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No itinerário de António Barros

18/12/2012

Texto de Manaíra Athayde

A casa é um convite às intermitências: o espaço que existe entre o branco e o preto, o intervalo entre o que se diz e o que se entende, o interstício entre o rebuscado léxico e as límpidas obras. Na fenda às fechaduras é que as instalações de António Barros acontecem. O artista, conspícuo no experimentalismo português, diz que o público encontrará na exposição Progestos_Obgestos «dois conceitos galvânicos enunciatórios de uma emancipação que se desenha e que se gere numa arte que procura ser contributiva para uma identidade do lugar social, para uma portugalidade que se questiona. Aquela a quem se obriga reinventar os seus desígnios», explica.

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«Escravos», no primeiro andar da Casa da Escrita. A obra, premiada no Concurso Nacional de Poesia 10 Anos do 25 de Abril (1984), faz parte da Coleção do Museu de Serralves. (Foto: Manaíra Athayde).

A exposição – que pode ser vista na Casa da Escrita, em Coimbra, de 30 de novembro a 21 de dezembro – integra o projeto Nas Escritas PO.EX, iniciado em outubro deste ano com uma retrospetiva de Ernesto Melo e Castro.  Melo e Castro, aliás, certa vez escreveu que é preciso «um certo distanciamento, discreto mas decisivo» para conseguir alcançar o cerne do trabalho de António Barros, uma obraque suscita a renúncia da comunicação instável em nome do rigor científico. «Trabalho numa convulsão entre o rigor tangível e o intangível. É nessa circulação planetária que um progesto também se move e procura condição», afirma Barros.

A exposição

Em Progestos_Obgestos, o artista dialoga com a própria Casa da Escrita, integrando as divisões da casa e até os móveis no espaço  performativo das instalações. Com objetos brancos e negros, constrói-se uma propulsão dual, numa espécie de jogo mnemônico, onde uma casa imaginária é criada a partir de lugares familiares e os seus suscitados estranhamentos. Os resquícios de memória sobrevivem da coisificação das relações espaciais.

Em «Sandales – Mal de Mer», duas grandes folhas em ébano “sugam” a tinta escura de duas garrafas plásticas também pintadas de preto. Cada folha se encontra numa garrafa, na mesma direção, indiciando signos complementares, mas em sentidos contrários, acenando signos opostos. Sin-signos que moldam pelo título da obra o grau de indexalidade. Mas mais do que a associação entre «enjoo» (em Francês, «mal de mer») e o «par de sandálias» («sandales»), temos plantas literalmente arquitetônicas, absorvedoras do meio, exalando plasticidade. Plasticidade esta intrínseca também à noção de obra: plástica, porque tanto pode moldar como também pode ser moldada pelo espaço.

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«Sandales – Mal de Mer». (Foto: Manaíra Athayde).

Para António Barros, o que existe de mais peculiar no experimentalismo da arte contemporânea é esta «capacidade de ser poesia, condição para dizer o ser e a sua circunstância numa transversalidade multímodo e plural sem precedentes, que justifica o gesto», comenta.

Uma conduta pró-gesto, uma conduta pro (para o) gesto que domestica cômodos com o rigor de um artista que se encena narrador-observador na teatralização de imagens, como na performance do homem invisível. Nela, um casaco negro é acomodado na cadeira como se estivesse numa pessoa sentada diante de uma máquina de escrever. «A performance vitaliza e elabora o Vulto Limite, é um dos muitos meios para a enunciação fundamental da obra de arte», diz António Barros.

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Detalhe da obra «Vulto Limite». À esquerda, parte do trabalho «Black=Black». (Foto: Casa da Escrita).

Da experimentação à experienciação

A poesia experimental é para António Barros uma grande égide do pensamento crítico-reflexivo. Esta disposição levou o artista a integrar o grupo Movimento Fluxus, que desde os anos 1960 abriga as interartes e defende a negação do objeto artístico tradicional como mercadoria, divulgando a «antiarte». António Barros e seus companheiros, tais como Wolf Vostell, Robert Filliou e Serge III Oldenbourg, levaram a objetificação ao extremo para, por revés, expropriá-la do valor agregado (de consumo) e fazer sobressair o arcabouço conceitual, ideológico.

