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Manuel Portela: «Numa moldura clara e simples sou aquilo que se vê»

07/12/2013

Texto e fotos de Manaíra Aires Athayde

Não, a frase acima não foi pronunciada pelo artista Manuel Portela, pelo menos não diretamente. É como se de suas obras emanasse esse último verso de uma canção dos Los Hermanos, que em nada teria a ver com o trabalho de Portela se não fosse realmente o último verso. Aliás, toda a exposição parece estar sempre a nos pedir uma banda sonora, onde entrariam não somente músicas mas os mais atinados experimentos com o som. Se repararmos, por exemplo, no quadro «recordação de Portugal» (1994/1995), o título nostálgico que nos remete a toda uma tradição portuguesa (com os seus tais «labirintos da saudade») acaba por ser convertido em ironia quando olhamos atentamente para a tela, em que são pintados, de forma pixelizada, quatro monitores a mostrarem, em cores distintas, uma mesma imagem que lembra Cavaco Silva (então há mais de dez anos no poder como primeiro-ministro e que, dez anos depois, seria candidato eleito à Presidência da República). Logo, a «recordação de Portugal» passa de lírica no título para consubstancialmente nociva – a imagem em píxeis acaba por se tornar uma metáfora com a «ampliação» da matéria.

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«recordação de Portugal» (200 x 200 cm).

Poderíamos encaixar como trilha sonora, nesse caso, desde aquele chiado que os aparelhos televisores fazem quando estão a falhar até «Portugal Radical», dos Ena Pá 2000, com o seu «Não sei o que falar / mas tou farto de vos aturar», ou ainda «Hoje eu acordei feliz», do Charlie Brown Jr., com «Hoje eu acordei para sorrir mostrar os dentes / Hoje eu acordei para matar o presidente». Mas quem na imagem pintada realmente está a sorrir (e a mostrar os dentes) é o espectro de “Cavaco”, com toda a sua imagem mediática. Essa ironia também não deixa de estar presente na série «Ó pus» (2001), onde se tenta criar uma estranheza com o próprio ato de se perceber o objeto. Quer dizer, cada uma das seis pinturas é substituída por um texto descritivo da própria pintura, que tem agora que ser imaginada pelo espectador mediante aquilo que lê. E o que lê acaba por ser «a paródia cerebral que se tornou a marca do estilo [desse artista]», como abjura com ironia o texto de «Ó pus 1», ou mesmo a «preocupação com a superfície anódina do quotidiano mais banal», como se afirma em «Ó pus 3». O tom chistoso equilibra a dose de sarcasmo e a série se torna uma análise crítica, fulgurada numa paródia formal, ao rebuscamento da arte, à crítica de arte e ao mercado de arte (no final do texto, apresenta-se o valor do quadro). A ver em «Ó pus 5»: «Esta obra […] revela o realismo pós-conceptual e quase fotográfico da sua terceira fase. […] O enquadramento é o factor essencial na instituição de uma percepção do espaço em deslocação que se epifaniza no objecto mais ocasional». O título «Ó pus» também contracena com o teor antipoético que circunscreve boa parte do trabalho de Manuel Portela. É que sendo opus uma palavra que em latim significa «obra» (geralmente referente à obra de arte), quando transformada em «Ó pus» lida com a ideia de pus, de secreção, então ligada à noção de antilirismo e ao revés do programa pré-concebido do que não pode estar numa obra de arte. Para mais, a palavra opus também é frequentemente utilizada para designar uma composição musical, normalmente de música clássica, e situá-la na data em que foi concebida ou divulgada. É o caso de obras de Bach, Beethoven, Mozart, Schubert e tantos outros que certamente poderiam ter composições a fazer parte de nossa banda sonora ao ver «Ó pus» ou mesmo que poderiam integrar a própria obra.

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Montagem com algumas das obras que integram a série «Ó pus» (70 x 95 cm, cada quadro).

Esses trabalhos que acabamos de mencionar, todavia, podem ser vistos na exposição «escreler: 1988-2013», a penúltima prevista no ciclo Nas Escritas Po.Ex, que decorre desde outubro do ano passado na Casa da Escrita, em Coimbra. Manuel Portela mostra, entre 13 de setembro a 11 de outubro, os trabalhos mais representativos desses 25 anos de carreira artística, que se misturam com mais de duas décadas de docência na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Grande parte desse percurso, onde as problemáticas estéticas partilham do mesmo cariz das investigações científicas de Portela, desdobra-se sobre a dimensão da presença da leitura na escrita enquanto cerne de seu trabalho experimental e acadêmico, com questões que podem inclusive ser vistas em seu mais recente livro, Scripting Reading Motions: The Codex and the Computer as Self-Reflexive Machines (MIT Press, 2013), publicado na mesma altura da exposição e apresentado pelo autor no dia 20 de setembro, em sessão na Casa da Escrita.

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Publicado em setembro deste ano, o livro trata de questões também presentes nas obras da exposição.

Questões sobre como a leitura escreve a escrita e como ela se torna presente de novo na escrita – num artista preocupado em como «eu releio reescrevendo os discursos dos outros, mas também na forma com eu leio reescrevendo muitas vezes as obras anteriores» – são nucleares nos trabalhos «bê-a-bá» (1996; capa da exposição), «como é que eu gostava que fosse e imaginava que podia ser» (1995) e na série «seis» (1992/2001). Nesta, são colocadas no chão da sala principal da mostra seis fileiras, cada uma com seis quadros, que apresentam frases ou palavras com diferentes cores, fontes e tamanhos e o subtítulo de cada secção é em si um conjunto de eco aliterante: «sentidos», «águas», «feridas», «logros», «sóis», «sons».

