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No laboratório das palavras com Ernesto Melo e Castro

14/10/2012

Texto e fotos de Manaíra Athayde

Cirurgião da palavra, ou melhor, cirurgião plástico da palavra, Melo e Castro é o exemplo vivo do artista-investigador, aquele que faz do ateliê um laboratório e que busca não apenas o que está além da obra, mas o que está diante dela. A precisão ou a nitidez de campo é abjurada em nome da diluição de fronteiras, onde não se teme incorporar o que está fora de foco, fora de controle. O enquadramento passa a interessar não mais pelo que está dentro da tela – do painel, do ecrã –, e sim pelo que é extrínseco a ela. A escolha é movida, por vezes, pelo que não se quer encaixilhado.

E filho pródigo destas entalpias, engenheiro têxtil que é, formado em Inglaterra em 1956, Melo e Castro incorpora o espírito do século XX: o artista como um verdadeiro pesquisador-inventor que vai dosando sua química até obter o elixir criativo. Para isso é necessário olhar com acuidade para a matéria, limando-a, descamando-a, amalgamando-a. O suporte passa a ser o elemento-chave da sintaxe, determinante na semiose e no crescimento dialético contínuo, em que a obra pende para o caráter aberto e dinâmico.

Infopoema de E.M. de Melo e Castro.

A noção de obra pura, de pureza do signo genuíno é abandonada. Em seu lugar são reverberadas as concepções de montagem e colagem, em que elementos de naturezas distintas (objetos reais, objetos virtuais, linguagem verbal, linguagem iconográfica) se encontram numa mesma composição e modificam por completo a noção de objeto de arte, agora híbrido, ao tempo em que as linguagens verbal e visual estabelecem relações cada vez mais contíguas e acentuam o poder da metalinguagem. Aguça-se a apropriação e a reprodução de elementos, e a arte não tem por intuito ou dever questioná-las.

Resultado? Os efeitos sensoriais e sinestésicos e os estranhamentos, que surgem como céleres respostas aos novos procedimentos composicionais e que passam a alterar a idiossincrasia coletiva. A Arte Contemporânea, não obstante, é talvez uma entrópica resposta à complexidade crescente do mundo, visando à desconstrução dos aspectos semânticos que representam a realidade com a qual a sociedade tradicionalmente – e idealmente – identifica-se. Tanto é que o nosso artista, como muitos outros, várias vezes se viu confrontado com o “ah, isto o meu filho ou o meu cão era capaz de fazer”, como nos revela em entrevista. A quebra da representação tradicional é também o rompimento com a linearidade, numa modificação fulcral do pensamento, que passa a ser multilinear e rizomático.

Assim, o trabalho de artistas como Ernesto Melo e Castro acaba por ser a representação visual para conceitos abstratos, a partir da radicalização da experiência com a matéria. Não é à-toa que a linguagem oriental do ideograma, por exemplo, torna-se uma grande fonte de pesquisa – inclusive, Melo e Castro publica o livro «Ideograma» em 1961, quando então traz para Portugal a Poesia Concreta, irrupcionada no Brasil anos antes, e se torna precursor do experimentalismo na poesia lusitana.

Hoje, o escritor português, radicado no Brasil, onde é doutorado em Letras pela USP (1998) e pós-doutor na mesma área pela UFMG (2011), deixa-nos um abastado acervo de objetos e de memórias, importante para a compreensão da arte experimental em Portugal, “ausente do stream da Arte Contemporânea Portuguesa”, como aponta Jorge Pais de Sousa, curador da exposição, que integra o ciclo «Nas Escritas PO.EX».

Sala dedicada às infopoesias, no 3º piso da exposição.

Na abertura da mostra, a 03 de outubro, Jorge Pais de Sousa ainda menciona o pioneiro videopoema «Roda Lume», feito por Melo e Castro em 1968 e exibido pela RTP no ano seguinte, para sublinhar os litígios com a Poesia Experimental. “Nós, portugueses, não conseguimos mostrar lá fora nem estudar as consequências que este primeiro videopoema teve no mundo da Arte Contemporânea”, afirma o curador, referindo a colaboração do ciclo «Nas Escritas PO.EX» com o «Arquivo Digital da Literatura Experimental Portuguesa», projeto de investigação subsidiado pela FCT.

A Poesia Experimental, que parece algures lutar contra a sua forte marcação histórica, tenta não ser engolida pelo «TecnoCronos», com a banalização das práticas experimentais-tecnológicas. “Hoje já não é mais uma técnica transcendente, eu tenho consciência disso”, diz Melo e Castro diante de um dos seus videopoemas. Mais do que uma autogeração, no passado, trata-se agora de uma autorregeneração desta poesia empírica, fruto de um deus que se sabe, mais cedo ou mais tarde, devorar seus filhos.

Aliás, ao percorrer as salas onde decorre «Do Leve à Luz» – que conta, dentre outros, com 14 obras inéditas de infopoesias, realizadas depois da grande retrospetiva dedicada a Melo e Castro no Museu de Serralves, em 2006 –, é possível perceber que o ambiente expositivo é cada vez mais veemente firmado como um não-lugar, um sítio de sensação e passagem. Os trabalhos de toda uma vida podem ser impressos em papel comum, expostos em cartolinas, dessacralizados da moldura, do pedestal porque o nosso tempo permite. Resta saber se é uma conquista de gerações à Melo e Castro ou ressonância inescapável dos dias que correm.

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