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Como ler um milhão de páginas Manga?

18/06/2010


© Leandro Rolim. A CabraJornal Universitário de Coimbra.

Lev Manovich inaugurou as actividades do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura com a conferência «How to read 1,000,000 Manga pages? Visualizing patterns in literature, print culture, visual art, cinema, animation, and games». Se a pergunta era intrigante, a resposta foi provocatória e desconcertante.  Manovich apresentou resultados da sua investigação mais recente, que consiste na utilização de software de visualização de dados para representação dos padrões da cultura. Usando um vasto corpus de páginas digitalizadas de revistas Manga criou uma representação visual daquilo que designa como espaço do estilo, isto é, da variabilidade de parâmetros como áreas brancas/áreas negras/áreas cinzentas/áreas texturadas/áreas de cor, etc., na superfície das páginas. Esta galáxia de estilos gráficos podia ainda ser combinada com o espaço do género literário (‘drama’, ‘adventure’,  ‘action, ‘romance’, ‘phantasy’, etc.), definido a partir da distribuição estatística das folksonomias, isto é, das categorias atribuídas às obras pelos leitores. A visualização de um e outro espaço podiam, por seu turno, ser articuladas com outros parâmetros como o género [gender] do destinatário ou o autor.  A partir daquilo que as visualizações revelam sobre os milhares de páginas analisadas, Manovich infere a natureza contínua das variações: ainda que haja um aglomerado central, o repertório do espaço do estilo tende a estar ocupado em todas as suas variáveis.

Este modo de análise cultural pressupõe quer a digitalização maciça dos objectos culturais (consequência da crescente digitalização das sociedades), quer a criação de algoritmos de análise capazes de descobrir padrões nos dados agregados. Como método de conhecimento quantitativo, a epistemologia da «cultural analytics» constitui um desafio aos métodos qualitativos de análise da cultura característicos das humanidades, tradicionalmente centrados em inferências feitas a partir de interpretações verbais de objectos singulares ou de um pequeno número de objectos.  Além disso, demonstra de forma clara a dificuldade em manter operacional a distinção entre arte e arte de massas. Para Manovich, usar o software para descobrir os padrões da cultura parece ter dois propósitos: (1) tentar criar representações mais complexas e a diferentes escalas desses padrões; (2) formular perguntas novas a partir daquilo que o processo de visualização torna visível. Este é certamente o aspecto mais promissor da investigação no domínio da visualização de dados nas humanidades: a utilização da própria visualização como instrumento de pesquisa.

Ver notícia: «A “diversidade cultural” discutida na apresentação do novo doutoramento» (18 de Junho de 2010)

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