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Série «seis» (40 x 30 cm, cada quadro) sendo apresentada pelo artista na vernissage da exposição.

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Detalhe da obra.

Para quem já estava a percorrer atentamente a exposição, e depara-se com essas impressões em papel emolduradas em formato 40 x 30 cm e com marcantes bordas negras, acaba por perceber na obra de Portela a metáfora que é o jogo com a moldura, «jogo que é uma luta», como diz na performance «escreleituras», apresentada na abertura da exposição.

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Apresentação de «escreleituras» na abertura da exposição.

«Este é um dos problemas da arte, que é criar uma forma de representar o mundo que permita ver a própria representação e, portanto, permita ver a moldura, permita ver a forma através do qual o mundo se objetifica de uma determinada forma. Obviamente revelar uma moldura é construir outra moldura e, portanto, esse jogo é um jogo de certa forma infinito, porque qualquer perceção cria sempre qualquer coisa que está fora de si e, portanto, qualquer coisa que essa perceção não permite apreender», afirma o artista. Daí não conseguirmos encontrar um olhar que não coincida com o nosso próprio olhar, o que acaba por ser o motor de busca do trabalho de Portela e que justifica por que por vezes a contenção do campo de visão nos faz ficar mais conscientes do enquadramento – afinal, muitas vezes algo é enquadrado não pelo que se quer no enquadramento mas pelo que se quer deixar fora dele. Essa tensão entre contenção e liberdade é força motriz no trabalho de Manuel Portela, como não obstante vemos em «deferência aquiescência anuência» (1988), «massacre» (1992), «tudo tem um preço» (1995) e «alvo estratégico» (1995). Em obras como estas vamos observar que «não é por um acaso que muitos dos meus trabalhos são também sobre o alfabeto, e, portanto, pensar o alfabeto como parte desse processo de submissão à ordem da letra, mas ao mesmo tempo como qualquer coisa que tem potencial de libertação, de expressão e que pode ser apropriado, pode ser transformado, pode ser objeto de invenção», ressalva o artista.

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«alvo estratégico» (95 x 70 cm).

Os poemas-murais, ou pinturas-murais, com alargada influência dos grafites ou da chamada arte urbana (ou ainda das bandas desenhadas), também refletem essas nuances entre submissão e libertação, ampliando o cariz de intervenções sociais e políticas na obra de Portela. Realizadas pelo artista em 1995 em contexto escolar, e presentes na exposição «escreler» por meio de reproduções fotográficas, as obras propõem redimensionar o papel da escola ao pensar a instituição como instrumento de libertação e de aprendizagem, facultando a apropriação da língua falada e escrita como mecanismo de conhecimento do mundo, ao mesmo tempo que sinalizam uma consciência da escola, bem como a linguagem, como instrumentos de opressão.

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«Cras! Bang! Boum! Clang!», poema-mural projetado em 1988 (imagem; tinta guache sobre papel) e pintado na parede externa do edifício de uma escola em 1995 (400 x 600 cm).

A linguagem é tratada como uma forma de ação, quer dizer, «eu tomo já a linguagem como conjuntos organizados de instruções, de injunções que nos solicitam e que nos pedem para agir de determinada maneira». Daí o relevo que os discursos adquirem na obra de Manuel Portela, que está sempre a trabalhar com a composição, a repetição, a fragmentação de diferentes discursos dos mais diversos meios e produzidos com múltiplas intencionalidades, como os discursos da publicidade, da política, da guerra. As obras, assim, revelam a dimensão ativa e social da linguagem, incidindo em como as relações são constituídas através desses discursos e na forma como os discursos posicionam o sujeito em relação aos outros. Desse modo, a performance acaba por ocupar um lugar de destaque no trabalho de Portela, que se dedica exclusivamente ao gênero há dez anos e diz que se trata de uma continuação, por outros meios, do trabalho experimental que fazia antes (e que compõe em grande parte esta exposição). É uma espécie de inscrição que interpela o sujeito na tentativa de recontextualizar os discursos, tentando chamar a atenção para a natureza da intenção e das estruturas que estão contidas neles.

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«Google Earth: A Poem for Voice and Internet», a mais recente performance de Manuel Portela, realizada em setembro de 2012 em Coimbra.

«De certa forma, a performance acabou por ser, para mim, uma forma de ler em público, de ler um voz alta, de dar uma dimensão da presença subjetiva ou de qualquer coisa que está pré-constituída na linguagem ou na escrita e que precisa dessa inscrição viva, dessa presença viva do sujeito no momento da decifração», afirma o artista ao lembrar que muitas vezes a parte visual da obra é condicionada pela voz, que cria espaços e ritmos dentro do texto e que permite pensar o movimento que o leitor faz ao percorrê-lo.

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O vídeo acompanha a leitura feita por Portela, que está atrás de uma moldura. Vários dos textos visuais escritos no início de sua carreira foram depois animados e vocalizados.

Em seus trabalhos performáticos, à ironia e ao tom chistoso ou sarcástico junta-se o humor, que gera uma percepção modificada do objeto ao produzir o distanciamento e permite que se perceba a moldura enquanto invólucro dos discursos, que afinal funcionam dentro desses limites. Quando o humor transforma um discurso noutro discurso, seja por oposição, por ironia, por paradoxo, ele possibilita uma gestão das expectativas que desnaturaliza o enquadramento, desfamiliariza-o, podendo assim ser melhor observado e investigado. Podendo assim ser visto. E o que se vê, em suma, na obra de Manuel Portela está na desmistificação da materialidade, que enfim alcança, enquanto obra de arte, a sua «aura» terrena e dessacralizada. Está numa moldura resoluta, mas não menos complexa e inesgotável. Clara, simples: aquilo que se vê (e que se ouve) mesmo quando a banda sonora chega ao fim.

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