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O novo povo novo de Silvestre Pestana

22/03/2013

Texto e imagens_Manaíra Athayde

OVO————TERRA

MAR               SER

FENDA          SUOR

AR                   ILHA

EGO                 POVO

MEDO             TER

FOGO              HOMEM

ASA                 ERVA

As palavras distribuídas numa espécie de circuito com botões coloridos, eletrificados e intermitentes no chão dialogam com quatro grandes fotografias de 1979, dentre elas a famosa «Povo Novo», uma das obras mais representativas do pós 25 de Abril. Não há oscilações cinéticas nas luzes, mas a imersão na obra exige que o fruidor a complete com movimento, imaginando-o não só pelo perímetro iluminado mas em razão do vidro estilhaçado que três das imagens focam.

É esse «Tecno-labirinto» (1979) que nos apresenta o espaço onde o presente reabilita o passado desse novo povo novo de que Silvestre Pestana, nome de vigor da poesia experimental portuguesa, fala em «Povo Novo Virtual». A exposição, de 28 de fevereiro a 01 de março na Casa da Escrita, em Coimbra, é promovida pelo Ciclo Nas Escritas PO.EX e comemora os 45 anos de carreira do artista madeirense, que migrou para o Porto em fins da década de 60 e que nos últimos cinco anos do regime salazarista esteve exilado na Suécia.

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Visão parcial de «Tecno-labirinto» (1979), instalação composta por quatro fotografias de 100 x 100 cm e por 16 peças eletrificadas. A fotografia que não aparece na imagem é a reprodução da última fotografia da parede esquerda e está posicionada simetricamente a ela na mesma parede.

O bypass apresentado por Silvestre Pestana reflete a síntese de seu trabalho desenvolvido sobre o invólucro de um mundo digital: tanto quanto de orgânico possamos encontrar em código maquinal quanto de analógico há no próprio dígito. É isto: o orgânico revestido pelo programado e o labirinto simplificado em circuito. Pois, o artista herda das ciências o rigor do método e nos conduz, sobre um eixo que acompanha toda a sua produção artística, a questionamentos inscritos por múltiplos recursos em distintos meios, numa perspicaz exploração das propriedades materiais. São diferentes trajetos que acabam por desaguar no mesmo rio, atingido por vários fluxos com sentidos díspares, mas direções convergentes intersecionadas pelas conjeturas do artista.

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«Avatar» (2012), em que Silvestre Pestana e Vitus Flores utilizam o Second Life para criar no mundo virtual a 6ª Bienal Internacional de Gravura do Douro.

Eis nesses questionamentos o que o artista chama de «problema das constantes entre-coisas». No trabalho de Silvestre Pestana, podemos observar que há uma (dis)tensão entre a potência – as possibilidades do ser, aquilo que ainda não é mas pode vir a ser – e o ato, a ação – a manifestação atual do ser, aquilo que já existe –, numa discussão ontológica que é maquinada sob uma perspetiva sociologizada. (Até a transição que o artista faz para o mundo virtual vem intensificar a problemática da potência em sua obra, afinal, a palavra «virtual» está originalmente ligada à ideia de «vir a ser»). Daí ser tão caro ao artista elementos como o útero, a estufa, o aquário e, claro, o ovo.

O ovo, aliás, mais do que morfema, aparece como ideia incisiva da obra de Silvestre Pestana no núcleo da problemática da potência aristotélica: a fecundação do ser múltiplo é condicionada pelo dispositivo, que permite ou não a sobrevivência. Por isso a associação do ovo ao «povo novo», quer aquele que depois do 25 de Abril, quer aquele que hoje imerso num mundo cada vez mais high tech. «O povo com a potencialidade de novos caminhos inscritos na arte da liberdade, de ser na própria existência», fulgura o artista.

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«Pautas» (1975), obra formada por 16 colagens que tematizam o ovo. Na imagem, as três figuras abaixo da peça estão em close-up.

Silvestre Pestana se move das artes abstratas às poéticas da performatividade, da tradição radicalizada no concretismo brasileiro ao grafismo pós-revolucionário russo dos anos 20… «Tudo para fazer versões de como um povo se expressa nas suas singularidades», explica o artista da «poética sociológica», inscrita ao longo de toda a sua trajetória, do poema-processo ao poema-avatar.

Através do «poema catatónico» – que «diz que um ato é gerador de uma poética, e isto o concretismo não havia feito», ressalva –, Silvestre Pestana conseguiu encontrar na performance um percurso cada vez mais singular. Dono de uma selvagem delicadeza ou, se quisermos, de uma rebeldia “artistizada”, de pujante posição ideológica e ativismo social – «Aprendi aos 16 anos uma premissa de Paulo Freire que me acompanha até hoje: “o bom artista primeiro faz anúncio e depois faz denúncia”» –, nas molduras socioculturais conseguiu encontrar novas fronteiras: falar sem limítrofes sobre o homem e a natureza, o homem e a guerra, o homem e o planeta.

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Trabalhos, sem títulos, de 1985. Silvestre Pestana segura uma moldura de madeira, tematizada de maneira diferente a cada performance.

Aliás, em Silvestre Pestana vamos encontrar uma poética de molduras e ecrãs, de leds e néons. Polígonos de silhuetas luminosas, como em «Meteoro Néon para Vénus» (2001), ou rizomas fluorescentes em seus «Fractais» (2002). Fulgência do espaço numa sociedade meteórica, numa sociedade rizomática. Obras, não obstante, compostas por sistemas a-centrados, em que o privilégio é dos meios, dos intervalos, numa rede de autómatos finitos. Não há um decalque, uma cópia de uma ordem central, mas conexões estabelecidas entre todos os caminhos possíveis para a mesma problemática. «Criar os meios para poder percorrer os fins», diz o artista.

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«Meteoro Néon para Vénus» (2001), instalação em néon com dimensões de 260 x 180 x 120 cm.

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Fractais» (2002), instalação em néon com dimensões de 190 x 80 x 80 cm.

Pois de raízes intercambiáveis, quando não incandescentes, Silvestre Pestana é esse artista-mundo que, com toda a paixão e compromisso que tem para com tudo o que fez e continua a fazer, instiga a refletirmos sobre as gerações e os seus meios de inscrição. O universo de Pestana é uma boa oportunidade para entendermos os «grãos de simplicidade», como ele costuma dizer, da coexistência (existência-potência, existência-ato) entre o passado e o presente nessa crise dos tempos, ou tempos de crise.

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