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Notas sobre «Voodoo Child», por Jimi Hendrix, em Berkeley (1970)

30/10/2011

Algumas notas apenas sobre o vídeo, repescadas da aula, com algum desenvolvimento. Em primeiro lugar, a demonstração exuberante da máxima de McLuhan «o meio é a mensagem». Ou seja, o facto de, ao contrário das aparências, Hendrix não ser memorável pelo virtuosismo (já que este, insisto, é histórico, e por isso condenado à ultrapassagem mais ou menos célere), mas pelo facto de ter entendido que o essencial na guitarra eléctrica é a electricidade – fenómeno bem reconhecível se acompanharmos a evolução do jovem Hendrix, em bandas de R & B, até à Jimi Hendrix Experience e depois: no início ele está a passar da guitarra acústica à electrificada, depois é já outra coisa. Hendrix, como defendi, tocava electricidade, e não exactamente guitarra (lembro que o exemplo memorável de McLuhan para a sua máxima, em Understanding Media, é justamente a electricidade: um meio sem conteúdo). Neste vídeo, do último tema do concerto em Berkeley em 1970 – um concerto num contexto político marcado e adverso, com a universidade em greve e ocupada pela National Guard, se não erro -, isso é particularmente visível. Temos a sensação de que Hendrix desencadeia um magma eléctrico, uma torrente sonora, no instrumento, e que vai tentando canalizá-lo, ou orientá-lo, ao longo da peça. O magma é visível ainda naquilo que só a electricidade permite no instrumento: distorção, reverberação, etc,. por efeito de pedais ou do manípulo que permite alongar o som de uma nota ou «descarga» na guitarra eléctrica (Hendrix usa essa particularidade do instrumento de modo a, por vezes, tocar só com a mão que prime as cordas e produz acordes, não usando a que deveria dedilhar ou «serrar», como se diz no rock: também aqui, uma certa ideia de autonomia da massa eléctrica governa a execução musical).

O vídeo permite-nos pois perceber um outro ponto importante: que o rock é uma música performativa e indissociável da execução. Mas não no sentido em que se diz isso do jazz, por exemplo. Lembro uma prática tradicional na musicologia do jazz: a transcrição de solos historicamente importantes (por exemplo, o de «Blue Train», do álbum homónimo (1957), de John Coltrane, em torno do qual há uma lenda musicológica). A diferença reside em que no jazz, descontando fenómenos de timbre e velocidade, dificilmente repetíveis, a estrutura musical e sonora do solo não sofre alteração substancial, se ele for repetido no mesmo instrumento (um saxofone, por exemplo). Na guitarra eléctrica de Hendrix, não é assim. Percebemos que uma transcrição musical do solo, seguramente possível, deixa contudo quase tudo de fora: volume, débito, distorção, dissonâncias produzidas por reverberação, etc. (no etc. incluem-se aqueles momentos em que ele «joga» a guitarra contra o suporte metálico do microfone, ou aqueles em que usa o corpo para certas práticas cujo exibicionismo só pode ser redimido, creio, se as colocarmos ao serviço de um esforço para criar um contínuo material e sonoro entre instrumento, corpo e dispositivos «cénicos», em acepção lata). Ou seja, o meio impõe-se nitidamente sobre a «mensagem», no sentido de que uma transcrição musical do solo de Hendrix em «Voodoo Child» é substancialmente inútil, pois nada nos diz sobre aquilo que ele está a fazer na performance. Já agora, um parêntesis: um académico italiano da Universidade de São Paulo fez-me ver há uns anos que Hendrix canta muito bem. Faço notar que o trio é o formato mais difícil do rock (é o seu formato «de câmara», digamos). Há muito poucos grandes trios na história do rock. Uma das razões é a dificuldade de conciliar guitarra (lead-guitar) e voz, o que Hendrix faz admiravelmente. Mas de uma maneira muito peculiar: se ouvirem com atenção, o que ele faz é sobrepor a voz à linha melódica, quase nota por nota, que produz na guitarra. É como se a decalcasse na voz. De certo modo, isso produz uma subordinação e esvaziamento da voz em relação à guitarra ou, se se preferir, um entendimento literalmente substancial da palavra cantada, que se torna uma matéria sonora rebatida sobre uma outra que, de certo modo, lhe é prévia.

Um ponto final: o efeito de presença induzido por Hendrix nesta peça. Isso é muito nítido na dimensão propriamente corporal e sexual. Mas queria ater-me à electricidade. Sempre me pareceu que o efeito de presença do rock passa pela torrente eléctrica e pelo volume (volume sem torrente eléctrica é Wagner, por exemplo). Em Hendrix isso é também nítido e creio que se «sente», ao assistir a esta peça, que a massa eléctrica desaba sobre o ouvinte, que fica sem grande margem de manobra. É esta, provavelmente, uma das aporias da estética do rock: uma estética da imersão que, contudo, limita poderosamente o espectro de participação do espectador. Digamos que intensifica essa participação num registo expressivo: uma forma de catarse colectiva. O rock produz algo como um «body electric» colectivo, que seria a versão contemporânea do «body politic». É difícil não ver aqui o apelo fortíssimo da presença e, ao mesmo tempo, de esvaziamento do sujeito que a presença, nesta versão, parece induzir. Mas não só nesta, pois o que Gumbrecht diz sobre a «presença real» do deus do catolicismo na missa vai no mesmo sentido. E aí ocorre uma dificuldade inamovível: como produzir um discurso sobre isto? No caso do rock, universo no qual o preconceito anti-intelectual é muito forte, creio que a rejeição de qualquer discurso minimamente interpretativo tem a ver com essa suspeita de que a interpretação dissolve o privilégio da presença. Os melhores escritores sobre rock que conheço (Greil Marcus acima de todos) não produzem tanto interpretação como «redescrição». Como se se esforçassem por produzir um discurso que nos fizesse recuperar a intensidade da experiência. Uma forma de suplemento, na acepção de Derrida. E sempre que um discurso sobre rock vai além disso, parece que se torna ilegítimo. Falo por experiência própria, pois já escrevi sobre rock e senti isso de imediato.

[Notas a uma aula de Materialidades da Literatura I sobre media, corpo e presença]

One Comment leave one →
  1. 31/10/2011 23:10

    Adorei saber que Jimi Hendrix pode ser assunto de aulas na faculdade, depois me policiei, claro se fala de Tropicália, e Warhol, por que não Jimi Hendrix. E concordo quando falas que ao escrever sobre rock queremos passar a “intensidade da experiência”, o sentir daquele momento de sensibilidade aflorada.

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