnico. Assim, numa comunicação intitulada “The Endgame for Electronic Literature?”, Diogo Marques apresentou uma reflexão sobre a circularidade de estruturas e mecanismos literários, evidenciando o modo como estes ciclos e movimentos constituem as ‘rodas dentadas’ da ‘engrenagem contínua da literatura’, e neles situando a noção de literatura electrónica. Ana Marques Silva apresentou uma comunicação intitulada “Without Begining or End: Reading and Writing in Generative Literature”, centrada nas dinâmicas de escrita e de leitura na literatura generativa e explorando as estratégias de leitura suscitadas por obras que situam o leitor enquanto elemento do motor textual, problematizando assim as noções de sujeito e agência. Finalmente, Sandra Bettencourt apresentou a sua comunicação com o título “Is it just a little bit late for the future of electronic literature?”, explorando as relações entre os processos literários digitais e o romance impresso a partir de uma reflexão sobre a pós-digitalidade, considerando assim que ‘é apenas um pouco tarde’ para separar a literatura electrónica da literatura impressa.

Pela sua heterogeneidade e pelo seu elevado número de performances e exposições, o  festival revelou ser uma pertinente forma de pensar e materializar hipóteses de resposta ao tema da Conferência: “The End(s) of Electronic Literature”. A par das comunicações, as apresentações de trabalhos artísticos demonstraram que os fins e as finalidades da literatura electrónica são vários, mas acima de tudo que o seu fim (enquanto término e objectivo) é irresolúvel. A literatura electrónica não demonstra sinais de consensualidade em relação à sua definição, o que não compromete a vitalidade da sua revisão e experimentação. O que as performances e as exposições mostraram foi que pensar o fim da literatura electrónica é uma das formas de alimentar o seu futuro.

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