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Das terras da China

23/11/2013

Muito se tem falado nos últimos tempos sobre o ensino da Língua Portuguesa na China, em virtude da expansão do idioma nos últimos cinco anos, quando passou de seis para vinte o número de universidades chinesas, contando com Macau e Hong Kong, que ensinam a língua (no final da década de 1990 eram apenas duas). O Português já é a segunda nota mais alta de entrada em licenciaturas de algumas universidades chinesas e dentro de cinco anos, depois dos países de Língua Portuguesa, será a China o país com o maior número de falantes do idioma, o que se justifica sobretudo pelo estreitamento de parcerias comerciais com Brasil, Angola e Moçambique.

Mediada, assim, por esse contexto de difusão do Português, a doutoranda do curso de Materialidades da Literatura Manaíra Aires Athayde visitou, na primeira quinzena de novembro, departamentos de ensino de Língua Portuguesa na China com o intuito de dar continuidade ao projeto de investigação que iniciou no seminário de Materialidades da Cultura, do programa doutoral (reforçando a importância das unidades curriculares na formação transdisciplinar), e que resultou no artigo «Do you speak English? Ou… 你會說普通話?»: Como a difusão internacional do inglês e do mandarim pode revelar os distintos modelos de expansão dos Estados Unidos e da China».

A segunda parte do projeto deverá ter início no primeiro semestre de 2014 e centrar-se-á no estudo de aspectos mediáticos que permeiam o processo de difusão da Língua Portuguesa na China, bem como no crescente intercâmbio de alunos chineses destinados a universidades de países de Língua Portuguesa, sobretudo Portugal e Brasil. (Vale ressalvar que a Universidade de Coimbra é uma das principais instituições almejadas pelos alunos chineses em programas de licenciatura e a tendência, com a expansão do Português, é que cresça a procura por cursos de doutoramento, não só nas bisadas áreas de linguística e de tradução, mas agora no campo das literaturas de Língua Portuguesa também). A investigação deverá contar com o apoio de levantamentos e trabalhos desenvolvidos no Departamento de Estudos Portugueses da Universidade de Pequim de Estudos Estrangeiros, no Departamento de Português da Universidade de Xangai de Estudos Internacionais e no Departamento de Português da Universidade de Macau.

A propósito, na Universidade de Pequim de Estudos Estrangeiros (onde há 62 anos funciona a mais antiga licenciatura de Português na China), Manaíra Aires Athayde apresentou a conferência «Da poesia brasileira: o rosto do Brasil que o mundo passou a conhecer», e na Universidade de Macau participou da II Semana da Cultura Brasileira, em edição dedicada ao Nordeste do Brasil (de onde Manaíra é natural), contando com a divulgação de obras de importantes escritores brasileiros nascidos na região, como João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira.

China_Língua Portuguesa

No mapa, algumas cidades chinesas que já possuem licenciatura em Língua Portuguesa. No primeiro ícone vermelho, Pequim, a cidade onde se encontra o primeiro curso de Português da China, na BFSU, onde a doutoranda realizou uma conferência (imagem). No segundo ícone vermelho, Macau, que até 1999 era domínio português e que hoje possui o maior departamento de Língua Portuguesa da Ásia, responsável por promover o idioma com eventos como a Semana da Cultura Brasileira (na segunda imagem, a tradução para o mandarim do poema «Tecendo a Manhã», de João Cabral de Melo Neto, apresentada no evento).

Um dos principais objetivos comuns que se pode observar nessas iniciativas de aproximação de culturas, quer seja por meio de atividades culturais quer seja através ensaios acadêmicos, é tentar estabelecer ligações que não estejam cingidas pelo atrito entre imagem projetada e imagem real que parece latente quando se trata da China. A imagem que o país possui no estrangeiro por vezes não corresponde à importância global que ele tem hoje e todo o poder efetivo que tem vindo a estabelecer em muitos trâmites no cenário internacional. E, não obstante, as Materialidades da Literatura, sobretudo com o seu viés das Materialidades da Cultura, podem trazer novos mecanismos de reflexão que ajudem a (re)pensar os estudos sobre as conexões sócio-culturais e econômicas entre a China e os países de Língua Portuguesa.

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