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Seminário transversal «Contracultura, experimentalismo e desbunde na prosa brasileira dos anos 60 e 70» por Alcir Pécora

06/10/2014

No último 1 de outubro, pelas 15h, a Faculdade de Letras recebeu o pesquisador Alcir Pécora, professor de teoria literária na Universidade Estadual de Campinas, para lecionar um seminário transversal no âmbito do Programa de Doutoramento «Estudos Avançados em Materialidades da Literatura». Sessão presidida pelo diretor do Programa Manuel Portela e mediada pelo professor Osvaldo Manuel Silvestre – a quem coube apresentar o percurso, as motivações investigativas e as obras, dentre as quais citamos Máquina de Gêneros –, na Sala de Estudos Brasileiros (5º piso, FLUC) se reuniram pesquisadores doutorais e professores da universidade para ouvir o seminário «Contracultura, experimentalismo e desbunde na prosa brasileira dos anos 60 e 70».

De fato, o momento em que Alcir tomou a palavra marcou uma ruptura na atmosfera da sessão. Convidados pela usual noção de ‘desbunde’, estávamos descontraidamente leves à espera da pronunciação, quando Pécora diz-nos Não!, e põe-nos no choque da confrontação. ‘Desbunde’, situa-nos Pécora, é o nome técnico para aqueles que deixavam a guerrilha contra a ditadura civil-militar brasileira, que percebiam na luta armada um delírio utópico de resistência. Os desbundados, continua o professor, eram aqueles artistas que percebiam no engajamento artístico-revolucionário formas de resistência, paralela à luta armada de Carlos Lamarca e Carlos Marighella. Em meio à ditadura civil-militar brasileira, em meio às perseguições, à anulação dos direitos civis e às cruéis torturas de presos políticos, tais artistas, salientou Pécora, circularam subversivamente pela materialidade de diferentes medias: literatura, música, cinema, teatro. Estetas interartes, para eles, arremata o professor, o sentido mais profundo da arte era a ideia de intervenção, a oportunidade de exercitar uma presença, uma atuação que acima de tudo era uma forma ética de resistência aos poderes institucionalizados. Os seus contatos com os concretistas, com os movimentos ‘beat’ e ‘hippie’, com a eletricidade e rebeldia do punk, balizaram tanto suas incursões estéticas quanto as suas projecções de reconstrução da vida civil, com ênfase no amor livre, na liberdade sexual, no livre pensamento, na androginia, e nas experiências de expansão da consciência.

Por fim, Pécora termina a sessão com a discussão de dez artistas, eleitos por si, que representam a bandeira do ‘desbunde’, a saber: o cinema, os textos e os experimentalismos musicais de José Agripino de Paula; o cinema, a escritura sobre o caos e o ethos de Jorge Mautner; a força de intervenção pública dos ofensivos ensaios, do metacinema antiburguês e da pintura de Torquato Neto; o teatro crítico, urbano, operário e radical de Plínio Marcos, com destaque para Quando as Máquinas Param e Dois Perdidos numa Noite Suja; a poesia e o ethos de Hilda Hilst e Roberto Piva; o livro de Fernando Gabeira, O que é Isso, Companheiro?; a música experimental de Caetano Veloso nos anos 70; a dramaturgia de José Vicente e Antonio Bivar. Os desbundados, a portarem consigo um grito antiditatorial parado no ar, finaliza Pécora, assumiam na sua arte e na sua forma de viver corpo e sociedade espaços de subversão na contracultura dos anos 60 e 70.

Redação: Caio Di Palma

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