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A caligrafia de Fernando Aguiar

10/10/2013

Texto e fotos por Manaíra Athayde

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«Frágil»(180 x 120 cm). «Portugal neste momento fragiliza por ser frágil», afirma Fernando Aguiar, que diz querer retratar da mesma maneira outros países «cujas dificuldades económicas os tornam bem negros, como o fundo da tela exposta».

É que a matéria é aqui também valorizada como unidade fundadora de sentido, enquanto são construídas ligações entre as imagens verbais e a técnica do olhar, usufruindo-se do poder iconográfico como forma de diagnosticar superfícies materiais e delas extrair sentidos imateriais latentes. É o caso, por exemplo, da série «Calligraphy» (2006), em que o estudo do movimento torna-se enigmático numa obra composta por duas fotografias onde podemos questionar o segundo plano em função da disposição das mãos no primeiro plano: o fundo tanto pode ser o céu quanto uma superfície qualquer em azul celeste.

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«Calligraphy #2» e «Calligraphy #1» (73 x 100 cm).

No entanto, apesar de geralmente haver em vários de seus trabalhos essas superfícies emblemáticas, vale ressalvar que em Fernando Aguiar tudo o que não foi não é. Por isso, em Ex.Po / Po.Ex 1982-2012 os trabalhos são assumidos em sua individuação, no espaço necessário de respiração para cada época e contexto, mas a forma resoluta com que as obras são encadeadas acaba por criar uma maneira curiosa de as próprias obras revisitarem-se umas às outras, estando dispostas a uma relação aberta com o espetador e onde o diálogo é defronte, é certeiro e assertivo. A consonância coletiva revela a estética criativa, o rigor formal e a exigência técnica que encontramos na poética de Aguiar, em todas as formas expressivas e abrangência de linguagens a que o artista se dedica, desde a performance à pintura, passando pela colagem, pela instalação e pelo livro-objeto. Percurso consistente na plasticidade que recupera luzes das cores que gradativamente a vida vai nos relevando ao passo que nos vai revelando.

Pois, em Fernando Aguiar a plasticidade é mesmo essa forma peculiar de lidar com a passagem do tempo, como bem podemos observar na obra «Soneto ecológico» (1986/1987), em que setenta árvores de várias espécies foram plantadas no Parque do Soneto, em Matosinhos, seguindo uma ordem de composição do artista. Para mais, é interessante observar como essa obra «ecológica» assoma-se à plasticidade de Aguiar, em muito relacionada ao plástico e a outros elementos de difícil decomposição na natureza.

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Maquete do «Soneto ecológico» (164 x 56 x 20 cm), concebida em 1986/1987.

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Imagem da obra em 2008, no Parque do Soneto, em Matosinhos. (Fotografia de Fernando Aguiar)

Aliás, a utilização de materiais de fácil descartabilidade mas de forte resistência não é apenas uma escolha estética; está relacionada à conceção de permanência na e da efemeridade intrínseca às suas composições, sobretudo resultante do exaustivo trabalho de investigação sobre a performance, a que se dedica há trinta anos, explorando de que maneira ela pode ser transformada a partir da materialização. É o caso, por exemplo, de pinturas feitas a partir de fotografias de performances poéticas, que depois de impressas (algumas com impressões sobrepostas, resultantes de sobras da tipografia) e trabalhadas no Photoshop acabam por dar origem a novas peças, numa recriação de um instante do ato performativo. Uma obra sua, portanto, muitas vezes é transformada ou materializada em outras formas e de outras formas, resultando por fim em novos trabalhos, numa recriação ou mesmo revisitação à obra inicial.

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«Serpens», performance de Fernando Aguiar em 1996. Registo fotográfico apresentado na Casa da Escrita (40 x 60 cm).