«Centro-me numa arte de experienciação. Toda uma resolução galvânica onde a arte se transmuta em “artirtudes”. O artista passa a ser “artor”, e o ator não é mais ator para ser o atuante… Uma cultura fluxista se resolve aqui numa escultura social», sublinha António Barros, que costuma dizer que é mais “artor” do que artista. A performance é, assim, a responsável por passar o objeto do reino da necessidade para o reino da liberdade.

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«Asa Morta» é um canto elegíaco à liberdade e suas “asas pulverizadas”. (Foto: Casa da Escrita).

A emergência da performance, não obstante, acentua a ideia de que existe na arte contemporânea o preterimento da obra pelo artista. Para António Barros, «na verdade, não é o artista que resulta mais importante do que a obra, mas a sua “marca”, a nominal e a figurativa, a sua assinatura. A performatividade artística é também contributiva, elabora uma imagem distintiva que poderemos julgar fundamental», afirma.

Alargando a discussão, é ao menos emblemático observar que a maior parte dos artistas que expõe em museus de arte contemporânea possui décadas de carreira. Assim, muitas obras de arte contemporânea – esta tão promulgada a um discurso de democratização e presentificação – precisam envelhecer para ocupar esses espaços. António Barros defende a ideia de que «a gramaticalidade vigente na programação museológica está, na dominante das circunstâncias, refém de uma codificação a querer cumprir uma razão económica, e esta nem sempre é cúmplice com o trabalho cultural. A Arte existe de modo emancipado do museu. Tem os seus próprios referentes. Não está, verdadeiramente, refém do envelhecimento como creditação fundamental», explica.

Adorno

Caminhar pela grande “casa a preto e branco” de António Barros é como atravessar alguns fulcros da filosofia de Theodor Adorno: a busca do negativo do real para entender a realidade, numa dialética iluminista que procura a emancipação da dissonância. Barros, com sua epifania clean, deixa claro ser um “artista da razão”. O fim do pensamento crítico nos dias que correm é, para o artista, o devir de uma idade das trevas.

«A poesia experimental, hoje, e no que concerne ao contributo que ouso fazer gerar, renova-se numa transfiguração do conceito que se diz e que já se fez dizer nos meios do seu tempo. É uma poesia pretensamente organicizante, que busca a raiz da sua condição enquanto motor e afirmação do ser, que diz na sua natureza fundamental. Tudo como quem zela por desenhar numa narrativa propulsora, esta do ser que se questiona perante o chegar de uma nova Idade Média a querer insinuar-se», alega António Barros.

«Razão / Muro da Razão» é uma das instalações que fulguram este declínio da razão e a crise da representação. Na obra, sacos brancos, em forma de travesseiros e com a parte superior a enunciar a palavra «RAZÃO», são empilhados em fileiras num louceiro embutido na parede. As fileiras diminuem da esquerda para a direita, como se num gráfico de colunas em que a «RAZÃO» é a unidade que míngua.

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Na base, «Razão / Muro da Razão». Na prateleira acima, «15 Condições para o Vulto Limite». (Foto: Manaíra Athayde).

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Detalhe da obra «Razão / Muro da Razão».(Foto: Manaíra Athayde).

Desordenar em ordem

Num mundo pós, António Barros é um artista pró, que vê nos seus gestos taxonômicos um exercício em busca da luz/cidez. Em sua obra, a organização da entropia culmina em concepções herméticas, mas aplicadas a trabalhos dotados de simetria e limpeza na profusão de luz – para a resistência das luzes numa época, segundo o artista, quase Idade Média por suas propulsões acríticas.

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«Retrato de Ana Hatherly e seus amigos poetas experimentais ao fundo, ou de Portugal país que nunca ex(ins)istiu». (Foto: Manaíra Athayde).

Aliás, numa altura em que a arte experimental, com toda a sua capacidade de reprodução e apropriação, sofre um grande desvio de seu cerne quando é utilizada por muitos artistas para sombrear a incapacidade técnica e a indisponibilidade material, António Barros surge com uma boa disposição ideológica, embora ela não garanta a singularidade do negativo.

Ainda que o artista tenha a acuidade necessária para que o efeito estético não se torne adorno da ideologia e para que não seja o conteúdo a ditar a estrutura, saímos da exposição com vontade de mais. Quiçá de um António Barros que, em sua perspicaz capacidade de organização, não procure estruturas para a estabilização do caos, mas o provoque em outros planos. Desdobrar o caótico no sentido de uma força centrípeta de organização na multiplicidade. Aqui se estende o desafio. Afinal, viver (n)um mundo a cores pode ser mais difícil do que parece.

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