A obra de arte é, senão, matéria da vida, em toda a sua condição de maleabilidade e transformação, cuja propriedade maior é a de adaptar-se sob distintas formas. E nesta «plástica» plasticidade encontramos a própria noção de obra em Fernando Aguiar, afinal, plástico é tanto o que pode moldar como também o que pode ser moldado, tanto é o que pode adquirir como receber diferentes formas pela moldação ou pela modelação. Em seu trabalho, a materialidade é assumida sem ser suplantada pela abstração, ou seja, a apreensão estética não é relegada a segundo plano e cria cadência com o arcabouço ideológico.

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«Ensaio para uma nova expressão da escrita nº 278» (65 x 50 cm).

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«Ensaio para uma nova expressão da escrita nº 237» (65 x 50 cm).

É o que presenciamos, não obstante, em trabalhos como a série «Ensaio para uma nova expressão da escrita» (1982/1983), «Construção do romance musical» (2006) ou «Contra-texto ou anti-romance com 14 personagens» (2004/2013). Nesta última obra, aliás, e que já vai em sua terceira versão, vemos o «antropomorfismo aberto» (na expressão do próprio artista) de que falávamos, que permite uma multiplicidade de interpretações a partir, inclusive, de corpos que lembram gaiolas e cuja presença condiciona em vez de configurar a abertura desejada. Afinal, a ausência acondiciona, de um modo ou de outro, a presença, e não a falta.

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Um dos 14 «personagens» da instalação «Contra-texto, ou anti-romance com 14 personagens em ferro e letter-press #3».

O mais surpreendente em Fernando Aguiar é que a vivência material muitas vezes serve como preâmbulo para uma longa investigação sobre como a materialidade se comporta quando sua origem é imaterial e advém de uma técnica efémera, como ocorre na série «Scanner-Poems», poemas criados diretamente no scanner e gravados, de seguida, no computador. Interessa ao artista elucubrar (e aqui lembremos dos videopoemas de 2003-2006 apresentados na exposição, dentre eles o que Fernando Aguiar apresenta um «alho» no lugar do «olho») a interação entre os materiais «materiais», tais como os recorrentes plástico, madeira e pedra, e os materiais «imateriais», como o vídeo ou a fotografia digital, «provavelmente os novos perenes e futuros tradicionais», como afirma em entrevista.

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Fernando Aguiar numa performance para videopoema da Seleção 2003-2006 apresentada na Casa da Escrita.

É nesta mesma entrevista que Fernando Aguiar revela que «muitos poetas e artistas contemporâneos ignoram o meu trabalho por levar o rótulo de “poesia visual” (se o designasse por “Language Art provavelmente teria uma maior aceitação e seria mais considerado)» e que «poderia participar em mais festivais de poesia ou em mais antologias se não fosse poeta “visual”, assim como teria participado em muitas mais exposições coletivas se o meu trabalho não fosse precedido da rotulação de “poeta”». Se por esta perspetiva a conjugação entre poesia e artes plásticas parece ter causado, pelo menos em Portugal, privações ao artista, que ressalva ser «mais conhecido e reconhecido no estrangeiro», por outro é este mesmo enviesamento entre poesia e artes plásticas que acaba por compor o que podemos chamar de caligrafia de Fernando Aguiar, com todas as suas peculiares marcas criadas num percurso de progresso estético-criativo que não se esgotou, que está sendo constantemente reinventado tendo em atenção (e aqui há alguma intervenção de sua formação em design) as competências técnicas, a capacidade de transmitir informações e a maneira perspicaz de lidar com as limitações materiais, o que acaba por fazer deste artista um dos nomes da poesia experimental que melhor soube atualizar a sua obra em toda a sua pluralidade e amálgama.

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«Construção do romance musical» (46 x 36 x 12 cm).

Fernando Aguiar é mesmo um artista da proliferação das artes poéticas, cuja poesia dá-se em constante atração pelas outras artes, competindo poeticamente com elas. É o artista da poética letter-press ou da fita tesa-film, ou ainda das telas plásticas. No estado translúcido é que os estratos reiteram o movimento fixado: superfície de impressão, impressão tipográfica, tipografia offset, planográfico. Tudo isto, de facto, na caligrafia que transcende a letra.

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